sábado, 29 de agosto de 2026

Sabatinas na republiqueta desalmada: parte III – o candidato bombástico

 

Província de Goyaz, nos derradeiros dias de agosto de 1896.

Sra. Editora,

Pularei um!

Não me censureis, madame. Ainda não me encontro inteiramente restabelecida dos excessos da véspera.

 

Desde que me perdi naquela cabeleira, padeço de certo quebrantamento dos nervos, peso na cabeça, secura na boca e grave desarranjo dos humores. Não posso assegurar-vos que seja ressaca, pois não provei vinho. Embriaguei-me do Goyaz, o que produziu efeitos mais demorados e intenções impublicáveis, valha-me Deus e sua mãe Santíssima!

 

Foi nesse estado de debilidade que me apareceu a sabatina do jovem candidato do Livro Amarelo.

 

Temi, madame! Temi por mim e pelas gentes todas e explicar-vos-ei o motivo deste pavor:

 

É que no ano de 1895, esse que se passou, caiu-me às mãos, chegada das Américas, uma obra misteriosa, de autoria do senhor Robert W. Chambers, intitulada “O Rei de Amarelo””. Trata-se de um livro dentro do qual existe outro livro, ou melhor, uma peça teatral, cuja leitura perturba o entendimento e leva os seus leitores ao desgoverno da própria razão.

 

O primeiro ato, dizem, parece inofensivo.

 

É o segundo que enlouquece.

 

Seriam esses livros amarelos livros de linhas irmãs? Não ouso afirmar, contudo, ouvi do candidato coisa que agravou minhas suspeitas: pretende ele que nossa pátria tão gentil venha a possuir uma bomba atômica.

 

Uma bomba feita do átomo, madame!

 

Mal começam os homens de ciência deste meu século a desconfiar dos segredos encerrados na matéria, e o menino amarelo candidato já deseja fazê-la explodir sobre os outros povos. É admirável a velocidade do progresso quando não precisa aguardar o conhecimento.

 

Perguntado se tão formidável empresa não exigiria estudos científicos, respondeu que não era necessário estudo algum para saber que uma nação precisa de força para se defender. Por causa desta afirmação, compreendi então o perfeito funcionamento de seu raciocínio: primeiro decide-se pela bomba; depois, se houver tempo e ainda restar mundo, chamam-se os cientistas.

 

Talvez esteja aí o parentesco entre os dois volumes. No livro do senhor Chambers, a leitura conduz o homem à loucura. No Livro Amarelo do menino, receio que a loucura seja chamada a escrever o segundo ato.

 

Por isso, senhora editora, pularei a análise desta sabatina, sem prejuízo de comentar sobre este candidato a posteriori, se vivos estivermos todos.

 

Não por covardia omito-me. Faço-o em benefício da pátria. Se o jovem pretende armar a República sem necessidade de ciência, convém que ao menos esta vossa correspondente conserve alguma razão para contar o sucedido.

 

Por ora, preciso de assunto menos vertiginoso.

Cumprimento-vos com admiração,

 

Sinhá

Este post foi escrito por: Sinhá

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