sexta-feira, 3 de julho de 2026

Arroz com passas e lentilha em restaurante pé sujo de Tel Aviv

 

Marcio Fernandes – Todos os dias, rigosamente às 5h30 da manhã, o grande amigo Ailton Lima me envia pelo WhatsApp um bom dia. Vou nomeá-lo para o Ministério Extraordinário da Pontualidade do meu Principado Imaginário.

 

Hoje, 14 de maio, como estou 6 horas adiante por conta do fuso horário, respondi “um bom dia desde Israel.” Sabia que a inevitável pergunta viria em seguida: “O que você está fazendo no meio de uma guerra?”

 

É uma questão que os próprios israelenses levantam ao saber que sou brasileiro e estou de férias por aqui. O fato é que mesmo em conflito bélico com o Irã e os grupos terroristas Hamas, Hezbollah e Houtis, Israel é muito mais seguro do que o Brasil.

 

Nas ruas Tel Aviv, capital financeira e tecnológica do país, ninguém vai te dar um tiro para roubar teu celular; não há motociclistas disfarçados de entregador de comida a invadir tua casa e nem organizações criminosas lideradas por narcotraficantes.

 

Aqui bandido é tratado como tal. Não tem essa conversa de “saidinha” no dias das mães nem o eufemismo jurídico que nomina de “reeducando” o morador de penitenciária. Recentemente em Israel foi estabelecida a pena de morte e há nos estatutos penais a prescrição de prisão perpétua, conforme a gravidade do crime.

 

 

No Brasil o vagabundo mata a mulher por motivo fútil, recebe uma pena de prisão em regime fechado de 12 anos e tem tanto benefício de diminuição da condenação que volta às ruas depois de dois anos pronto para delinquir novamente.

 

Por falar em Brasil, ficou no passado as referências do país no exterior como a terra do futebol, do carnaval e da bossa nova. Nós pioramos tanto na projeção cultural que hoje a bússola do mundo nos aponta a agulha quando escuta funk, come açaí e calça sandálias Havaianas.

 

Enquanto fazia caminhada pela orla de Tel Aviv sob sol de rachar, observei uma galera a praticar futevôlei descontraidamente ao som de uma banda nacional, com sotaque bem favelado do Rio de Janeiro, e letra super depravada cujo refrão dizia literalmente: “Hoje é difícil encontrar uma menina que não trabalha no job.”

 

Essa é minha terceira vez em Israel, sendo a segunda durante uma guerra. Na primeira vez em que estive aqui foi uma dessas coincidências de viagem. Ao desembarcar em 27 de dezembro de 2008 no aeroporto Ben Gurion começou a primeira guerra de Gaza.

 

Para quem gosta de emoção, em visita a Sderot, no sul de Tel Aviv, no último dia daquele ano do calendário gregoriano, um foguete do Hamas vindo de Gaza caiu a uns 500 metros no máximo de onde eu e um pessoal estávamos. Era véspera do meu aniversário.

 

 

Apesar de estar no país somente há três dias, no bate-pernas eu não sei contar quantos sucos de laranja já tomei. Simplesmente é muito bom por ser composto de um amarelo bem fechado, de inigualável doçura e baixa acidez.

 

Por toda Tel Aviv há uma banca de frutas na qual a laranja é expremida manualmente por um mecanismo de alavanca sem o caldo porco de mão do sistema brasileiro que esmaga a fruta sobre objeto rm rotação.

 

Mesmo sendo o maior exportador de suco de laranja do mundo, espero penhoradamente que no ano que vem o próximo governo restabeleça relações diplomáticas civilizadas com Israel e libere a iniciativa privada a importar do estado judeu a laranja e o equipamento manual de expremer a fruta.

 

Em matéria de alimentação duas coisas se destacam em Tel Aviv: primeiro, o povo não tem hora para comer como a gente que estabelece momentos para o café da manhã, o almoço, a merenda da tarde e o jantar.

 

O segundo ponto é o fato de toda alimentação servida em um café ou restaurante ter pelo menos um tipo de molho delicioso, mas às vezes picante. Não é bom avançar na coisa só pela boa aparência.

 

Hoje foi sensacional o meu almoço em restaurante de judeus iranianos pé sujo localizado no Mercado Levinski, bem próximo de onde estou hospedado. Nas paredes, fotografias do ex-monarca do país vizinho e hoje inimigo número 1 de Israel, o xá Reza Pahlavi.

 

 

Na mesa veio de entrada um conjunto de saladas, cesta de pão e molho sensacional, bem cremoso, que não saberia dizer do que se tratava. Em seguida, o prato principal foi o encontro de arroz amarelo com lentilhas e passas, coxa e sobrecoxa assadas, além de batata ao forno e um molho mais ralo e escuro, também não identificado. Comi até passar mal.

 

O Mercado Levinski é sensacional e reflete a atmosfera descontraída do bairro Florentin. São algumas lojas especializadas em especiarias e alimentos em conservação. Fica em um trecho da rua que leva o mesmo nome, mas faz a diferença por conta de sublimes aromas de canela, gengibre e azeitona.

 

Eu detesto música sertaneja, mas hoje rolou durante o almoço a lembrança da dupla caipira Zezé de Camargo e Luciano que tem uma canção chamada “É o amor.” Devido às circunstâncias da guerra, eu decidi alterar a letra para “é o arroz.”

 

Daqui a pouco irei para ruas de Tel Aviv tomar uma limonada natural, em copo de plástico, e preparar a noite para o único vinho da semana mais ou menos liberado por minha cardiologista. Para amanhã, o plano é encontrar outro restaurante de ponta de rua em busca de algum tipo de arroz do Oriente Médio, bem solto e pleno de sabor.

 

Marcio Fernandes, jornalista, é autor do texto e das fotografias

 

Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

As opiniões emitidas nos textos dos colaboradores não refletem necessariamente, a opinião da revista eletrônica.

20 comentários em "Arroz com passas e lentilha em restaurante pé sujo de Tel Aviv"

  • Marcia Mota disse:

    Fantástico! Esperando por mais

    • MARCIO FERNANDES disse:

      Muito obrigado, querida Márcia. Especialmente por saber que você fez trabalho voluntário em Israel e amar o povo judeu.

  • Que maravilha de relato, Márcio!

    • MARCIO FERNANDES disse:

      Querido Adalberto, maior escritor de Goiás. Nos encontramos uma única vez com o Euler e o dr. Irapuan. Tive um infarto naquele dia e não sabia. Perdão pela indelicadeza no almoço. Você é meu novo e melhor amigo. Muito obrigado!

  • Javier disse:

    Escribe genial,, con una pizca de ironía, que siga así

    • MARCIO FERNANDES disse:

      Muchas gracias, querido Javier. He pasado unos días maravillosos en Vitoria-Gasteiz alojándome en tu casa. ¡Volveré, si Dios quiere

  • Maria Amélia Alencar disse:

    Muita coragem sua ir na guerra! Espero vc são e salvo por aqui!

  • MARCIO FERNANDES disse:

    Professora querida, estava sem destino caí aqui para rever os amigos. Vou embora de Tel Aviv na segunda-feira e chegar inteiro no Brasil. Muito obrigado!

  • denise sene disse:

    Vida mais ou menos, márcio, mas admiro sua coragem em ir pra essa parte do mundo…

  • Soraia disse:

    Adorei o artigo! aproveite a viagem

    • MARCIO FERNANDES disse:

      Soraia, morro de saudade de ti. Foram oito anos maravilhosos em tua companhia, apesar de Brasília não ter esquina.

  • Noemy Faria disse:

    Oi Marcinho, quanta emoção em viajar com você através de seus textos.
    Apesar da raiva que os governos brasileiros me passam, procuro esquecer porque você me conhece e não posso manifestar o meu pensamento.
    Adorei este pueblo das Astúrias e este armazém que vende sonhos.
    Precisava disto. Preciso de você.
    Te amo❤️. Graças a Deus que idosa pode declarar amor sem repreensão. Sds

  • rachel azeredo disse:

    Marcio, meu querido amigo, estou em falta com vc. Não vou narrar nada do que andei passando, mas hoje coloquei em dia os seus sempre perfeitos relatos. Encantada dou retorno, meio enciumada por ainda não saber se estarei no rol de privilegiados que pisarão em seu principado. Feliz por saber que vc segue livre de padrões e está em Israel ainda que a guerra persista. O medo não nos domina e nisto somos iguais. A Adriana estava em Dubai no início da guerra, não foi demovida de seus projetos e seguiu livre para outros destinos. Um mês de guerra e minha filha solta e feliz na Ásia. Márcio, amo vc e Britz por uma série de pequenos gestos e outros mais que gigantescos. Seguiremos bem e sei que um dia estarei em seu principado! Beijos !

    • MARCIO FERNANDES disse:

      Querida Rachel, agora eu tive de enxugar os óculos por conta das lágrimas que não param de descer pelo teu verdadeiro e carinhoso comentário. Fizemos tantas coisas juntos. Meu sucesso de repórter é uma obra que devo ao meu trabalho. Teria sido parcial se não tivesse contado com tua confiança como editora e a escola de jornalismo do qual fui aluno. A gente não se vê mais, no entanto nunca vou deixar de te guardar no lugar mais lindo do meu coração.Te amo imensamente também. Meu Principado Imaginário estava sem uma ministra da Comunicação. Acabou de ser nomeada e o ato oficial será publicado no próximo texto. Muito obrigado por sido, e ser, tão importante na minha vida. Vou chorar um pouco mais e te amar para sempre. Você tem carta branca para fazer o que quiser no principado, inclusive se irritar com minha péssima datilografia e chegar de mau humor genial pela manhã na redação. No dia seguinte, o jornal tinha uma grande manchete com minha assinatura. Antes que eu lambesse a cria, você me mandava ir para as ruas e exigia uma reportagem muito melhor para edição do dia seguinte. Era um tempo em que o jornal de papel, depois de chegar às bancas, embrulhava peixe e o que contava era o que deveria ser escrito pelo repórter imediatamente.Todos os domínios da imaginação do principado seriam uma ilusão vazia sem ti. Muito obrigado e vamos marcar um almoço. Prometo que não irei chorar no tão maravilhoso reencontro. Se chorar, terei teu perdão.Te amo desde Israel e não cabe no mundo esse sentimento cheio de lágrimas de felicidade pelos nossos tempos que se foram e os que virão. Como você disse: “O medo não nos domina e nisto somos iguais.”
      Marcio Fernandes

  • Heliane Fernandes Moreira disse:

    Eu adoreiiiiiii ter ido a Israel, foi um misto de sentimentos visitando os lugares e descobrindo que pouco conhecia da minha religiosidade.
    Povo bonito e mesclado que vivem em um mesmo lugar.
    Gostaria e tinha vontade de voltar..quem sabe né? Profitez en!!

  • Sylvia Melo disse:

    Cunhado querido, como tua acompanhante fiel em todas as aventuras, quero te pedir pra me avisar dos nossos destinos pra que eu me prepare de acordo. Brincadeiras à parte, estou adorando nossa viagem, até na guerra tem teu toque de sarcasmo peculiar. Adoro!! Bjs da tua cunhada preferida🤭😘

    • MARCIO FERNANDES disse:

      Syvinha querida, minha eterna cunhada, muito obrigado por ser tão amável comigo. Na segunda-feira irei para o Chipre. Você mora no meu coração.

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