quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A odisseia de voltar para si

 

Rosa Donzelli – Ulisses passou dez anos tentando voltar para casa. Dez anos de mares, monstros, seduções, perdas e tempestades. Dez anos entre a partida e o retorno. Mas talvez a parte mais difícil de sua Odisseia não estivesse no mar. Estivesse no momento de chegar.

 

Porque partir é, muitas vezes, mais fácil do que voltar. Quando estamos em movimento, os obstáculos são visíveis. Há tempestades para enfrentar, perigos para nomear, inimigos contra os quais lutar. O mundo exterior oferece uma distração conveniente: enquanto lutamos contra alguma coisa, não precisamos necessariamente olhar para dentro.

 

O retorno é diferente. Quando a viagem termina, desaparecem os monstros que nos mantinham ocupados. Resta o espelho. E o espelho não pergunta quanto conseguimos suportar. Pergunta quem nos tornamos depois de tudo.

 

É aí que a história de Ulisses deixa de ser apenas uma narrativa sobre um homem tentando chegar à sua casa e se transforma numa metáfora profundamente humana. Porque todos nós, em algum momento, fazemos uma Odisseia.

 

Há quem passe anos tentando voltar para uma relação, uma cidade, uma profissão, uma família, uma versão antiga de si mesmo. Há quem atravesse continentes para descobrir que aquilo que procurava não estava em nenhum mapa. E há quem demore uma vida inteira para perceber que “casa” nunca foi exatamente um endereço. Casa pode ser o lugar interno onde finalmente deixamos de fugir de nós mesmos.

 

A maturidade talvez seja isso: perceber que não voltamos para quem éramos. Voltamos para quem conseguimos nos tornar.

 

Ulisses retorna diferente. E talvez essa seja a parte mais bonita da história. A viagem não serviu para devolvê-lo intacto ao ponto de partida. Serviu para transformá-lo.

 

Toda grande travessia cobra alguma coisa. Algumas certezas ficam pelo caminho. Algumas ilusões não sobrevivem. Certos vínculos perdem o sentido. Determinadas versões de nós mesmos simplesmente deixam de existir. E isso pode doer.

 

A gente costuma imaginar que amadurecer é acumular: mais conhecimento, mais experiências, mais histórias, mais conquistas. Às vezes é exatamente o contrário. Amadurecer também é aprender a deixar para trás.

 

O problema é que nem sempre sabemos quando parar de procurar aquilo que já não existe. Existe uma espécie de vício em retornar ao passado para tentar corrigir uma história que já terminou. Reabrimos conversas, revisitamos lugares, reconstruímos cenas, imaginamos outros finais. Como se compreender completamente o que aconteceu pudesse nos devolver alguma coisa. Raramente devolve.

 

Talvez porque algumas histórias não tenham sido feitas para ser resolvidas. Foram feitas para nos transformar. A grande pergunta da Odisseia, então, não é apenas “como chegar?”. É: quem estará chegando? Porque o tempo não é apenas aquilo que passa. É aquilo que nos modifica enquanto passa.

 

E talvez seja por isso que algumas pessoas tenham tanto medo de voltar para casa. Não porque temam o lugar, mas porque suspeitam que já não cabem na pessoa que eram quando partiram.

 

Existe uma coragem silenciosa em aceitar isso. Olhar para a própria história sem tentar apagar as tempestades. Reconhecer os erros sem transformar o erro em identidade. Agradecer algumas pessoas pela passagem e aceitar que outras não voltarão conosco. Perceber que aquilo que perdemos também ajudou a construir aquilo que somos. E finalmente entender que o retorno não é uma regressão. É uma chegada.

 

Talvez seja essa a verdadeira Odisseia de todos nós: passar boa parte da vida procurando fora aquilo que, em algum momento, precisaremos encontrar dentro. A casa não é necessariamente o lugar para onde voltamos. Às vezes, é o lugar dentro de nós onde finalmente conseguimos ficar. E talvez a maior conquista de uma longa travessia não seja chegar ao porto. Seja chegar a si mesmo.

 

Porque há viagens que nos levam para muito longe. E há aquelas que, depois de tudo, nos devolvem exatamente para onde deveríamos ter estado desde o começo: dentro de nós!

 

 

Este post foi escrito por: Rosa Donzelli

As opiniões emitidas nos textos dos colaboradores não refletem necessariamente, a opinião da revista eletrônica.

Um comentário em "A odisseia de voltar para si"

  • Valdir Ferreira disse:

    Belíssimo texto, Rosa! 🌹 A vida também é uma longa Odisseia: atravessamos mares de dúvidas, tempestades de perdas e ilhas de ilusões. Mas, no fim da travessia, descobrimos que a verdadeira casa não está em nenhum porto, e sim dentro de nós. Amadurecer é voltar diferente, deixando pelo caminho aquilo que já não somos, até finalmente aportar em nós mesmos.j

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