quinta-feira, 18 de julho de 2024

A nascente nas Dolomitas que ficarão para sempre em meu coração

 

Marcio Fernandes – Alta Via 1, dia 6 — Hoje foi um dia completamente atípico na travessia das Dolomitas. Meio-dia, para ser sincero. Ao encerrar a primeira etapa de cinco quilômetros, na chegada ao Refúgio Tissi, eu não aguentava dar mais um passo. Decidi, mesmo, descolar por lá alguma coisa pra comer e qualquer cama com a finalidade de me recuperar da noite anterior mal dormida.

 

Mais uma vez, meu anjo da guarda entrou em ação e pelas mãos da carinhosa proprietária do refúgio me foi concedida a exceção de acesso à internet depois que disse que era jornalista, tinha de escrever uma matéria e enviar para o Brasil. Após ter apagado no quarto por umas três horas, voltei ao salão principal do refúgio e dona Paula, que morreu de rir de ser assim chamada, cheia de preocupação me perguntou se eu havia me recuperado. Depois, me ofereceu o cardápio de três pratos para o jantar, que por sinal foi a melhor comida de todas montanhas até agora. Dona Paula, a tua generosidade vai viver para sempre em meu coração.

 

 

Ontem à noite, do nada, as nuvens cobriram o ambiente ao nível de altitude do refúgio. Foi lindo não fosse tremendo estresse coletivo, pois cinco alpinistas estavam perdidos na noite fria e escura. Muita gente se juntou para guiá-los montanha abaixo com sinais luminosos e tudo acabou bem com a bênção de Deus. Até eu enviei minhas preces e só fui pra cama depois que o pessoal chegou em segurança. Não se pode mesmo desafiar a majestade das Dolomitas.

 

A primeira fase do dia foi de descida muito severa de mais ou menos três quilômetros por trilha estreita de solo pedregoso e traiçoeiro pela garganta que se abre na face Noroeste do Monte Civetta. No lado oposto da montanha, um imenso desfiladeiro de dar medo abre o horizonte para florestas e muitas cadeias montanhosas.

 

 

A primeira grande atração do dia veio logo com imagem do Lago Coidai, onde um pessoal grande passou a noite acampado. No caminho rolou um grupo de cinco italianas, com toda certeza artistas de canto lírico, descendo a montanha a caminhar enquanto oferecia às Dolomitas lindo concerto de vozes absolutamente afinadas com aquele ecossistema de harmoniosa perfeição.

 

Nas Dolomitas, não há perdão. Todo caminho que desce depois sobe. E como foi torturante a montanha acima até o Refúgio Tissi! Subi contando os passos e transtornado de exaustão física e antipatia de mensagens do Dia dos Pais.

 

 

O verão está quase indo embora das Dolomitas, mas no solo de rochas frias brota uma variedade incrível de flores de várias formas e cores. Talvez elas estão aqui para dizer às montanhas que daqui a pouco irão embora para dar lugar à paisagem nevada e congelada, mas voltarão ano que vem porque Deus assim determinou ao criar no universo o movimento de translação da terra.

 

 

A exemplo de ontem, por aqui foi bastante movimentado o vai e vem de montanhistas. Poderia ter praticado o queridismo com o pessoal, no entanto estou sem humor para tanto, o que não significa estar mal humorado. Mas ganhei meu dia ao encontrar o montanhista Ricardo Manna de Uberlândia, minha pátria amada do grande amigo Marcelão.

 

 

O sol esta presente, tenho direito a tomar banho, cerveja boa e uma imagem privilegiada da face Norte do Monte Civetta como um paredão de boas vibrações. Se miro os olhos a Oeste, tenho visão panorâmica e em profundidade do Pale di São Martino, maior maciço rochoso das Dolomitas, para aonde o sol vai e se esconde. Amanhã é para lá que eu vou e assim terminar minha passagem pelas montanhas frias e plenas de desafio da Alta Via 1. Muito obrigado!

 

Texto e fotografias Marcio Fernandes

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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