E segue o regimento…

Província de Goyaz, já aos dezesseis dias do setembro de 1896.
Madame Editora,
Como estais vós?
É preciso revelar-vos: depois do que assisti ontem na mais alta Corte do Brasil destes vossos anos, não tenho condições emocionais de continuar examinando homens que desejam governar a República. Estou ocupada demais observando os homens que julgam os homens que governam a República.
E, de tudo quanto vi e ouvi, um cavalheiro do Maranhão roubou-me inteiramente o pensamento.
A sessão mal despertara e já se via o maranhense diante da autoridade máxima daquele recinto, não para derrubá-la, diminuí-la ou negar-lhe a presidência, mas para recordar-lhe que até o presidente está submetido ao livro posto sobre a mesa.
— “Eu vou seguir o Regimento Interno da Corte.”
Repetida em tom baixo e firme, a frase pareceu-me o cajado de Moisés diante do Mar Vermelho: não enfrentava apenas as águas; ordenava-lhes que respeitassem uma autoridade superior.
Madame, estremeci.
Não foi ainda amor.
Foi coisa menor, talvez admiração, curiosidade ou princípio de febre, mas algo veio sobre mim e em mim, que me é muito difícil de explicar.
O presidente retrucou.
Ele, a potência do Maranhão, o conterrâneo de Gonçalves Dias, o da terra das palmeiras, onde canta o sabiá, sustentou que o aparte se dirigia ao ministro que falava.
Compreendeu-se que ali ele estava certo.
A frase entrou-me pelos ouvidos e foi alojar-se justamente no meu coração, órgão que, como se sabe, jamais respeitou lei, decreto, postura municipal ou decisão transitada em julgado.
Tentei reagir.
Disse a mim mesma que se tratava apenas de debate procedimental.
Mas o cavalheiro prosseguiu.
Falou de avocação.
Avocação, senhora editora.
A palavra, para mim, adquiriu uma gravidade sedutora.
E imediatamente meu coração compreendeu: estava eu dentro de um romance machadiano.
Perdida!
Pobre de mim!
Uma avenida, disse ele. O jurisconsulto olhava a avocação e enxergava uma avenida.
Eu olhava o jurisconsulto e já não enxergava saída.
Neste ponto, senhora, minha admiração deixou de ser puramente jurídica.
Não sei se foi o Regimento, a coragem, a eloquência ou aquela firmeza maranhense de enfrentar o presidente olhando-o diretamente nos olhos.
Sei apenas que me rendi.
Rendida estou.
Meu coração transborda de amor.
A princípio, amor real, terreno e inteiramente feminino. Amor de mulher que se encanta por um homem em razão das qualidades que ele demonstra: inteligência, coragem, autoridade e a rara disposição de abrir um livro quando todos os outros parecem preferir abrir a voz.
Já me imaginava perguntando-lhe, ao cair da tarde:
— Senhor meu marido, vamos passear?
E ele me respondendo:
— Vamos seguir o Regimento.
Eu indagaria:
— Senhor meu amo, a que horas devo servir o jantar?
E ele então abriria questão de ordem.
Seria uma convivência ordenada.
Nenhum beijo sem distribuição.
Nenhum abraço sem competência.
Nenhuma declaração de amor sem prévia inclusão em pauta.
Estou apaixonada, madame.
Escrevo-vos deitada, com os sais ao alcance da mão e Augustinha abanando-me com um exemplar da Constituição, pois não encontrou objeto mais apropriado para acudir uma mulher acometida de paixão judiciária.
Foi então que, depois de ouvi-lo atentamente durante todo o dia, naquele caudal de palavras concatenadas, completas e perigosamente sedutoras, escutei-o dizer, en passant:
— Minha esposa diz isso!
Augustinha garante que permaneci desacordada por poucos minutos. Para mim, foram três instâncias e dois graus de jurisdição.
Caí entre a Constituição e o tinteiro.
Quando tornei a mim, já não era a mesma mulher. Meu amor, impedido de realizar-se no mundo dos corpos, subira imediatamente para o mundo das ideias.
Tornara-se platônico.
Foi uma transformação rápida e muito conveniente para todos os envolvidos, especialmente para a esposa do cavalheiro, a quem desde já apresento minhas homenagens e asseguro minhas mais puras intenções.
A partir deste momento, amarei o Ministro apenas em espírito.
Nada quero de seu corpo.
Contento-me com seus votos.
Nada reclamo de seus braços.
Bastam-me seus apartes.
Nada pretendo de sua vida conjugal, que respeito como coisa julgada, protegida contra qualquer ação rescisória desta pobre colunista.
E a tarde foi transcorrendo entre a paixão e a desilusão, entre os apartes e os “se me permite”, entre a presidência e um tribunal acéfalo.
E a sessão prosseguiu até que perdeu o rumo.
As vozes se altearam. Os dedos passaram a apontar. As palavras, antes jurídicas, começaram a se transformar em lâminas e altercações.
Madame, lembrei-me imediatamente dos homéricos Aquiles e Agamêmnon.
Em determinada altura da história, os dois discutiram de tal maneira que Aquiles levou a mão à espada. Chegaria a arrancá-la da bainha e lançá-la contra o comandante dos gregos, não tivesse Atena descido do Olimpo, agarrado o guerreiro pelos cabelos e ordenado que contivesse a fúria.
Somente Aquiles podia vê-la.
Ontem, no Supremo, Deus não desceu do Olimpo.
Veio do Maranhão e todos viram.
Não segurou ninguém pelos cabelos, embora naquele momento não faltassem cabelos, carecas, meias carecas ou razões para agarrá-los.
Levantou-se outro instrumento: a vista.
Foi quanto bastou.
A espada regressou à bainha.
Os contendores permaneceram vivos.
A sessão foi suspensa e alguma porção da dignidade do Tribunal, já cambaleante, conseguiu deixar o plenário sem ser carregada numa padiola.
Compreendi então a tática ali empregada: o expediente não servira apenas para examinar os autos.
Servira como salvaguarda da decência e da ordem.
Retirou o julgamento da guerra.
Levou consigo os autos, a questão de ordem e o pouco de compostura que ainda restava sobre a mesa.
Quanto a mim, levou também o coração.
Mas este, como já vos esclareci, seguirá com ele apenas em espírito.
Afinal, vamos seguir o Regimento.
Deixo-vos agora, Madame, ansiosa para a sessão do próximo dia 23.
O que sucederá? Para tanto, já pedi à Augustinha que prepare no dia, chá de passiflora em dose cavalar. Tenho eu um coração para acalmar.
Constitucionalmente, vossa colunista assina,
Sinhá