As sombras, as paredes rasgadas e o divino no pôr do sol de Pirenópolis

Marcio Fernandes – Ontem eu saí pelas ruas do centro histórico de Pirenópolis (GO) atrás de sombras do fim de tarde. Sombra de lanternas centenárias, do corrimão das escadas nas portas de entrada das casas, das beiras dos telhados e o que mais me esperasse de luz em movimento.
Só não queira saber de sombra de gente. Neste aspecto, eu já me sinto confortável em ser sistematicamente cumprimentado por ser velho.
Em Pirenópolis, o cumprimento é tão sincero que o camarada que nunca te viu passa a mão na aba do chapéu em pura reverência à sua idade avançada que ele também tem.
Quando o sol faz a queda definitiva para o oeste e se despede da longa jornada de trabalho de um dia inteiro sem descanso, acaba por atingir os objetos de soslaio. Eles são projetados em desenhos horizontais.

Assim, são criadas as sombras mais lindas do Brasil Central. Só quem tem absoluta e estúpida ignorância da história brasileira é capaz de desqualificar a extraordinária obra civilizacional da colonização portuguesa no centro dos trópicos da América do Sul.
Eram mais de três meses a pé e em cursos navegáveis em direção ao Brasil que só tinha olhos para o mar. Aqui foi edificada não só uma obra econômica, mas um empreendimento cultural fantástico que deu origem ao modo de vida caipira.
Hoje, aquilo que era o atraso se tornou um estado que causa zero de problema ao país. Ao contrário, se o Brasil fosse Goiás, estaríamos muito próximos do padrão de Santa Catarina. Em Goiás não tem favela do Rio de Janeiro nem bolsão de miséria do Nordeste.

Pirenópolis é um exemplo especial da iniciativa colonial que adaptou a arquitetura alentejana ao ambiente desafiador da savana brasileira neste imenso sertão de ambiente áspero.
A cidade nasceu da sede do ouro – explorado por mão de obra escrava e marcado pelo extermínio dos indígenas – que parecia abundante, mas durou pouco. Por conta da pobreza das minas é rara a expressão do barroco goiano.
Depois, veio a decadência de quase dois séculos da atividade econômica insignificante de Goiás. Por fim, a cidade se transformou em polo do turismo cultural e ambiental.

Primeiramente chamada de Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte, em 7 de outubro de 2027 fará 300 anos. É quase nada se imaginarmos os monumentos milenares da Europa.
É muito ao se considerar que o colonizador demorou dois séculos, desde o descobrimento, para conquistar e criar um sítio habitável da cultura ocidental por aqui. As sombras do casario português são um marco desta fascinante aventura tropical.

E se você procurar por paredes descascadas, verdadeiramente rasgadas pela ação do tempo, vai encontrar camadas de adobe vermelho, como é a cor da terra do Cerrado brasileiro. Acomodados em cubos de padrão exato de volume, eles são um elemento essencial da engenharia portuguesa do século 18.
Sofisticados, os tijolos mostram as entranhas das casas e viraram uma referência arquitetônica ressurgida em Pirenópolis. De elemento básico, o adobe se converteu em material de construção de primeira linha.

Como sou monoteísta, não creio, mas respeito a doutrina católica de Deus centrada na Santíssima Trindade. Sempre que estou na cidade, faço o percurso da Rua Nova no sentido leste-oeste só para apreciar a cruz com o símbolo do rosário.
Muito vaidosa, ela nunca deixa de ter algum enfeite para que sempre se afirme a fé cristã trazida pelo colonizador para estas terras até então selvagens. Elas viviam no período do Neolítico quando ocorreu a expansão marítima. Um atraso fácil de 10 milênios.

Sombras de 300 anos, paredes rasgadas para comprovar a idade da terra no adobe colonial e a cruz para dizer o quanto é lindo o pôr do sol de setembro depois de uma chuva fraca na tardinha do sertão de Goiás.
Assim foi a quarta-feira em Pirenópolis. Eu havia meio que me divorciado da cidade, mas do nada bateu uma vontade de voltar. Ela é muito generosa comigo e sempre me deixou fotografá-la em poses de muita intimidade.

Marcio Fernandes, jornalista, é autor do texto e das fotografias