O prefeito precisa consultar o sapateiro Mauro

Marcio Fernandes – Depois de ter chorado até no consultório da médica, desci para o norte do centro de Goiânia atrás de gente que trabalha com as mãos: mercador de cabelo, sapateiro, garçom, dona de casa, tapeceiro e dentista. Existe uma indústria do cabelo na cidade. Atacado e varejo. O pessoal garante que é cabelo humano, mas na minha avaliação da vitrine tem um material exposto com cara de plástico da China disfarçado.
Eu queria muito encontrar meu pai no centro de saúde da Rede Ferroviária Federal S.A. O consultório dele na empresa estatal ficava ali bem ao lado de onde hoje é a Câmara Municipal. Iria rever a dra. Estela, também dentista, e o dr. Belarmino, cardiologista que fazia um atendimento clínico hoje difícil de se encontrar. Eles formavam com meu pai um trio bossa-nova lá em casa com disco, amor e whisky. E havia o dr. Celmo Celeno Porto, um cientista que fazia medicina básica para os ferroviários sem qualquer distinção. Seria recebido pela dona Shirley, secretária caucasiana espigada de uma gentileza importada para Goiás nos 1960.
Se tivesse ralado o joelho depois de tropeçar em um buraco nas ruas malconservadas da cidade, iria ser atendido pela bondade da dona Lisita, a mais carinhosa e paciente enfermeira da minha vida. Ela era espírita de alto nível. Nas mãos da dona Lisita, o mertiolate doía menos e o curativo podia ser mais ou menos molhado de tão bem-feito. Havia muito tempo que eu não ia à Estação Ferroviária de Goiânia e foi meio decepcionante ver um trilho decorativo onde eram as plataformas de embarque e desembarque, além de uma estática locomotiva a vapor que pelo menos não está exposta ao sol.

Não entendi a finalidade da instalação de dois pianos de armário, com uma banqueta disponível, no átrio da estação. Se foi para causar algo de erudito ao ambiente, o mural do Frei Confaloni dispensa bajulação. No geral, a estação está bem-cuidada e limpa. Quando começa a tardinha, os moradores de rua, a maioria expressiva de dependentes químicos, se reúnem para receber alimentação e asseio em um departamento da prefeitura bem longe dali. Depois que o relógio acusa seis horas da tarde, eles são dezenas de delinquentes amontoados nos dois lados da entrada principal da estação. Lá dentro, um funcionário muito simpático faz as contas para se aposentar e pensa como eu: votou no Ciro e é nem Lula nem Bolsonaro.
Eu saí da estação para ir até o Restaurante Popular na rua 72, mesmo sabendo que ele estava fechado. Sabia que iria encontrar alguém fazendo hora naquela altura do chove e faz sol no dia inteiro. A quarta-feira, 4, foi dia de casamento da raposa. Conheci o João da Cruz Cardozo, 67, cujo nickname (apelido), como ele gosta de dizer, é Fast Johnny. E não é só pela rapidez do garçom, com 36 anos de trabalho. Fast Johnny é um brasileiro comum, pardo e de pouca escolaridade, que fala inglês com uma fluência de render bons assuntos. Está meio acima do peso.

Tivemos um diálogo instrutivo sobre a tradição do restaurante, dos homens renomados que almoçaram por lá e da tradução da abundância da culinária goiana que ele faz naturalmente para os turistas estrangeiros. Fast Johnny me perguntou onde eu havia trabalhado. Acabei contando uns casos meus no Restaurante Popular com o empresário, político e líder ruralista Paulo Roberto Cunha (1942-2011), e as jornalistas Britz Lopes e Rachel Azeredo. Era o lugar que o Paulo exigia para comer quando chegava em Goiânia.
Na Rua 61, encontro a dona de casa Enestina José Alves, 82, conversando muito e mexendo com as mãos os dois assentos de cadeira que deveriam ser reformados na tapeçaria Art Flash. Ficamos amigos e ela me contou que antes de partir quer deixar o mobiliário do casarão da Rua 68, herdado dos pais, em perfeito estado para os sobrinhos. Seu pai veio construir Goiânia como operador de telégrafo em código Morse e ela é uma goianiense que ainda chama o pessoal do nordeste de nortista, como a minha avó, mas com idade para ser minha mãe.

Muito bem-arrumada com um casaco de chuva, chapéu e cheirosa, dona Enestina passou um sermão sobre o serviço das cadeiras no experiente tapeceiro, Osvaldo João da Silva, 57, um artista da restauração de estofados de uma paciência de chorar.
A tapeçaria do Osvaldo é um universo de móveis e retalhos de matéria-prima de revestimentos para estofados em uma loja de duas portas muito bagunçada, mas com um sentido de funcionalidade que só ele e o contramestre Maurício entendem e dão conta do recado, inclusive para exigentes escritórios de arquitetura e antiquários. Osvaldo me conta que não consegue mão de obra para aumentar a produtividade da microempresa. “Serviço e salário têm, mas o pessoal não quer trabalhar com esse tanto de moleza do governo.”
Há 35 anos na Rua 61, o tapeceiro concorda que os imigrantes do Haiti são vizinhos que trabalham e causam o mínimo de problema para a região. Por outro lado, lembra que não falta vagabundo brasileiro fazendo ronda no Bairro Popular, enquanto suas mãos governam a agulha da máquina de costura para restaurar algum detalhe de uma cadeira cheia de passado.
“Fiado Nunca! 5 DIAS PARA A RETIRADA dos calçados!” Essa é a regra número um do sapateiro Mauro Edson Alves Teodoro, 68, em seu estabelecimento comercial de prestação de serviços que tem de 1,6 metro de largura e faz um túnel com profundidade de dois metros. Ele nasceu em uma sapataria por tradição de família e está instalado na Rua 74, logo acima do mercado, desde 1983. Todo sorriso, o sapateiro é um sobrevivente do acidente radioativo do césio-137, que hoje virou conselheiro-geral do bairro. Mas do que isso, informa o jornalista Wladimir Araújo, 81, a estreita sapataria do Mauro é um consultório de psicanálise.

Enquanto ele troca a sola de uma botina ou arruma o salto da sandália de uma dançarina, no banco anterior ao balcão da sapataria em vários momentos do dia gente com todo tipo de problema se instala. São assuntos de família, oportunidades de negócios, frustações da vida e administração de antagonismos políticos que se converteram em inimizade. Claro, muitas infidelidades conjugais.
O negócio dele tem uma infraestrutura baseada na improvisação, mas muito bem-organizado. Mauro tem nas mãos perto e rápido a máquina de costura e as ferramentas imprescindíveis. Se precisar do martelo, está ali. É a adaptação eficiente da espécie ao ambiente extremamente estreito. O que ele não sabe é que vai passar a pagar imposto até da psicanálise do consultório gratuito da sapataria.

Já voltando para casa, descobri um pé de goiaba carregado na Avenida Tocantins, logo depois da Rua 55. Não estava muito difícil a colheita, já que meu filho Diego é alto, podia fazer o serviço de amarra-cachorro, mas teve um conflito de interesses com uns periquitos-estrela, donos do território e na hora do jantar. A goiaba tinha dono. Também ficamos amigos, falei que eu era auditor-fiscal aposentado e eles apreensivos me perguntaram se haverá no Brasil taxação do consumo de fruta pública por aves urbanas.

Eu disse que vem aí aumento da base de contribuição e da carga tributária em geral. Não entenderam nada do tributarês e foram se aconselhar com o sapateiro. No final da conversa, os periquitos ficaram de tomar uma decisão firme e mudar com a família toda para o Paraguai até meados do outono já com a transferência do domicílio tributário. Seria interessante o prefeito Sandro Mabel ter uma palestra com o sapateiro Mauro para dar uma melhorada grande na cidade. Tenho certeza de que na estreiteza do consultório, ele vai convencer o prefeito de que é muito ruim viver numa cidade suja.
Marcio Fernandes: texto e fotografias