A banalidade do “normal”

Rosa Donzelli – O mal nem sempre chega anunciando que é mal. Às vezes, chega bem vestido. Tem bons argumentos, fala baixo, cumpre horários, respeita protocolos e, sobretudo, sabe parecer normal. Talvez seja justamente aí que ele se torne mais perigoso.
Hannah Arendt nos deixou uma das ideias mais perturbadoras do pensamento do século XX: a banalidade do mal. Ao acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, ela se deparou não com a figura monstruosa que talvez esperássemos encontrar, mas com um homem aparentemente comum, burocrático, obediente, capaz de justificar seus atos pela simples alegação de que estava cumprindo ordens.
Arendt não banalizou o crime.
Investigou outra coisa: como o impensável pode ser praticado por pessoas que deixaram de pensar sobre aquilo que fazem. E talvez essa pergunta continue nos perseguindo porque não pertence apenas à história. Ela nos pertence.
Quantas vezes chamamos de “normal” aquilo que apenas se tornou frequente? Quantas violências ganham legitimidade porque acontecem todos os dias? Quantas humilhações são toleradas dentro de famílias porque “é o jeito daquela pessoa”? Quantas relações adoecem em nome do amor? Quantas pessoas se acostumam a diminuir outras, a controlar, a excluir, a silenciar — e encontram no ambiente ao redor a confirmação de que aquilo é apenas “normal”?
Há uma armadilha perigosa na palavra normal. Normal pode significar aquilo que é saudável, equilibrado, humano. Mas também pode significar apenas aquilo que se tornou habitual. E hábito não é sinônimo de verdade. Uma sociedade pode habituar-se à indiferença. Uma família pode habituar-se à violência. Uma instituição pode habituar-se à injustiça. Uma pessoa pode habituar-se a trair a si mesma.
E, depois de algum tempo, ninguém mais pergunta por quê. É assim que o absurdo começa a perder a aparência de absurdo. Primeiro, estranhamos. Depois, toleramos. Em seguida, justificamos. Por fim, chamamos de normal.
Talvez uma das formas mais silenciosas de violência seja justamente esta: fazer alguém acreditar que aquilo que o machuca é apenas a maneira como a vida funciona.
“Todo mundo passa por isso.”
“É assim mesmo.”
“Você precisa entender.”
“Não adianta lutar.”
“Sempre foi desse jeito.”
Há frases que parecem trazer conformidade, mas podem estar apenas ensinando alguém a desistir do próprio discernimento. E aqui a reflexão de Arendt ganha uma dimensão que ultrapassa a política. Pensar não é acumular conhecimento. Pensar é interromper o automatismo. É criar um intervalo entre o que acontece e aquilo que fazemos com o que acontece. É perguntar antes de repetir. É desconfiar do consenso quando o consenso exige que abandonemos a consciência. É ter coragem de dizer: “Se todos estão fazendo, isso não significa que eu precise fazer.”
Porque existe uma diferença enorme entre pertencer a um grupo e entregar a ele o próprio julgamento. Obedecer pode ser confortável. Pensar, muitas vezes, não é. Pensar nos coloca diante de nós mesmos. E talvez seja exatamente isso que evitamos quando nos escondemos atrás do “normal”. Porque enquanto dizemos “é normal”, não precisamos perguntar:
Normal para quem?
Quem definiu essa normalidade?
Quem se beneficia dela?
Quem sofre em silêncio para que ela continue parecendo normal?
Talvez a pergunta mais importante não seja “isso é normal?”, mas:
“Isso é humano?”
Essa mudança de pergunta pode alterar tudo. Porque há comportamentos socialmente aceitos que são profundamente desumanos. E há pessoas consideradas “diferentes”, “exageradas”, “difíceis” ou “inadequadas” simplesmente porque se recusaram a aceitar como natural aquilo que lhes parecia injusto.
A história está cheia de momentos em que o normal precisou ser desobedecido para que alguma coisa mudasse. Por isso, pensar é um ato de resistência. Não necessariamente uma resistência barulhenta. Às vezes, é apenas aquele pequeno movimento interno que nos impede de aderir automaticamente.
É olhar para uma situação e perguntar:
“Eu realmente acredito nisso ou apenas aprendi a acreditar?”
“Eu escolheria isso se ninguém estivesse esperando que eu escolhesse?”
“Estou fazendo porque quero ou porque todos fazem?”
“Estou em paz com a pessoa que me torno quando ajo assim?”
Talvez a consciência comece exatamente aí. No instante em que interrompemos o piloto automático. No instante em que deixamos de confundir adaptação com maturidade. No instante em que percebemos que nem tudo o que é comum é aceitável — e que nem tudo o que é aceito deveria continuar sendo chamado de normal.
O perigo não está apenas no mal que conseguimos reconhecer. Está também naquele que, de tão repetido, já não nos provoca espanto. Porque talvez a pergunta mais desconfortável não seja: “Como alguém foi capaz de ter fazer isso?”
Mas: “O que estamos deixando de questionar porque já nos acostumamos?”
É possível que a banalidade do mal comece muito antes do mal. Comece na banalidade do “é assim mesmo”. E talvez pensar seja justamente a maneira que temos de impedir que o costume se transforme em consciência adormecida. Afinal, há coisas que se tornam normais simplesmente porque deixamos de perguntar se deveriam ser.
Ilustra: O rosto da guerra, de Salvador Dalí (1940)