Flávio e a cascavel que precisa de um porrete bem dado

Demóstenes Torres — Dias atrás, estava num restaurante em São Paulo quando percebi um grupo se deslocando em torno de alguém, antes de entrar no recinto. Como pareciam fãs ao redor de um ídolo, pensei que fosse Robert Plant, do Led Zeppelin, que se apresentaria na cidade naquela semana. Gosto do vocalista e nunca o vi tão de perto. Supus que com um pouco de sorte poderia dizer depois que jantei com o ídolo mundial do rock. Se não na mesma mesa, ao menos sob o mesmo teto.
O aglomerado de pessoas foi se dispersando e, para minha surpresa, o senhor que parecia o vetor das atenções veio no nosso rumo. Nada de estrela da música internacional, era um astro da política brasileira, o professor Michel Temer. Não fui o primeiro nem o único a saudá-lo.
Num corredor próximo, um senhor saiu da cadeira e interrompeu os passos do ex-presidente para o cumprimentar. Identificou-se como médico e lembrou de quando seu governo passou a investir em remédios na Farmácia Popular. Mas não seria o óbvio um cidadão ir à drogaria parceira do governo? Depois nos contou: antes de Temer, a maior parte da verba era para gerir o sistema, só 20% se destinavam ao produto distribuído:
“Dr. Temer mandou que 100% dos recursos fossem para medicamento”.
Logo virou polarização. Ao menos de idade. A seu lado, um jovem residente agradeceu a Temer por ter contido a enxurrada de cursos na área. Ainda é tão fácil abrir uma pamonharia quanto uma faculdade de Medicina, todavia o ex-presidente suspendeu a farra por 5 anos.
Nos dois casos de interrupção abrupta de mandatos presidenciais, de Fernando Collor e Dilma Rousseff, seus substitutos se sobressaíram. Itamar Franco implantou o Plano Real, que trouxe a estabilidade para a economia. Temer segurou o Brasil, que descia a ladeira, concluiu milhares de obras começadas havia décadas e bolou o Pix, concluído por Jair Bolsonaro, além do que os médicos relataram.
Tudo isso para dizer que não apenas Robert Plant, 77 anos, ainda dá show. Escrevi aqui sobre performances memoráveis que vi de três cantores que estão com 83, Milton Nascimento (quando já setentão), Caetano Veloso e Paul McCartney, ambos recentemente cantando e tocando de pé durante mais de três horas seguidas. Temer não é um artista, mas também merece ser ouvido.
Bolsonaro, o pai, se aconselhou algumas vezes com ele, inclusive durante as rusgas com o Supremo Tribunal Federal. Já que Flávio, seu filho, precisa furar a bolha e se aproximar do centro, Temer tem muito a contribuir com ideias e estratégias.
Já com Lula ocorreu o que no sertão se apregoa sobre a cascavel, se não esmagar a cabeça e conferir várias vezes que realmente está morta, ela recobra as forças e dá-lhe o bote. O próprio sobrevivente petista achou que seu novo adversário, Bolsonaro filho, seria mais fácil que Bolsonaro pai. Perdeu, pleibói. Em menos de 100 dias, Flávio ultrapassou quem há décadas está obcecado pela Presidência da República.
Quando Flávio se consolidava, veio o grande enfrentamento de narrativas no Caso Master. Lula recebeu Daniel Vorcaro quatro vezes em agendas secretas no Palácio do Planalto ao lado do hoje chefe do Banco Central e Flávio não podia visitá-lo para cobrar um acordo de patrocínio particular, sem dinheiro do Orçamento da União.
Como o PT está infiltrado em tudo quanto é lugar, da imprensa às universidades, dos sindicatos aos concertos musicais, logo passou-se a dizer que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e vários outros poderiam substituir Flávio. Ali, só Jair.
Os que torceram contra levaram um bote da cascavel. Flávio é ninja, foi atingido de raspão, vai se reerguer sem ter se curvado. Como publiquei aqui outras vezes, Jair está em prisão domiciliar, inelegível, doente e nas pesquisas seu nome continua sendo um susto para as esquerdas. O filho parece duro na queda do mesmo jeito. Com esse tanto de manchete contra ele o tempo inteiro há 7 anos, já era para ter se dissolvido. Permanece intacto. Quando se supunha que havia tomado um tiro na testa, só pisou num traque.
Tentaram o mesmo com Temer, que continua sendo meu candidato favorito e no Palácio do Planalto poderia novamente endireitar o Brasil. Agora, o juiz que mandou sequestrá-lo está no limbo, perdeu o cargo no tribunal e vive assombrado temendo a volta do cipó no lombo de quem mandou dar. Enquanto isso, sua vítima arrasta multidão em restaurante. Ampliado para o Brasil, é o que vai ocorrer com Bolsonaro pai e filho.