Oviedo, meu principado imaginário

Marcio Fernandes – Eu nunca tive um feudo, nem servos que falassem javanês ou escravas brancas que fizessem bolos de baunilha todo fim de tarde com chá de canela. Agora, depois do infarto e de ter conhecido Oviedo, capital das Astúrias (Espanha), já combinei com Deus que na próxima vida, embora não acredite que ela existirá, eu quero um principado particular.
Eu mereço tamanha honraria, pois minha viagem até aqui foi marcada por 24 horas de horror. Primeiro, um voo pavoroso de quase 11 horas no poleiro da aeronave. Depois, cinco horas de espera em Madrid na Estação Chamartín em obras e muito poeirenta. Para fechar, um trem lotado que demorou quase quatro horas desde a capital da Espanha até Oviedo.

Um principado pode ser país independente, a exemplo de Mônaco, Andorra e Liechtenstein. Ou apenas uma referência nobiliárquica reservada ao herdeiro(a) do trono de uma monarquia, como é o caso do Principado das Astúrias, hoje destinado à princesa Leonor, filha do rei Felipe VI, assim como o País de Gales, no Reino Unido.
Nós, do terceiro mundo, temos muita dificuldade para entender assuntos ligados à nobreza, especialmente porque somos governados por um presidente da república chulo, de baixíssima escolaridade, e amancebado com uma desqualificada senhora de porta de cadeia chamada Janja da Silva que fala “menas” sem o menor pudor.
No final das contas isso não importa, já que meu principado será bem fubazento com produção em massa de tapioca, festa de boi-bumbá, distribuição gratuita dos livros de José Sarney e várias cidades chamadas Itaquaquecetuba, Aruanã, Jequié e uma capital encravada no cerrado desolador.

Oviedo tem tudo que um principado de alto nível deve ostentar, exceto um castelo, pois foi demolido no século 19. Em primeiro lugar, guarda uma bruma matinal diária para ocultar os seres da mitologia celta que habitam as cercanias da cidade. Como é lindo e diferenciado o povo celtibérico das Astúrias. São mulheres muito altas e elegantes, de pele banhada no leite de cabra das montanhas e cabelos feitos com a coloração da anchova pescada no Mar Cantábrico.
No primeiro de maio, imaginei que a cidade estaria repleta de manifestações políticas e protestos de esquerdopatas apedeutas. Ao contrário, nas ruas da cidade as pessoas celebravam o feriado prolongado com muita gente a beber sidra nos espaços públicos e mulheres de todas as idades a passear com um lírio branco muito aromático chamado muguet. A flor não tem nenhuma conotação política. Simplesmente marca a chegada da primavera após o rigoroso inverno asturiano.
Oviedo não tem nada de monumental. Na discreta arquitetura, destacam-se edificações pré-românicas e um casario muito colorido. Nunca vi uma cidade ter tanta escultura pública de muito bom-gosto e uma área central imensa destinada aos pedestres. Há, inclusive, uma escultura de tamanho real de Wood Allen em cujo pedestal o genial cineasta americano destaca a limpeza e a particularidade de Oviedo ter sido adaptada para se andar a pé em detrimento de veículos motorizados.

Se eu morasse na capital das Astúrias teria vida de príncipe por conta da quantidade de lojas de chocolate e confeitarias de alto padrão. São muitos e muitos tipos de tortas e bolos expostos nas vitrines. Por acaso, enquanto fotografava uma boutique de chocolate chamada Briz, passou por mim uma das muitas asturianas com botas de chacrete. Encontrei em Oviedo também uma certa “jornada gastronômica do atum vermelho”, outra paixão da minha vida que irei instituir no Principado de Itapirapuã, a ser herdado na próxima e improvável encarnação.
Vou também levar daqui um mercadinho de alimentos que, além de mandarinas (mexerica) da Almeria, oferece batatas de Salamanca, morangos de Huelva e tomates de Valência. Ainda que não acredite na existência de alma, descobri em Oviedo que elas têm um perfume alegre de hortaliças silvestres muito parecido com alecrim santo. Há muito tempo que não me deparava com uma loja de chapéus e encontrei até uma discoteca, espécie comercial completamente extinta no Brasil.

Mesmo sem acreditar, fiquei tocado por uma ordem religiosa católica que se intitula Comunidade Escravas do Sagrado Coração de Jesus. Esperava trombar com hordas de mochileiros fazendo o Caminho de Santiago, já que Oviedo é a origem da peregrinação iniciada no século 9. Só vi uma peregrina magrela precisando de um banho grande, meio perdida na cidade e com cara pálida de esfomeada.
Para terminar, na capital do meu principado imaginário haverá também um parque tão majestoso como o Campo de São Francisco, nesta altura do ano repleto de margaridas brancas a cobrir o solo.
Ele deve ser como Oviedo se considera: muito nobre, muito leal, benemérito, invicto e heroico. Nele vão morar os meus melhores amigos e haverá uma cardiologista de origem árabe, espigada e muito limpinha, para quando eu precisar de alguém que salve minha vida.
Marcio Fernandes, jornalista, é autor do texto e das fotografias