quinta-feira, 14 de maio de 2026

Arroz com passas e lentilha em restaurante pé sujo de Tel Aviv

 

Marcio Fernandes – Todos os dias, rigosamente às 5h30 da manhã, o grande amigo Ailton Lima me envia pelo WhatsApp um bom dia. Vou nomeá-lo para o Ministério Extraordinário da Pontualidade do meu Principado Imaginário.

 

Hoje, 14 de maio, como estou 6 horas adiante por conta do fuso horário, respondi “um bom dia desde Israel.” Sabia que a inevitável pergunta viria em seguida: “O que você está fazendo no meio de uma guerra?”

 

É uma questão que os próprios israelenses levantam ao saber que sou brasileiro e estou de férias por aqui. O fato é que mesmo em conflito bélico com o Irã e os grupos terroristas Hamas, Hezbollah e Houtis, Israel é muito mais seguro do que o Brasil.

 

Nas ruas Tel Aviv, capital financeira e tecnológica do país, ninguém vai te dar um tiro para roubar teu celular; não há motociclistas disfarçados de entregador de comida a invadir tua casa e nem organizações criminosas lideradas por narcotraficantes.

 

Aqui bandido é tratado como tal. Não tem essa conversa de “saidinha” no dias das mães nem o eufemismo jurídico que nomina de “reeducando” o morador de penitenciária. Recentemente em Israel foi estabelecida a pena de morte e há nos estatutos penais a prescrição de prisão perpétua, conforme a gravidade do crime.

 

 

No Brasil o vagabundo mata a mulher por motivo fútil, recebe uma pena de prisão em regime fechado de 12 anos e tem tanto benefício de diminuição da condenação que volta às ruas depois de dois anos pronto para delinquir novamente.

 

Por falar em Brasil, ficou no passado as referências do país no exterior como a terra do futebol, do carnaval e da bossa nova. Nós pioramos tanto na projeção cultural que hoje a bússola do mundo nos aponta a agulha quando escuta funk, come açaí e calça sandálias Havaianas.

 

Enquanto fazia caminhada pela orla de Tel Aviv sob sol de rachar, observei uma galera a praticar futevôlei descontraidamente ao som de uma banda nacional, com sotaque bem favelado do Rio de Janeiro, e letra super depravada cujo refrão dizia literalmente: “Hoje é difícil encontrar uma menina que não trabalha no job.”

 

Essa é minha terceira vez em Israel, sendo a segunda durante uma guerra. Na primeira vez em que estive aqui foi uma dessas coincidências de viagem. Ao desembarcar em 27 de dezembro de 2008 no aeroporto Ben Gurion começou a primeira guerra de Gaza.

 

Para quem gosta de emoção, em visita a Sderot, no sul de Tel Aviv, no último dia daquele ano do calendário gregoriano, um foguete do Hamas vindo de Gaza caiu a uns 500 metros no máximo de onde eu e um pessoal estávamos. Era véspera do meu aniversário.

 

 

Apesar de estar no país somente há três dias, no bate-pernas eu não sei contar quantos sucos de laranja já tomei. Simplesmente é muito bom por ser composto de um amarelo bem fechado, de inigualável doçura e baixa acidez.

 

Por toda Tel Aviv há uma banca de frutas na qual a laranja é expremida manualmente por um mecanismo de alavanca sem o caldo porco de mão do sistema brasileiro que esmaga a fruta sobre objeto rm rotação.

 

Mesmo sendo o maior exportador de suco de laranja do mundo, espero penhoradamente que no ano que vem o próximo governo restabeleça relações diplomáticas civilizadas com Israel e libere a iniciativa privada a importar do estado judeu a laranja e o equipamento manual de expremer a fruta.

 

Em matéria de alimentação duas coisas se destacam em Tel Aviv: primeiro, o povo não tem hora para comer como a gente que estabelece momentos para o café da manhã, o almoço, a merenda da tarde e o jantar.

 

O segundo ponto é o fato de toda alimentação servida em um café ou restaurante ter pelo menos um tipo de molho delicioso, mas às vezes picante. Não é bom avançar na coisa só pela boa aparência.

 

Hoje foi sensacional o meu almoço em restaurante de judeus iranianos pé sujo localizado no Mercado Levinski, bem próximo de onde estou hospedado. Nas paredes, fotografias do ex-monarca do país vizinho e hoje inimigo número 1 de Israel, o xá Reza Pahlavi.

 

 

Na mesa veio de entrada um conjunto de saladas, cesta de pão e molho sensacional, bem cremoso, que não saberia dizer do que se tratava. Em seguida, o prato principal foi o encontro de arroz amarelo com lentilhas e passas, coxa e sobrecoxa assadas, além de batata ao forno e um molho mais ralo e escuro, também não identificado. Comi até passar mal.

 

O Mercado Levinski é sensacional e reflete a atmosfera descontraída do bairro Florentin. São algumas lojas especializadas em especiarias e alimentos em conservação. Fica em um trecho da rua que leva o mesmo nome, mas faz a diferença por conta de sublimes aromas de canela, gengibre e azeitona.

 

Eu detesto música sertaneja, mas hoje rolou durante o almoço a lembrança da dupla caipira Zezé de Camargo e Luciano que tem uma canção chamada “É o amor.” Devido às circunstâncias da guerra, eu decidi alterar a letra para “é o arroz.”

 

Daqui a pouco irei para ruas de Tel Aviv tomar uma limonada natural, em copo de plástico, e preparar a noite para o único vinho da semana mais ou menos liberado por minha cardiologista. Para amanhã, o plano é encontrar outro restaurante de ponta de rua em busca de algum tipo de arroz do Oriente Médio, bem solto e pleno de sabor.

 

Marcio Fernandes, jornalista, é autor do texto e das fotografias

 

Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

As opiniões emitidas nos textos dos colaboradores não refletem necessariamente, a opinião da revista eletrônica.

4 comentários em "Arroz com passas e lentilha em restaurante pé sujo de Tel Aviv"

  • Maria Amélia Alencar disse:

    Muita coragem sua ir na guerra! Espero vc são e salvo por aqui!

  • MARCIO FERNANDES disse:

    Professora querida, estava sem destino caí aqui para rever os amigos. Vou embora de Tel Aviv na segunda-feira e chegar inteiro no Brasil. Muito obrigado!

  • denise sene disse:

    Vida mais ou menos, márcio, mas admiro sua coragem em ir pra essa parte do mundo…

  • Noemy Faria disse:

    Oi Marcinho, quanta emoção em viajar com você através de seus textos.
    Apesar da raiva que os governos brasileiros me passam, procuro esquecer porque você me conhece e não posso manifestar o meu pensamento.
    Adorei este pueblo das Astúrias e este armazém que vende sonhos.
    Precisava disto. Preciso de você.
    Te amo❤️. Graças a Deus que idosa pode declarar amor sem repreensão. Sds

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