quinta-feira, 28 de maio de 2026

Não se deixe levar pela compensação afetiva

 

Rosa Donzelli – Durante uma caminhada pelo Lago das Rosas, atravessando a Anhanguera e a Alameda, observando o fluxo incessante de pessoas ocupadas demais para perceber a si mesmas, pensei em algo que a psicologia conhece bem: muitas vezes, oferecemos ao outro exatamente aquilo que nos faltou nos momentos mais decisivos da vida emocional.

 

Há pessoas que sustentam uma calma admirável, mas vivem internamente em estado constante de vigilância psíquica, como quem aprendeu desde cedo a conter os próprios abalos para continuar funcionando. Outras demonstram afeto de maneira intensa não porque transbordam segurança, mas porque carregam uma necessidade profunda de pertencimento, validação e permanência. Existe também quem passe a vida acolhendo dores alheias porque conhece intimamente a experiência do desamparo e encontrou no cuidado uma forma de reorganizar a própria história emocional.

 

A verdade é que muitos vínculos humanos são construídos sobre mecanismos silenciosos de compensação afetiva. O sujeito que parece forte demais, às vezes apenas desenvolveu uma estrutura sofisticada de defesa. O que aconselha, escuta e sustenta os outros pode estar exausto de nunca encontrar espaço legítimo para também ser cuidado.

 

Vivemos uma época em que a aparência emocional ganhou mais valor do que a experiência emocional em si. As pessoas aprenderam a administrar a própria imagem psíquica com eficiência: demonstram equilíbrio, maturidade e autocontrole enquanto convivem, silenciosamente, com ansiedade, vazio, exaustão e sensação de desconexão. Existe uma estetização do bem-estar que frequentemente encobre sofrimentos não elaborados.

 

Talvez por isso tantas relações pareçam intensas, mas pouco profundas. Escuta-se menos para compreender e mais para responder. Muitos encontros não acontecem entre duas subjetividades reais, mas entre projeções, expectativas e carências que tentam encontrar alguma forma de reparação no outro.

 

E talvez a maior dor não esteja na solidão em si, mas na percepção de ter sido espaço seguro para tantas pessoas sem experimentar, na mesma medida, a sensação de repousar emocionalmente em alguém.

 

No fim, o que oferecemos ao mundo raramente nasce apenas da abundância. Muitas vezes, nasce da falta.

 

Rosa Donzelli: CRP 09-237

Este post foi escrito por: Rosa Donzelli

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