quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Sabatinas na republiqueta desalmada: parte II – o homem da cabeleira prateada

 

Provincia de Goyaz, agosto de 1896.

 

Senhora Editora,

 

      Já ganhou! Já ganhou! Já ganhou!

Os gritos de vitória ecoam-me na mente sem cessar! É-me impossível fugir desta sensação vitoriosa que senti quando vi e ouvi meu conterrâneo ser sabatinado para a guarda desta nação brasileira.

 

Senhora, aplaudi de pé e de pé ainda estou, nestes anos de oitocentos, vendo Goyaz se descortinar para os brasileiros. Já era tempo. Já era tempo deste povo brasiliano conhecer mais que os bandeirantes conheceram. A emoção toma-me por completo. Descobri-me bairrista, madame! A superlatividade masculina demonstrada pelo candidato goiano deixará nos pés os demais aspirantes à bainha republicana.

 

É preciso demonstrar fielmente ao vosso leitor como o candidato é Goyaz e como Goyaz é o candidato. Um é outro, senhora, ponha tento! E por obviedade, são eles o Brasil. Rogo ao Altíssimo ser capaz de explicar tamanho fenômeno, ocasião em que presto-me a dividir, em partes, esse meu raciocínio, para que nada vos falte de entendimento.

 

Começo pela cabeleira. E que cabeleira madame! Nada é mais Goyaz que aquela vastidão de cabelos brancos, perfeitamente alinhados, praticamente uma entidade ensimesmada.

 

Perceba já neste não tão detalhe: não se sabe se ela pertence ao candidato ou se o candidato é que pertence a ela. Entrou no estúdio antes do homem, alteada, imponente, inteiramente livre das convenções às quais se submetem os cabelos dos demais mortais, era a franca insurreição!

Confesso-vos coisa imprópria para publicação: poderia eu perder-me por ali. Se não retornasse, deixassem-me lá. Há extravios menos dignos do que esse aqui confessado.

 

Aforante as nuvens apostas logo acima da testa do candidato, prestou vosmecê atenção à voz? Ouviu bem aquela voz de berrante? Ouso dizer que aquela voz é para além deste centro-oeste: aquilo é voz do Olimpo! Valha-me Deus, que perfeição!

 

Deixando de lado a impressionante apresentação pessoal na qual tirou dez com louvor, o sabatinado foi extremamente feliz naquele quesito que adiantei e com o qual me emociono e estou às lágrimas até agora: o GOYAZ!

 

Veja bem madame o que de fato é esta Província, pois a mesma foge da geografia humana.

 

Os jornalistas faziam uma pergunta no Rio de Janeiro e a resposta parecia convocar uma boiada nas margens do Araguaia. O homem não falava apenas aos jornalistas. Chamava o gado, apartava as reses, reunia a Província e, se lhe concedessem mais cinco minutos, estou certa de que faria comparecer ao estúdio todo o rebanho nacional.

 

As perguntas tornavam a ser feitas e outra vez e outra vez, e as respostas borbulhavam.

 

Foi quando compreendi, senhora editora, que meu conterrâneo não se recusava a responder. Seria injustiça acusá-lo disso.

 

Caiado respondia.

Apenas respondia a perguntas que não haviam sido feitas.

Há nos sertões desta Província lugares assim. O viajante toma uma vereda com destino ao norte e, depois de muitas léguas, descobre-se chegando ao sul. Grita o nome de um companheiro e o eco lhe devolve o de um morto há décadas. Pergunta pela estrada de Vila Boa e recebe por resposta a idade de uma novilha. Ninguém se espanta. São artes do sertão, onde nem sempre as palavras regressam com o mesmo sentido com que partiram.

 

Desconfio que exista uma dessas passagens escondida na cabeleira do candidato, pode ser!

 

O jornalista perguntou pela idade mínima da aposentadoria.

 

A pergunta subiu pela lapela do paletó, contornou-lhe o pescoço e entrou na cabeleira. Lá dentro, perdeu-se. Retornou transformada.

 

Por três vezes madame! Três vezes!

 

Nisso preciso louvar a persistência dos senhores jornalistas, obviamente presos às leis ordinárias da razão, às quais não fazem o menor sentido por acá. As perguntas eram lançadas para no instante seguinte entrarem nas matas e desaparecem como tantos causos que por aqui se escuta. Se um dia aparecerem respostas, apontá-las-ei neste periódico, pode confiar!

 

Atente, todavia senhora, ao número três, mística que me capturou o pensamento e não me passou desapercebida. À frente, analisarei essa numerologia, mas preciso seguir o percurso do meu patrício, para que também meus pensamentos não se percam nesse calorão à espera da chuva.

 

Houve um momento que meu entusiasmo sofreu ligeiro embaraço, tenho que revelar. Ao discorrer sobre segurança pública, o goiano já via-se investido de poderes tão largos que exclamou:

 

— Já pensou eu com o país todo na mão?

     

Pensei, madame. Pensei imediatamente.

 

Vi o Brasil inteiro acomodado na palma do Caiado: as províncias espremidas entre os dedos, os rios escorrendo pelas linhas da mão, o litoral dependurado no polegar e esta nossa Goyaz, naturalmente, ocupando o centro, por ser esse o lugar que lhe cabe na geografia humana e sobre humana, na natural e na espiritual.

 

Nesse momento, não soube determinar se a República encolhera ou se a mão do candidato crescera durante a entrevista.

 

Pouco depois, ao revés de ser perguntado, o próprio sabatinado formulou uma pergunta:

 

— Quem é o comandante das Forças Armadas?

Segundos de silêncio para que ele mesmo pudesse esclarecer:

— É Ronaldo Caiado.

Que eficiência, senhora editora!

 

Ele mesmo pergunta, ele mesmo responde, ele mesmo proclama o resultado e, se não o interrompessem com novas indagações, estou certa de que tomaria posse antes do intervalo comercial.

 

A cabeleira confirmaria a nomeação, por certo com sua coroação.

 

Mas não termina por aí, porque Goyaz nunca foi módico. Depois de ter o país inteiro na mão e de se declarar comandante das Forças Armadas, o anapolino confrontou-nos com ritual diário de devoção, o que calou fundo no meu coração:

 

— Eu, todo dia cedo, faço minha oração, peço a Deus para me guiar e piso na vaidade.

Não satisfeito, repetiu:

— Todo dia cedo eu piso na vaidade. Piso na vaidade.

A princípio, admirei-lhe a disciplina.

 

Não conheço muitos homens públicos que incluam o pisoteio da própria vaidade entre as obrigações matinais. É uma rotina edificante. Mas algo ali não permitia perfeito encaixe.

 

A cabeleira se agitava com aquele movimento discreto de quem sabe alguma coisa e luta para não revelar. Uma mecha se levantou. Outra se deitou sobre a testa. Uma terceira pareceu acenar-me do alto, como testemunha desejosa de prestar esclarecimentos.

 

Foi então que compreendi.

 

Caiado pisa na vaidade todas as manhãs, é verdade. Mas a danada não morre nem desfalece, apenas finge-se vencida debaixo das botas, espera que o candidato termine a oração e inicia a subida: vai pelos tornozelos, alcança os joelhos, atravessa-lhe o peito, passa pelo pescoço e esconde-se ali dentro do cabeleiral. Ali encontra abrigo. Se acha estranho tudo isso madame, há espaço suficiente nesse Goyaz para uma vaidade de grandes proporções, algumas tropas de Hugo de Carvalho Ramos, os ruminantes de José J. Veiga e, por que não, uma República inteira.

 

— Piso na vaidade. Piso na vaidade. Piso na vaidade.

 

Três repetições. Três perguntas feitas e desaparecidas. É preciso investigar, pois nada acontece ao acaso nessas terras.  

 

O número três guarda antiga predileção por Goyaz. Não muito distante daqui, no arraial de Barro Preto, os fiéis já se ajoelham diante do medalhão encontrado por Constantino Xavier e Ana Rosa, no qual a Santíssima Trindade coroa Nossa Senhora. Pai, Filho e Espírito Santo: três pessoas distintas reunidas em um só Deus.

 

Talvez esteja aí a chave do mistério.

Na sabatina, três perguntas e uma única resposta.

Perguntou-se pela Previdência.

Respondia-se Ronaldo Caiado.

Perguntou-se pela segurança pública.

Respondia-se Ronaldo Caiado.

 Perguntou-se pelo comando das Forças Armadas.

Respondia-se, com ainda maior precisão:

— É Ronaldo Caiado.

 

Omne trium perfectum: tudo o que vem em três é perfeito.

 

Por certo imagino que vosmecê e os vossos fiéis leitores desconheciam esse Goyaz. Aqui não existe ponto sem nó madame! Há rincões, mais para o norte, que a Lua desceu e cavoucou buracos, para esconderijo de seres do espaço. Nas bandas meridionais da Província nasce uma água tão quente que desatina quem chega perto: rios de água fumegante. Para outros lados, cavernas que dão no inferno, de outros, assombrações que botam caiados para correr…

 

Essa terra não é brinquedo.

Nada é como se vê.   

 

Não me surpreenderia em nada descobrir que a vaidade é que governa a cabeleira caiada, a cabeleira governa o candidato e o candidato pretende governar o Brasil. Ponha tento: outra trindade, madame, embora de natureza menos divina e muito mais difícil de pentear.

 

Aqui é outra República, veja bem!

Compreendi, afinal, por que iniciei esta missiva gritando três vezes:

— Já ganhou! Já ganhou! Já ganhou!

Não fui eu, senhora madame editora.

Foi Goyaz que falou por meu intermédio.

Ou talvez tenha sido a cabeleira.

Já não posso assegurar quem governa quem.

 

Mas é chegada a hora do lusco-fusco. As galinhas recolheram-se todas, a boiada aquietou. Espera-se a hora do mistério, para depois a hora das almas. Melhor deixar para amanhã a festa da vitória!

     

Viva Goyaz, o coração do Brasil.

Cumprimento-vos senhora com admiração e gratidão!

 

Sinhá

Este post foi escrito por: Sinhá

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