terça-feira, 1 de setembro de 2026

A ilusão do amanhã e o mapa do que importa

 

Rosa Donzelli – Lito Sousa passou a vida inteira explicando para milhões de brasileiros que turbulência não derruba avião. Foi assim que tirou o medo de voar de tanta gente que sequer conseguia pisar em um aeroporto. Mas, de repente, o próprio Lito se viu diante de uma tempestade que nenhuma explicação técnica alcança.

 

O diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob — rara, progressiva e, atualmente, sem cura — chegou tirando-lhe a mobilidade e a visão com uma crueldade ainda maior: preservando sua lucidez.

 

Em muitos casos, a doença começa comprometendo a memória e outras funções cognitivas para, depois, atingir o corpo. Com Lito, o caminho foi diferente. A consciência permanece enquanto o corpo vai perdendo força.

 

Lito está acordado, presente e consciente enquanto enfrenta uma realidade que nenhum de nós gostaria de precisar encarar.

 

Teve que sentar com seu filho de sete anos para explicar o inevitável. Teve que pedir aos amigos que cuidassem de seu canal para que o algoritmo não o apagasse, garantindo o sustento de quem fica.

 

Histórias como a do Lito nos atingem com a força de um soco no estômago porque revelam a nossa fragilidade mais profunda. Nós organizamos a rotina, as cobranças, as correrias e os planos de longo prazo em cima de uma ilusão muito cômoda: a certeza de que existe sempre um amanhã garantido.

 

E quando a vida desaba e o barulho do mundo silencia, o que fica de pé?

 

Não sobram o dinheiro, o cargo, os títulos ou a vaidade de ter razão em uma discussão idiota.

 

Sobra gente.

 

Sobram a mulher buscando tratamento, um menino de sete anos guardando um abraço, os amigos sustentando o que foi construído com afeto.

 

Sobra sempre o outro. Nunca sobra outra coisa.

 

É por isso que, mesmo nos dias em que a rotina tenta nos anestesiar, a vida insiste em nos mandar lembretes.

 

Retornando de viagem recentemente, em meio àquelas transições silenciosas que o ano vai impondo, peguei-me pensando no que a saudade realmente significa.

 

Ela não é apenas a ausência de quem está longe; é a prova viva de que alguém passou por nós e deixou uma marca que o tempo não consegue apagar.

 

Na escuta atenta do cotidiano, percebo o quanto a saudade funciona como um mapa silencioso. Se você observar quem aparece primeiro na sua memória quando o ruído do dia a dia diminui, encontrará ali o verdadeiro centro de gravidade da sua existência.

 

A boa notícia — e talvez a mais urgente — é que, para tantas pessoas que amamos, ainda há tempo.

 

Aquele aperto no peito que chega no silêncio não precisa virar apenas nostalgia. Pode se transformar em uma mensagem ao amanhecer, num telefonema despretensioso, num “estava pensando em você” sem motivo, sem data marcada, sem nenhuma outra intenção além de dizer: você importa para mim.

 

Os vínculos humanos são como plantas delicadas: precisam ser regados enquanto ainda temos as mãos livres para tocá-los.

 

Você tem uma ligação pendente com alguém agora mesmo.

 

Sabe exatamente quem é.

 

A pessoa talvez até tenha cruzado o seu pensamento enquanto você lia estas linhas.

 

Não espere a vida te sacudir para fazer aquilo que o coração já está pedindo.

 

A brevidade da vida não negocia com a nossa pressa.

 

Diga a quem você ama que se lembrou dela.

 

Não deixe para a semana que vem.

 

Faça hoje.

 

Porque Lito não está nesta história apenas como notícia. Está como espelho.

 

A história dele nos lembra aquilo que preferimos esquecer: a vida não nos promete o amanhã. Nós é que vivemos como se ela tivesse prometido.

 

Talvez seja essa a maior lição diante de tudo o que está acontecendo com ele. Não é sobre a doença. É sobre nós. Sobre o tempo que ainda temos, sobre as pessoas que ainda podemos abraçar, sobre as palavras que ainda podemos dizer.

 

Enquanto houver tempo, há uma escolha.

 

Não deixe para amanhã aquilo que o amor está pedindo hoje.

Este post foi escrito por: Rosa Donzelli

As opiniões emitidas nos textos dos colaboradores não refletem necessariamente, a opinião da revista eletrônica.

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