50 anos de viagem ao exterior e um arrependimento ineficaz

Marcio Fernandes — Como o Paraguai virou a melhor parte do Brasil, vou considerá-lo um país soberano e estabelecer o marco inicial das minhas viagens ao exterior em dezembro de 1976. Eu tinha 13 anos quando conheci Assunção.
A gente estava indo de Caravan amarela para as férias de verão em Balneário Camboriú (SC). Porta-malas imenso para grandes compras. Na altura de Ourinhos (SP), meu pai decidiu alterar a proa para o oeste e alcançar Puerto Stroessner, hoje Ciudad del Este. Naquela época, a cidade estava se preparando para ser o maior centro de contrafação da América Latina.
A trajetória era orientada por mapa da revista Quatro Rodas. Meu pai era um dentista que sabia tudo de geografia e me dava aulas na estrada. Ele me desafiava a indicar os pontos cardeais a partir da orientação do sol. Isso foi muito proveitoso pelo tanto que eu andei a pé, especialmente nas Dolomitas com bússola, altimetria, mapa e zero de GPS.

Dessa viagem, ficaram duas histórias fantásticas. A primeira é que eu vi o ditador do Paraguai, Alfredo Stroessner, muito de perto. Ele estava chegando à parada militar em sua homenagem e eu simplesmente estava no caminho do mandachuva paraguaio. Eu poderia ter me comportado como um terrorista maoísta em ação revolucionária para eliminar o ditador sanguinário.
De maneira nenhuma. Aquilo para mim foi uma grande honra. Na minha família todo mundo era marxista: avô, pai, tio e primos de Uberlândia. Um bate-fundo revolucionário sem fim e eu nunca tinha visto um general cara a cara.
Depois, os generais do regime militar brasileiro usavam terno. Nada de medalhas, cetro e dragonas, como foi a situação do uniforme de Stroessner naquela manhã gosmenta do calor paraguaio.
O lado positivo da viagem ao Paraguai foi a aquisição de duas calças Lee americanas em Assunção. Naquela época, ter uma calça Lee legítima era alguma coisa de outro mundo. Eu fiz toda a diferença no segundo grau do Colégio Objetivo (1977-1978).
Junto com determinado ex-senador, praticava bullying com o pessoal menos instruído da classe, além de ter virado hippie por curta duração das atividades afins.
Dos acontecimentos marcantes de viagem, o primeiro foi uma decepção de beatlemaníaco. No dia 30 de novembro de 2001, acordei cedo e fui andar na garoa gelada de Londres, de sobretudo, para assistir a uma cidade de luto pela morte de George Harrison, ocorrida em Los Angeles um dia antes.

A comoção coletiva, ao modo britânico, se expressava nos londrinos andando de guarda-chuva com os olhos fixos no chão e o jornal debaixo do braço, como se ele fosse a confirmação definitiva da morte do genial beatle, autor de “Something.” Certamente, foi o que o caminhante ouviu no rádio ao chegar em casa.

Em primeiro de janeiro de 2002, eu estava em Portugal, um dos 12 países da União Europeia que adotaram, a partir daquela data, o euro como unidade monetária. Embora tenha ocorrido uma longa preparação, aquilo gerou uma barafunda, pois as pessoas que no dia anterior convertiam 1 dólar em 225 escudos passaram a ter uma moeda mais valiosa do que o dinheiro americano.
Me lembro do Generalíssimo Demóstenes Torres, no Parque Eduardo VII, em Lisboa, a fazer a compra de uma toalha de renda do Alentejo. O vendedor demorou anos para fazer a conta e se conformar com o pagamento de algumas moedas de euro no lugar de um maço de notas de escudo.
Por muito pouco, eu e um pessoal (Britz Lopes, Marcelo Franco e sua namorada) não perdemos a celebração do quarto centenário da publicação de Dom Quixote, obra-prima da literatura universal. De longe meu livro preferido.
Era final de dezembro de 2005 e nós arrumamos muita confusão nesta viagem de longa distância de carro pela Espanha e pelo sul da França. No final deu tudo certo, especialmente por conta das preces do meu copiloto na travessia dos Pireneus entre o abismo e a nevasca.
Conseguimos, nos moinhos de Consuegra, abrir uma garrafa de vinho para celebrar Miguel de Cervantes com copos de plástico. Deu tudo errado: o vento do inverno era intenso e o vinho voava sobre as nossas mãos e não parava no copo. Entre muitas risadas, demos por encerrada a gloriosa homenagem, que naquela noite viraria música em uma taberna dentro das muralhas de Ávila.

Na noite de 4 de novembro de 2008, fui dormir tarde em Nova York. No bar do hotel, uma galera de todas as idades esperava pelo discurso da vitória de Barack Obama, o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos.
De Chicago, em um frio de rachar, Obama, exatamente como estava previsto, à meia-noite, discursou para todos os americanos e o mundo se calou para ouvi-lo. Presenciar um momento histórico é algo que está acima de ideologia.
Naquele momento, eu ouvia o discurso do presidente eleito e imaginava o que a eloquência não faria para construir um pensamento identitário triunfante na América Latina. O resultado foi péssimo, ao revés do que imaginava a esquerda brasileira.
Eles achavam que um presidente americano, por ser negro, seria a salvação da lavoura dos oprimidos do subcontinente. O presidente americano pensa única e exclusivamente no povo americano. Não tem moleza para cucaracho, especialmente se for democrata.
A importância daquele ato foi tamanha que no outro dia, na entrada do MoMa (Museu de Arte Moderna) estava exposta a placa de impressão da primeira página do The New York Times. Eu tenho o jornal emoldurado no escritório de casa, com a seguinte manchete: “Barreira racial cai em decisiva vitória.”

O fato de ter ido muitas vezes a Amsterdam, por conta dos amigos Márcio de Abreu e Wim Koeman, me proporcionou um momento único: assistir à coroação de um rei. Eu estava na cidade no dia 30 de abril de 2013 quando a Rainha Beatrix renunciou ao trono e Guilherme Alexandre ascendeu ao Reinado dos Países Baixos.
O país é tão democrático que no ato de coroação, os parlamentares tiveram a opção de saldar o monarca e fazer uma menção a Deus ou negá-lo, além de simplesmente dizer que não o reconheciam como rei. Na cidade, foram instalados palcos para grandes orquestras e bandas de rock.
No material televisivo de promoção do evento, foi muito interessante observar o orgulho dos holandeses de terem sido duas vezes vice-campeões de futebol, logo eles que são o primeiro lugar em quase tudo no mundo.

Eu não estava em Paris na noite de 13 de novembro de 2015 e tampouco no Bataclan, a casa de espetáculos reduzida ao terror do Estado Islâmico. Foram 130 pessoas exterminadas em ações coordenadas de fuzilamento e explosão.
Mas eu estava na França no dia do atentado e, por todas as cidades por onde passei em direção a Marselha, desde Avignon, havia memoriais de velas vivas em fogo dolorido pela alma dos massacrados – mortos e feridos.
Tenho também no escritório a capa do Le Monde do dia seguinte que anunciava: “O 11 de Setembro Francês.” A manchete foi disposta sobre milhares de cabeças de luto em uma fotografia aberta quase cobrindo toda a capa.
Houve o atentado de Madrid em 2004 e em Barcelona em 2017, mas os europeus não aprenderam nada com a tragédia do terrorismo. Agora, estão sob o bombardeio da guerra demográfica, uma estratégia no processo de islamização do Velho Continente. Pelo andamento das coisas, a Europa foi a pedra com Pedro. Agora é a lápide do cristianismo ocidental com Maomé.
Os momentos mais tensos que eu passei por lá não foram as revistas de desmontar a mochila nos aeroportos. Era perda de tempo dos caras da segurança. Nem a bomba do Hamas que caiu a 500 metros de onde eu estava em Sderot, sul de Israel, na fronteira com Gaza.

A situação ficou complicada mesmo em Madrid, em maio de 2011. Eu estava de passagem pela cidade para voltar ao Brasil. Entre a Gran Vía e a Puerta del Sol, todas as ruas perpendiculares estavam tomadas por manifestantes do chamado movimento dos Indignados ou Movimento 15-M.
A Guarda Civil, a Polícia Nacional e a Polícia Municipal montavam cercos e operações de evacuação com emprego de cavalaria e veículos blindados, mas o pessoal do 15-M só ampliava o nível de depredação da cidade.
Eu estava hospedado no centro do problema. No hotel, a recomendação era de sair só em caso de necessidade. Eu fui fotografar o fuá. Não podia perder a matéria, mas estava covardemente posicionado na retaguarda do aparato policial que partia para cima da baderna com energia e autoridade.
Eu não entendi a moleza que as forças de segurança da Espanha deram para esse pessoal em Ceuta. Em maio de 2011, em Madrid, o cassetete foi comunicado na prática no lombo do pessoal.
O que ficou de arrependimento foi não ter visitado a zona de exclusão de Chernobyl em dezembro de 2002. Eu estava em Kiev. A embaixada brasileira havia conseguido o mais difícil – a autorização estatal para entrar na área onde ocorreu o maior acidente nuclear da história, no fim da União Soviética em 1986.
Eu poderia ter trocado a passagem e esticado a viagem por mais dois dias. Era hóspede do embaixador. Amarelei e perdi a grande reportagem de encontrar o nada na paisagem calcinada pela alta contaminação radioativa.

Nestes 50 anos de viagem, assisti em 6 de janeiro de 2003 ao espetáculo medieval da celebração da Epifania em Florença e passei por vários 25 de abril em Portugal. Superei, suando calafrios, nevasca no Caminho de Santiago, com a morte anunciada em frente a um cemitério de aldeia celta.
Conheci a Ásia Central e assisti ao maior desaforo de Lisboa. Nina Puccini Mazzula, 4 anos, no colo da Flávia Torres, teve a ousadia de perguntar para um Melo, o Marcelo Fernandes de Melo, se ele não tinha família. O Marquês de Pombal, legítimo Melo, deu grandes risadas e me disse que ir a Chernobyl seria uma roubada.
Texto e fotografias: Marcio Fernandes
Uau…existe inveja branca? Parabéns
Eu pessoalmente de momentos interessantes eu já te relatei:
– Ter visitado o muro Berlim alguns meses depois do famoso episódio
– Ter sido processado em Londres por usar os telefones públicos de graça. Vide a a biografia do Steve Jobs. Ele fazia isso quando jovem nos EUA
– Quase ter sido mochileiro na antiga Iugoslavia. Não fiz a viajem porque o pessoa dizia que a coisa lá já estava caótica. Imagine se estivesse lá
Querido Américo, você foi o maior mochileiro da minha geração.
Um gênio dormindo em albergue infestado de bed bugs e gente da perdição. Não entendi porque não me convidou na época. Grande abraço.
Como sempre: amei, me emocionei e viajei!
Muito obrigado, Nélia Cristina, sempre minha leitora querida e ilustradora dos meus textos.