A muçarela no novo cardápio

Rimene Amaral – Sempre fui eficiente e interessado em fazer correções de erros contidos em convites de casamento, atas de condomínio, receitas culinárias e cardápios. Aliás, não há cardápios incólumes a erros. Enquanto o pedido é preparado, eu tenho a valiosa missão de encontrar erros na carta de produtos da casa. Sempre há. E, me perdoe o trocadilho, cardápio de pizzaria é um prato cheio. A começar pelo ingrediente que mais tem nas pizzas: muçarela.
Era uma pizzaria boa, no Marista. Início dos anos 2000. Quatro mesinhas na varanda e outras quatro do lado de dentro. Produto muito bom. De verdade. Eu gostava de uma margherita tradicional, com muito manjericão. Não sei por que, mas, às sextas-feiras, eu pedia calabresa com cebola extra.
O tempo para o preparo e a entrega do pedido era o mesmo de três chopes. Eu bebia mais rápido que os demais mortais afeitos ao álcool. Era tempo mais que suficiente para a leitura completa e revista do cardápio. A princípio, anotava os erros impressos no guardanapo para mostrar, posteriormente, ao gerente. De todos, o mais gritante era muçarela escrita com dois esses (SS): “MuSSarela”. Raros eram os cardápios que continham a grafia correta, com Ç.
Virei amigo do gerente. E, chato acima da média, comecei a reclamar da gramática do cardápio para ele, tentando ajudar com a imagem do estabelecimento. Todas as vezes eu questionava: “Quando vão mudar isso?”. E ele dizia: “Todo mundo escreve assim!”. Eu replicava: “Você não é todo mundo! E não é porque todo mundo escreve errado que você também precisa escrever. Faça a diferença”. Ficou relutante em mudar o cardápio por muito tempo.

Um dia cheguei, pedi um chope — “sem colarinho, por favor” — e estendi a mão para o cardápio. Surpresa! Em toda a carta, onde estava impressa a palavra “muSSarela”, havia um Ç enorme, em pincel atômico preto, em cima das letras repetidas. Era uma clara alusão de que, a duras penas e depois de muita insistência, o cardápio tinha sido corrigido. E o erro tinha ficado escancarado. Quem não sabia, aprendeu.
Um dos exemplares do menu, enviado ao designer que faria a carta de produtos, com a correção grosseira em preto por cima dos dois esses (SS), foi feito exatamente como estava a correção e, por pura implicância do proprietário, o cardápio passou a grafar “muçarela”, com cê-cedilha maiúsculo em cima dos dois esses (SS). “O senhor pediu para fazer do jeito que estava”, teria justificado o designer quando o gerente reclamou da forma como a correção foi feita e impressa no cardápio definitivo.
O triste é que o orégano continuou sem acento. Esse perdurou até o fechamento da pizzaria, com a morte do proprietário, dois anos e quatro meses depois do novo cardápio, cujos preços nem foram reajustados.