O que o tempo revela

Rosa Donzelli – Há pessoas que nos atraem antes mesmo que saibamos explicar porquê. Talvez seja a beleza, um sorriso, a voz, a maneira de chegar, o mistério que existe em alguém que ainda não conhecemos. No começo, enxergamos através de uma espécie de encantamento: completamos com a imaginação aquilo que os olhos ainda não alcançaram.
Mas o tempo tem seus próprios métodos.
Ele aproxima.
Desfaz distâncias.
Abre portas.
E, pouco a pouco, aquilo que estava escondido começa a aparecer. Descobrimos alguém na impaciência, na gentileza inesperada, na forma de ouvir, na maneira como reage quando é contrariado. Descobrimos muito mais nas pequenas atitudes do que nas grandes declarações.
É quando a pessoa deixa de ser uma imagem e passa a ser presença. E algumas presenças crescem. Quanto mais conhecemos, mais admiramos. O que parecia atraente no início torna-se apenas a primeira camada de algo muito maior. Há pessoas que ficam mais bonitas depois que sabemos quem são.
Outras fazem o caminho inverso.
O tempo vai retirando os véus e, sem que percebamos exatamente quando, aquilo que nos encantava começa a perder sentido.
Não é que alguma coisa tenha desaparecido do rosto.
Desapareceu de nós.
Porque também enxergamos com a memória, com o afeto, com aquilo que descobrimos. Depois de conhecer profundamente alguém, já não conseguimos separar completamente o que vemos daquilo que sentimos diante do que foi revelado.
Talvez seja essa uma das delicadezas — e também uma das crueldades — das relações humanas: ninguém permanece exatamente como era aos nossos olhos depois que passamos a conhecê-lo.
Algumas pessoas nos surpreendem para além da primeira impressão.
Outras nos devolvem à realidade.
E há uma beleza que nenhum tempo consegue produzir e nenhuma aparência consegue sustentar: a beleza de quem faz com que a admiração sobreviva ao conhecimento.
Porque, no fim, não é o olhar que decide o que permanece belo.
É aquilo que encontramos quando finalmente conseguimos enxergar além dele.
Maravilhoso e verdadeiro.👏👏👏👏