A mulher de ontem e os espelhos de hoje

Rosa Donzelli – Outro dia me peguei observando fotografias antigas. Não aquelas produzidas para impressionar desconhecidos, mas as guardadas em caixas de sapato, amareladas pelo tempo. Nelas havia mulheres que pareciam não disputar nada com ninguém. Não buscavam aprovação de algoritmos nem viviam sob a vigilância permanente de uma câmera.
Tinham presença.
E presença é uma qualidade difícil de fabricar.
As mulheres de algumas décadas atrás carregavam marcas que hoje muitos tentam apagar. O sorriso surgia torto, o cabelo desobedecia ao pente, o corpo contava histórias em vez de esconder o caminho percorrido. Havia nelas uma elegância menos preocupada com a perfeição e mais comprometida com a vida.
Conversavam sobre livros, política, cinema e, entre uma gargalhada e outra, transformavam uma simples noite em lembrança duradoura. Não precisavam parecer personagens de si mesmas. Bastava existir.
Hoje, cercados por filtros, procedimentos e fórmulas prontas de beleza, às vezes temos a sensação de que muita coisa ficou impecável demais. Os rostos se parecem, os gestos se repetem, as fotografias seguem o mesmo roteiro. A singularidade, que sempre foi o maior charme humano, por vezes cede espaço à produção em série.
Mas talvez a saudade não seja apenas da estética de outra época. Talvez seja da espontaneidade. Da liberdade de ser imperfeita sem pedir desculpas. Da mulher que não precisava ser uma vitrine ambulante porque já era, por si só, uma história interessante.
As fotografias antigas continuam ali, silenciosas. E, olhando para elas, fica a impressão de que algumas pessoas envelhecem, enquanto outras se transformam em lenda. Não por terem sido mais bonitas, mas porque foram mais autênticas.
Rosa Donzelli / CRP 09-237