terça-feira, 3 de novembro de 2026

Bordados, inteligências não explicadas e um coração partido

 

Sinhá — Província de Goyaz, comemoração dos fiéis defuntos de 1896.

Senhora Editora, madame!

Como bem deveis saber, hoje temos os corações entristecidos pelos nossos defuntos que já se despediram desta terra e foram, acredito eu, para a terra prometida. Como não sou de capitular defeitos ou pecados nas gentes, principalmente dos mortos que conheci, creio estarem todos morando nas mansões celestiais.

 

Hoje fui à santa missa pela manhã cedinho e resolvi trancar meu coração à saudade. Não ouso entristecer-me, pois a tristeza rouba-me sem cerimônia as ideias e hoje preciso delas, mais do que nunca.

 

É que desde antes das vossas eleições, não mais contribuí para esta coluna, tamanha a confusão que se instaurou nos vossos dias. Vi-me aturdida, confesso, senhora. Debates, virada de votos, idosos ressuscitando para ir votar, jovens coloridos tomando de conta das ruas e fuga tal qual tango argentino, foi muita informação, madame.

 

Aqui estamos mais acostumados com galo cantando às três da manhã, galinha ciscando chão às cinco e café preguiçoso logo depois, para almoço às dez e, depois, cada qual que se ocupe de seus afazeres, deixando ao sol o trabalho de atravessar o quintal.

Tenho-me ocupado dos meus. 

 

Ando bordando peças monogramadas para meu enxoval. Não vos espanteis, madame. Ainda estou bem viva e considero a possibilidade de segundas bodas. As primeiras, como sabeis, concluíram-se em bucho de peixe, no fundo do mar. 

 

Não vejo razão para que os peixes tenham encerrado também minhas pretensões matrimoniais, sei que bem me entendeis.

 

Por cautela, bordo.

 

Um lençol custa mais a ser bordado que o noivo a aparecer, senhora! 

Tenho fé nos traquejos das minhas ancas, nos conhecimentos gerais que adquiri, na etiqueta à mesa. Só me falta um pouco de compostura, mas disfarço bem, ao menos à primeira vista.

 

Quanto ao bordado, sucede que, entre uma inicial e outra, pus-me a considerar se não ficariam bem, discretamente bordados à beira das fronhas, uns dedos levantados.

Ponde tento, madame: tenho aqui meus poucos livros de arte italiana e uma admiração por um homem que não cabe na estante: Leonardo da Vinci! Há criaturas que recebem uma inteligência e passam a vida economizando-a. Aquele parecia empenhado em gastá-la por inteiro, sem jamais conseguir chegar ao fundo.

 

Fenomenal, senhora. Polímata, dizem. Eu, que mal consigo dar conta de minha correspondência e de um enxoval sem pretendente confirmado, inclino-me respeitosamente e detenho meus pensamentos nas mãos que pintou.

 

Vede, São João Batista emerge da sombra, sorri e levanta o indicador. Parece conhecer alguma coisa que ainda não nos foi inteiramente comunicada. Seguimos o dedo e damos a procurar, fora da pintura, o que a pintura nos quer dizer.

 

Não é pouca habilidade, madame: fazer-nos olhar uma coisa e pensar cousa maior, é para os gênios.

 

Noutra, Tomé ergue o dedo na Ceia. Contai-me: para quê? Existe aí um mistério, senhora! Um grande mistério.

 

E Sant’Ana quando aponta para o alto?  Leonardo conhecia a eloquência das mãos, isso é certo!

 

Pois estava eu com a agulha suspensa, considerando tais coisas, quando me ocorreu que os vossos contemporâneos também haviam encontrado maneira de pôr uma ideia entre os dedos.

Agora fazem o L.

Pelo que me chega, há mãos estrangeiras que levantam o símbolo como quem reconhece na vitória do brasileiro alguma esperança para si.

 

Uma mão faz uma letra. Muitas mãos, senhora, já escrevem alguma coisa.

E quando se levantam em terras diversas, entre gentes que não falam a nossa língua, começo a suspeitar que há ali correspondência que dispensa os serviços do telégrafo.

Não conhecem nossos costumes, não saberiam encontrar minha casa nesta Província de Goyaz, mas reconhecem naquela vitória uma possibilidade para a própria porta.

Ponta tento: há quem desembainhe espadas para fazer o mundo baixar a cabeça. Agrada-me ver tanta gente responder levantando os dedos. SUBLIME, senhora! Em maiúsculas!

 

Talvez seja isso que me prende a agulha, madame: comecei por querer bordar a inicial de um homem e dou comigo a procurar linha para o ânimo de uma multidão.

Pensa ser bobo o povo, madame?

 

Na não! A voz do povo é a voz de Deus, senhora! Não farei disso licença para canonizar governantes, que os prefiro vivos, responsáveis e sujeitos a cobrança. Mas há ocasiões em que uma multidão parece dizer, com o próprio corpo, alguma coisa que os discursos não alcançam.

Pode desconhecer a palavra polimatia. Pode nunca ter visto um quadro de Leonardo, mas não o impede de compreender quando uma pequena figura contém uma grande notícia.

Foi quando recebi o telegrama de Sinhaninha e Oduval.

 

Sim, os da tábua Ouija, que conversa com os mortos.

 

Eu havia resolvido deixar os mortos em paz; eles, pelos modos, não haviam tomado resolução igual a meu respeito.

 

Mandaram notícia de cair o queixo, senhora: é que entre os mortos e os vivos que os interpelam, lá das bandas da Capital Federal, corre boato de que o presidente dos nove dedos vinha a ser Pedro II, novamente metido nos negócios brasileiros.

 

Li duas vezes.

 

Acrescentavam que o dedo perdido ainda na mocidade seria uma lembrança da gangrena que acometera o dedão do pé esquerdo do imperador, por causa do diabetes, antes da sua morte.

 

Ponderai, assim como o fiz, que a correspondência do outro mundo anda de uma precisão anatômica que não inspira confiança. Trocam um pé por uma mão, atravessam uma existência e esperam que eu aceite naturalmente. Ouço, leio, retenho o que me apetece.  Quanto a mim, não preciso que Lula tenha sido imperador para reconhecer a importância do que acaba de acontecer. Basta-me que sua vitória esteja dando a outras gentes coragem para disputar o próprio destino.

 

É coisa bastante grande para caber numa letra.

 

Por isso, ainda não decidi se ponho os dedos na fronha ou na barra do lençol. Quero-os discretos, reconhecíveis apenas a quem saiba olhar.

 

Leonardo compreenderia meu cuidado com o desenho, Lula não o verá.

E eu? Eu dormirei com a coragem dos que não desistem.

Quanto ao futuro marido, compreenderá, por certo, isso se botar reparo, o que os homens pouco fazem em cousas de mulher.

 

Este post foi escrito por: Sinhá

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