O breve milagre de estar aqui

Rosa Donzelli — Às vezes, penso no tamanho do universo e sinto que a palavra pequeno sequer é suficiente para nos definir. Há distâncias que a nossa imaginação não alcança, tempos que não cabem na nossa memória, estrelas cuja luz começou sua viagem antes mesmo de existirmos. Diante disso, a nossa passagem pela Terra parece apenas um instante.
E, no entanto, estamos aqui.
Talvez esse seja o primeiro espanto.
Somos feitos de uma matéria muito antiga. Antes de termos um nome, uma história, um rosto no espelho, já carregávamos em nós uma história que começou muito antes de nós. Os átomos que formam nosso corpo percorreram caminhos que jamais conheceremos. Foram parte de outros tempos, de outras formas, de outras histórias.
E, em algum ponto dessa imensa travessia, essa matéria se reuniu e aconteceu algo extraordinário:
passou a sentir.
Passou a amar.
Passou a sofrer.
Passou a fazer perguntas.
É quase impossível não se comover diante disso.
Porque não somos apenas habitantes do universo. Somos também uma pequena parte dele capaz de contemplá-lo.
O universo, de alguma maneira, ganhou em nós olhos para olhar para si mesmo.
Ganhou perguntas.
Ganhou espanto.
Ganhou consciência de que existe.
Talvez seja por isso que, vez ou outra, levantamos os olhos para o céu e sentimos uma espécie de vertigem. Não é apenas a imensidão que nos assusta. É perceber que fazemos parte dela.
Somos infinitamente menores do que aquilo que tentamos compreender, mas carregamos dentro de nós a capacidade de imaginar o infinito.
Que paradoxo bonito.
Somos passageiros e pensamos em eternidade.
Sabemos que vamos morrer e, ainda assim, fazemos planos para amanhã.
Sabemos que tudo muda e, ainda assim, amamos como se pudéssemos permanecer.
Talvez não seja ingenuidade.
Talvez seja a própria condição humana.
Porque a finitude não necessariamente diminui o valor da vida. Talvez seja justamente ela que nos ensine a perceber o valor de um instante.
Uma conversa que não voltará a acontecer da mesma maneira.
Uma mão que seguramos.
Uma mesa ao redor da qual pessoas queridas se reúnem.
Uma gargalhada inesperada.
Um abraço demorado.
A luz entrando pela janela numa manhã qualquer.
São coisas pequenas, quase invisíveis diante da grandeza do cosmos. Mas é nelas que a vida se revela.
Talvez o sentido não esteja em permanecer.
Talvez esteja em tocar.
Tocar uma pessoa, uma história, um lugar, uma lembrança.
Deixar alguma coisa de nós naqueles que encontramos pelo caminho.
Há pessoas que passam pela nossa vida e simplesmente passam. Outras, porém, deixam marcas que o tempo não consegue apagar. E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de eternidade que nos é possível conhecer: continuar existindo um pouco na memória, no gesto, na transformação que provocamos em alguém.
Não precisamos ser eternos para participar da eternidade.
Basta termos estado verdadeiramente presentes.
Talvez seja isso que a vida nos pede: não que vençamos o tempo, mas que o habitemos.
Que estejamos inteiros enquanto estivermos aqui.
Que não passemos pela existência distraídos demais para perceber que estamos vivos.
Porque, no fim, não sabemos quanto tempo temos. Sabemos apenas que temos este momento.
Este corpo.
Estas pessoas.
Esta história.
Este agora.
E talvez o mais extraordinário de tudo seja justamente isso: em meio a bilhões de anos de silêncio e matéria, nós surgimos por um breve intervalo capazes de olhar para o céu e perguntar:
O que significa estar aqui?
Não sei se existe uma resposta definitiva.
Talvez nunca exista.
Mas talvez a pergunta já seja, em si mesma, uma espécie de resposta.
Porque por um breve instante — tão breve diante da eternidade — o universo tornou-se capaz de perguntar por si mesmo.
E nós somos parte desse instante.
Somos matéria que aprendeu a sentir.
Somos poeira antiga que aprendeu a amar.
Somos finitos.
E, ainda assim, enquanto estamos aqui, carregamos dentro de nós alguma coisa que parece não caber em medida alguma:
a capacidade de dar significado à nossa passagem.
Talvez seja esse o verdadeiro milagre.
Não durar para sempre.
Mas estar vivo o suficiente para perceber que estivemos aqui.