Além de dono da verdade, Moraes agora virou o médico-mor do Brasil

Pedro Canedo — Tenho muita honra de, na condição de deputado federal por Goiás, ter integrado o Congresso Nacional que elaborou a Constituição de 1988. Há muitas críticas, algumas fundadas, de que ela distribuiu direitos demais e impôs obrigações de menos.
Não havia outro caminho, pois a finalidade naquele momento histórico era de dar base jurídica sólida para a redemocratização do Brasil.
O que não estava previsto — tanto no trabalho constituinte quanto no emprego dos princípios postos em vigor — é o fato de que no auge da democracia brasileira viria justamente um membro do Supremo Tribunal Federal fazer gato e sapato da nossa Carta Maior.
Há mais de três anos, o ministro Alexandre de Moares decidiu revogar na prática a Constituição Cidadã que elaboramos para o bem do Brasil para criar um conjunto de normas particulares destinadas a dar suporte ao seus sentimentos políticos de vingança pessoal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Eu poderia aqui citar uma série de arbitrariedades daquele cuja função é garantir os preceitos constitucionais, mas vou me apegar à condição de médico para exemplificar o abuso de autoridade de Moraes no que se refere ao Bolsonaro paciente.
É sabido que, desde que sobreviveu ao atentado, Bolsonaro guarda sequelas que exigem cuidados médico-hospitalares permanentes. Ora, qual razão justifica se promover a citação de um paciente internato em uma UTI senão a de o expor à humilhação?
Agora, diante da necessidade de vários procedimentos cirúrgicos de um quadro grave, por que inverter a lógica natural da relação médico-paciente para um ministro do STF decidir quando e como deve Bolsonaro deixar as dependências da prisão para ter os cuidados necessários?
Até a alta da internação hospitalar foi antecipada por Moraes que, em ato de profunda maldade, decidiu exercer as funções próprias de um médico.
Na base da canetada, Moraes revogou uma sindicância determinada pelo Conselho Federal de Medicina para apurar os procedimentos realizados em Bolsonaro. Ou seja, Moraes, o dono da verdade, se considera maior do que a mais alta instituição representativa da medicina brasileira.
A sede de vingança do ministro contra Bolsonaro é alguma coisa patológica e deveria ser objeto de estudo da psiquiatria e da medicina forense. Definitivamente, fizemos uma Constituição para garantir a democracia no Brasil pós-Regime Militar.
Nem o mais radical integrante da linha dura daquele período poderia imaginar que, 60 anos depois da Revolução de 1964, seria instaurada no Brasil a ditadura de um homem só, que primeiro rasgou a Constituição do Brasil e agora decidiu revogar o Juramento de Hipócrates ao exercer a prática ilegal da medicina.
Artigo de Pedro Canedo: oftalmologista e ex-deputado federal constituinte