O pueblo mais lindo das Astúrias e um armazém de secos e molhados que vende sonhos quase de graça

Marcio Fernandes – Não há nada mais saboroso na vida do que a solidão bem-sucedida, especialmente quando há a companhia de vento cortante vindo do Oceano Atlântico e a paciência das cabras a pastar entre as falésias e o mar. Nesses momentos, até a timidez do sol faz meu dia ser ainda mais brioso.
No último 5 de maio, no Cabo Vidio, Principado das Astúrias (Espanha), celebrei a alegria da primavera repleta de lírios brancos e das cores variadas das margaridas entre flores de trevo-vermelho no solo escarpado.
Ao descer a Calle (rua) Camino de la Pedegrosa em direção de Soto de Luiña, com seu piso macio de grama molhada do orvalho da madrugada, eu era só simpatia e queridismo com a natureza até que fui atacado por um cachorro grande e pleno de ardil.
O bicho se aproximou amistosamete de mim, deu uma farejada – parece que não gostou do aroma da roupa que não trocava há seis dias – e depois disse a que veio ao iniciar implacável e covarde perseguição. Não fosse minha habilidade de dissipar o perigo com o cajado de metal não estaria aqui para contar a história.

Antes, passei um dia no pueblo (aldeia) mais lindo das Astúrias. Sinceramente, Positano (Itália) precisaria se reinventar para alcançar a beleza de Cudillero. Bem menor do que a cidade da Costa Amalfitana, essa vila de 1,6 mil habitantes encravada em uma colina de formação granítica de 400 milhões de anos, com visão panorâmica do Mar Cantábrico, é alguma de outro mundo.
Cudillero tem o mais remoto registro histórico escrito datado de 1285, no entanto grande parte do casario colorido de três pavimentos foi reformada ou edificada no século 19 pelos “indianos.”
Assim são chamados os asturianos que fizeram fortuna no México, na Argentina e em Cuba. Com os bolsos cheios de dinheiro, eles voltaram para a terra natal, construíram suntuosos palácios em toda costa ocidental das Astúrias e criaram um estilo arquitetônico único.
O pueblo não tem vida noturna, mas durante o dia, turistas e mochileiros da Europa se misturam nas ruelas verticais e sinuosas do lugar em busca da vista mais linda desde os três mirantes do lugar, situado entre as montanhas e o mar.

Claro que há vários restaurantes e lojas de souvenir destinados à turistada desvairada em busca do menu do dia e de ímã de geladeira. Vale muito a pena bater perna pelos lugares escondidos na colina à procura da típica gastronomia que une frutos do mar e iguarias de caça das montanhas.
Como não me alimento de crustáceo e molusco, fui de magret de pato selvagem sobre cama de figos confitados. Um espetáculo de almoço servido por solene garçom de paletó negro e gravata borboleta. Para mim, restaurante que não tem guardanapo grande de tecido de algodão está mais para lanchonete. Mas como PF numa boa e já dormi muitas vezes em albergue.
No outro dia, para me despedir do Principado das Astúrias, fui até Oviñana de carona com o Ivan, proprietário da pensão em que estava instalado para explorar o mar sem fim de tonalidade esmeralda do Cabo Vidio com seu farol dos anos 1950. É uma caminhada boa até lá e dá medo se aproximar da borda das falésias com mais de 100 metros de altura.
Caía uma chuva fina e o céu de nuvens bravas atrapalhou um pouco a produção fotográfica. Mesmo assim, valeu cada segundo sob um vento atrevido e áspero carregado de maresia a cortar em fatias a minha pele casca grossa do cerrado do Brasil Central.

Uma semana no Principado das Astúrias convenceu-me a abrir um comércio de secos e molhados. Na primeira seção, queijo gamonedo maturado em cavernas, amêndoas sortidas, chocolates da Suíça, baleiro de vidro com seis bocas e feijão jalo. Talvez farinha de mandioca e embutidos de La Casa Real del Jamón. Com certeza café das terras altas da Etiópia e bacalhau seco na porta da venda.
No setor de molhados, azeite da Sicília, leite dos Açores, anchovas em escabeche servida sobre fatia de pão do País Basco, vinhos do Minho (Portugal) e da Rioja (Espanha), além de suco de laranja importada de uma banca de frutas de Tel Aviv. Mesmo que o Ibama mande me prender por crime ambiental, no armazém de secos e molhados vai ter um papagaio malandro a cantar “eu vou pra Maracangalha, eu vou…” Foi uma herança da minha avó Joanita.
Decidi situar o estabelecimento comercial em uma rua que dei o nome de Nossa Senhora dos Desamparados. No plano de negócios, consta também a comercialização de sonhos por um preço módico, quase simbólico. Só não decidi ainda se eles vão ficar na prateleira de secos ou de molhados. Como li em hotel em Avilés (Espanha), não basta dormir, é imprescindível sonhar.
Você pode sonhar com carroças a subir as escadas do paraíso, incluir amores frustrados em perfeito reencontro depois décadas, viajar na comida de mãe com sabor de fogão caipira e até se imaginar um peixe voador em uma terra na qual não há gente desqualificada a ouvir mensagens no celular em voz alta no trem.

É permitido sonhar que o Brasil dará certo. Ter certeza de que ninguém vai estacionar na porta da tua garagem por um minutinho e supor que os políticos deixaram de ser ladrões de merenda escolar.
Alguém poderia sugerir em qual prateleira serão expostos os sonhos deliciosos como sorvete de pistache em casquinha? Os sonhos devem ser expostos no setor de secos ou no de molhados?
O troco, se o cliente não se incomodar, será dado em forma da simpatia do povo asturiano. São pessoas tão polidas no trato pessoal que poderiam abrir um curso universal de gentileza para ensinar bom-comportamento aos toscos de todo gênero.

Cresceu o número de amigos que irão integrar o meu principado nada real. Nélia Cristina Costa, a única amiga que deu ombro para eu chorar depois que meu irmão cometeu suicídio, está confirmada. Maria Amélia Alencar quer se hospedar em meu palácio imaginário nas Astúrias.
Heloísa Fitzgerald fez promessa de me levar ao Nepal. Euler Fagundes de França Belém, meu editor no Jornal Opção, está consagrado no palácio. Se eu tivesse um desses sobrenomes seria mais importante do que o Marquês de Pombal.
A Lara Nercessian condicionou a vinda ao principado à construção de uma ciclovia. Aletéia Mazzula, minha filha, foi nomeada ministra da Fazenda por ser uma craque em economia doméstica. Já o grande Inácio Costa Marinho será o tradutor-mor do latim se houver algum embaraço político com o clero.
Marcio Fernandes, jornalista, é autor do texto e das fotografias
Eu vou aplicar para um visto permanente nesse principado aí então quem sabe não sou convidada para o ministério de arte e cultura depis de nossa viagem ao Nepal!
Hoje vc estava mesmo inspirado
Já estou providenciando o passaporte para o principado! E como visitante VIP!
Querida Heloísa, você já está nomeada Ministra da Cultura.