segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A arte de recolher as âncoras

 

 

Rosa Donzelli — Há barcos que atracam em nosso porto apenas para nos ensinar a navegar em mar aberto. Quando a tempestade passa, compreendemos que algumas presenças tinham prazo de validade e que insistir na permanência é o mesmo que tentar reter o vento.

 

A evolução do espírito nos afasta da ilusão de consertar correntes que não nos pertencem. O discernimento chega quando percebemos que o solo fértil não é aquele onde se tolera qualquer espinho, mas o espaço onde a terra é cultivada em mútua harmonia.

 

Bondade autêntica não é sinônimo de silêncio diante da indiferença. Quem compreende o próprio valor aprende a fechar portas com suavidade, entendendo que certas ausências funcionam como um filtro natural para a alma respirar aliviada.

 

O vazio deixado por quem parte não rima com desolação; traduz-se no resgate do próprio eixo. É o retorno ao templo interior que andava esquecido em meio ao barulho alheio.

 

Quando o sim automático pesa mais que a própria vontade e o medo do julgamento alheio nos algema, o remédio amargo não é a busca por mais afeto, e sim a dose exata de ousadia.

 

Ousadia para desagradar quem se acostumou com a nossa submissão.

 

Ousadia para traçar linhas que o egoísmo alheio não ousa ultrapassar.

 

Ousadia para assumir o protagonismo da própria história, sem pedir licença para ser feliz.

Este post foi escrito por: Rosa Donzelli

As opiniões emitidas nos textos dos colaboradores não refletem necessariamente, a opinião da revista eletrônica.

5 comentários em "A arte de recolher as âncoras"

  • Christine Almeida Maia disse:

    Adorei o texto !!!!!!👏👏👏👏👏Um navio ancorado não corre risco de tempestade, mas tbem não cumpre sua missão , assim é a vida !

  • Marcia disse:

    . “Reflexão profunda. Que Deus nos dê sabedoria para entender quem deve caminhar ao nosso lado e coragem para seguir em frente quando for preciso.”

  • Joao Donzelli disse:

    Muito bom…
    A idade nos ensina a ousar a nosso favor.

  • Valdir Ferreira disse:

    Rosa Donzelli semeia um jardim onde a alma aprende que nem todo pássaro nasceu para permanecer no mesmo galho. Há partidas que são podas sagradas: doem por um instante, mas devolvem à árvore a coragem de florescer. E, quando o coração reencontra seu próprio horizonte, descobre que a verdadeira ousadia é tornar-se rio — seguir adiante, sem aprisionar as águas que escolheram outro mar.

  • Neumar Silva disse:

    Rosa Donzelli, parabéns pelo belíssimo texto. Bem escrito, sensível e repleto de reflexões. Como você tão bem expressa, quando a tempestade que ataca o nosso porto se esvai, permanecem as brisas a acariciar nossas faces. São elas o verdadeiro solo fértil: a bondade autêntica, que não nos abandona e entra em nossos lares sem pedir licença, trazendo paz, discernimento e a coragem de seguir em frente.

    Neumar Silva✍️

    @neumarsilvaautor

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