sábado, 18 de maio de 2024

“A Revolução de 64 acabou no Governo Castelo Branco”

 

Marcio Fernandes – Em depoimento à série Como foi a sua vida durante o Regime Militar, o professor de Direito Joveny Cândido de Oliveira, 88 anos, relata à Bybritznews minúcias do Golpe de 1964 pouco apresentadas pela historiografia brasileira. Personagem atuante na deposição de João Goulart desde a crise militar da Campanha da Legalidade, em 1961, o ex-oficial do Exército Joveny detalha o momento em que o Regime Militar começou a ser corroído pela interferência da Tigrada, grupo linha-dura sob a liderança do general Costa e Silva. Coube à Tigrada levar o País para o extremo da ditadura em oposição à radical esquerda armada. Para o professor, com mais de 50 anos de universidade e filiado à doutrina da Escola Superior de Guerra, a chamada Sorbonne, o propósito inicial da Revolução de 64 era tirar João Goulart do poder e promover eleição para presidente imediatamente para devolvê-lo aos civis. Na opinião do jurista, o nome ideal seria o ex-presidente Juscelino Kubitschek. Joveny acredita que o Regime Militar durou muito além do que foi planejado e subverteu o que foi desejado.

 

Marcio Fernandes – Onde o senhor estava naquele dia 31 de março de 1964?

 

Joveny Cândido – Eu estava em Goiânia. A partir do dia 18 daquele mês, eu estava de sobreaviso. Eu não posso falar de 31 março de 1964 sem me reportar um pouco ao que aconteceu em 1961, que foi exatamente a posse do presidente João Goulart, cuja ascensão ao poder ocorreu em situação extremamente conturbada depois da renúncia do presidente Jânio Quadros. Como oficial do Exército, segundo tenente, a minha atividade foi muito maior. No dia 24 de agosto de 1961, exatamente no dia da renúncia, eu era oficial de dia do Primeiro Regimento de Carros de Combate no Rio de Janeiro. Desde então, eu seguia uma linha política que era chamada nos níveis mais baixos do oficialato de Centelha e nos níveis altos de Sorbonne. Eram oficiais e muitos civis que seguiam a doutrina da Escola Superior de Guerra. Eu era um advogado recém-formado na Universidade Católica do Rio de Janeiro e havia algumas pessoas muito ligadas a mim, como o coronel Paulo Souza, o general Plínio Pitaluga, o general Montanha, entre outros. Eu sabia que alguma coisa aconteceria no processo político em razão do presidente Goulart estar assumindo posições muito contrárias ao que era planejado pelo pessoal da Sorbonne para o futuro do Brasil. Então, o que aconteceu em 1964 não me surpreendeu de forma alguma, pois eu já estava preparado. Quando eu saí do Rio de Janeiro e vim para Goiânia, no final de 1961, eu já ficara prevenido. A palavra era: prepare-se que já vem outra. No dia 31 de março aconteceram os episódios todos no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, em São Paulo. Em Goiás nós tínhamos o governador Mauro Borges, um homem íntegro, correto e sábio, embora a esposa dele fosse de esquerda e o influenciava muito. O Mauro Borges, que era coronel do Exército, se deu ao trabalho de fazer um tipo de socialismo diferenciado. Por exemplo, ele foi para Israel e de lá trouxe a ideia das fazendas coletivas, inspiradas nos Colcozes da ex-União Soviética, e fez o Combinado Agrourbano de Arraias, muito parecido com os Kibutzim. Ele tinha lá no meio dele algumas pessoas bem de esquerda e isso foi muito mal visto lá em cima, em Brasília. Nós tínhamos muita esperança de que o coronel Mauro Borges ficasse no governo. O marechal Castelo Branco, ao assumir o poder logo depois do 31 de março de 1964, começou a aplicar todas as ideias da Sorbonne, cujo grande orientador era o general Golbery do Couto e Silva. O Golbery foi o planejador de toda a estratégia geopolítica brasileira na época. Um gênio político na minha visão e que era mal visto pela Tigrada.

 

Marcio Fernandes – Então, o senhor e o grupo a que pertencia não conspiraram contra o Mauro Borges?

 

Jonevy Cândido – Contra o Mauro Borges, não. Eu participava de reuniões quase todas as noites, fora de Goiânia, preparando material para uma possível resistência que o general Argemiro Assis Brasil, chefe do Gabinete Militar do presidente João Goulart, fosse disparar contra a gente. O comandante do 10º Batalhão de Caçadores em Goiânia era uma pessoa pela qual nós tínhamos restrições. Achávamos que ele iria colocar o batalhão contra a gente. O Serviço Secreto do Exército, as chamadas Segundas Seções, sabia de tudo o que estava acontecendo. Nós tínhamos depósitos de gasolina espalhados pelas fazendas. Tínhamos depósitos de medicamentos. Nós recebíamos armamentos, dentro daquilo que a gente podia adquirir. Quase toda fazenda de Goiás tinha uma pista de pouso e decolagem com mais de mil metros para apoiar a resistência com aeronaves de maior parte como o C-47, o Samurai etc. Isso tudo a história esqueceu, mas estou te contando, pois você me perguntou.

 

Marcio Fernandes – A história tem de ser contada mesmo…

 

Jonevy Cândido – Graças a Deus não houve derramamento de sangue. Eu já vi derramamento de sangue e não tem graça nenhuma. Eu já vi na minha vida de soldado, por três anos, nove meses e 19 dias, o que um ser humano é capaz de fazer com outro em combate. A fera que existe em cada um se manifestar da maneira mais bestial que possa acontecer por uma razão simplérrima, pois o homem é racional e quando ele dedica a fazer o mal é ilimitado.

 

 

Marcio Fernandes – E como os fatos se sucederam após o Golpe de 64?

 

Jonevy Cândido – A minha esperança e do pessoal da Sorbonne era de que houvesse eleição em 1966. A eleição, aliás, era para ter acontecido em 1965. Nós já tínhamos lançado o ex-presidente Juscelino Kubitschek como nosso candidato. Outros, na linha mais à direita do pensamento, haviam lançado o Carlos Lacerda. Minha família era de pessedistas, do PSD antigo do Pedro Ludovico Teixeira. Eu me lembro do Juscelino Kubitschek visitando meus pais em Goiânia. O Dr. Juca Ludovico era compadre do meu pai. Era essa a nossa posição, seguindo os passos do presidente Castelo Branco.

 

Marcio Fernandes – E por que a história não seguiu este curso?

 

Jonevy Cândido – De repente aconteceram episódios absolutamente estranhos e a gente perdeu o controle. Entra em cena um cidadão desconhecido, que eu como soldado não sabia quem era, chamado Artur da Costa e Silva (segundo presidente militar). Ele um general quatro estrelas, o mais antigo no posto, e assumiu o comando da força de terra. Sentou-se lá no Palácio Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, sem ninguém nomeá-lo. Ele assumiu o Ministério da Guerra e se sentiu o grande condestável da República. O resto você já sabe.

 

Marcio Fernandes – E como ficou o pessoal da Sorbonne?

 

Jonevy Cândido – Ele forçou o Castelo e todo pessoal da Sorbonne a ir para um canto, botou para fora dos quartéis a Tigrada e instalou a chamada linha dura. O Castelo nunca foi linha dura. Nós nunca fomos linha dura. Aí é que eu falo para você que onde a natureza humana se manifesta da maneira mais bestial. Eu não vou narrar os nomes dos fardados que cometeram as maiores barbaridades possíveis. Agora, uma coisa que eu quero ressaltar: quando o Costa e Silva assumiu, liberou a Tigrada e o pessoal da Sorbonne foi alijado, as coisas perderam o rumo. Começou capitão querendo virar coronel. Coronel querendo virar general. General querendo virar ministro. Em Goiânia mesmo, apareceram militares construindo casa e dando cheque sem fundo. Um dia uma determinada firma protestou um cheque sem fundo de um major de artilharia do Exército. Ele foi ao meu cartório e me perguntou se eu era o tenente Joveny. Depois me indagou se eu conhecia fulano de tal, que era dono do cartório tal. Aí ele me perguntou se eu poderia ir com ele até o mencionado cartório. Entrei no Jipe e fui até lá. Chegando lá, ele queria dar bronca no dono do cartório por ter protestado um cheque dele, pois era crime contra a Segurança Nacional protestar cheque de um major. Teve um outro, que era major de Artilharia, que chegou aqui, assumiu a presidência do Leite Gogó, que era uma cooperativa privada, e disse que havia assumido o cargo em nome da República. Começou a receber leite, não pagava os fazendeiros e colocava o dinheiro na conta dele. Não vou falar nomes, Marcio, mas todas essas barbaridades aconteceram depois que o pessoal da Sorbonne foi colocado para fora do processo revolucionário e substituído pelo o que se chamava de Tigrada.

 

 

Marcio Fernandes – E houve os levantes de 1968 em algumas partes do mundo que repercutiram por aqui.

 

Jonevy Cândido – Marcio, você devia ser criança, mas em 1968 o mundo virou de cabeça para baixo. A juventude pegou fogo. Qual foi o ano das grandes festas, de Woodstock, onde apareceram Jimmy Hendrix e outros músicos malucos, com o uso brutal das drogas, além do lançamento do anticoncepcional? 1968! Isso teve reflexo no Brasil, exatamente quando a Tigrada esteve no poder. É uma lei da física: a cada ação corresponde uma reação igual em sentido contrário. O fogo pegou em Paris sob a liderança de Daniel Cohn-Bendit e pegou aqui também. Aí alguns velhos, criminosamente espertos, muito mal intencionados, mas muito bem informados, jogaram a meninada na Guerrilha do Araguaia, em assalto a banco, no sequestro de embaixadores. Só a garotada fazia isso, meninos de 18, 19 anos. Posso falar isso, pois estou com 88 anos. Era Gabeira, era Aldo Arantes, meu grande amigo. Era só menino, Marcio. E grandões empurrando os bobos nas mãos da Tigrada. Isso foi um erro crasso. De quem? Da Tigrada de um lado e da extrema esquerda de outro.

 

Marcio Fernandes – E como o senhor seguiu depois que o pessoal da Sorbonne foi alijado?

 

Jonevy Cândido – Eu continuei trabalhando do meu jeito, tornei-me professor, tentei ajudar o máximo possível de pessoas nesses já 50 e poucos anos de magistério que eu tenho, deixei de lecionar em 2022, e vivi bem minha vida cuidado dos meus negócios na agropecuária e no cartório. Em 1971, 1972 eu fundei a Anhanguera (Faculdade). Fiz minhas críticas tristes, fui chamado mais uma vez para ser peguntado do porquê de eu falar aquilo e aí eu descarregava meu caminhãozinho de maldade em cima do inquisidor e ele calava a boca. Não tem coisa pior no mundo do que você ver a verdade. A minha mãe falava: “A verdade é única mulher que ninguém quer ver pelada”!

 

Marcio Fernandes – E como o senhor percebe o último governo do Regime Militar do general Figueiredo?

 

Jonevy Cândido – Eu achei muito bom quando o Figueiredo assumiu, pois o conheci major. Eu era aspirante no Regimento dos Dragões da Independência no Rio de Janeiro, que ainda não havia sido transferido para Brasília e estava sediado na Avenida Pedro II, ali da Quinta da Boa Vista. Eu ia lá montar cavalo e via o Figueiredo. Eu esperava que a coisa com ele fosse boa, mas ele não tinha força. Estava predeterminado a fazer o que ele fez. Quem mandava era o Geisel.

 

Marcio Fernandes – O senhor não acha que houve indisposição do Figueiredo em governar? Parece que ele não gostava daquilo.

 

Jonevy Cândido – Ele estava fora do lugar. O Figueiredo era um grande general. Ele era Tríplice Escolado no Exército. O que isso significa? Primeiro lugar na Academia Militar. Primeiro lugar na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. Primeiro lugar na Escola de Comando do Estado Maior do Exército. Super preparado. Grande matemático. Não tinha apetite para governar. O pai era general. Os dois irmãos eram generais. No entanto, era o único em que Geisel tinha confiança. Tanto que o promoveu a general quatro estrelas na última hora para se tornar presidente, pois não havia vaga. O general Arnaldo Calderari foi quem entregou a estrela para ele, que por sinal era amigo meu e da minha família. O Figueiredo não tinha perfil de presidente. Ele queria comandar uma divisão de Exército, comandar carros de combate. Ele passou a vida inteira dele fardado. A última missão de um general quatro estrelas era ser presidente do Brasil. Um absurdo, mas era a posição do Exército, da Tigrada, na época. Eu fazia muitas críticas, mas nunca fui herói de nada. Como você sabe muito bem, eu fui seu professor, eu era um professor caipira de uma universidade sertaneja. Um advogado, razoável, um pequeno fazendeiro. É o que eu sou. Depois no Governo Sarney, recebi muitas medalhas do Exército. Uma atrás da outra.

 

 

Marcio Fernandes – O presidente Médici era também enquadrado pela Tigrada?

 

Jonevy Cândido – Era sim. Eu conheci o general Médici comandante do Regimento Andrade Neves no Rio de Janeiro. Uma vez eu era cadete e fui encarregado de reunir e distribuir um equipamento de comunicação para um exercício de combate. Nós estávamos trabalhando, o equipamento estava deteriorado. Ele passou por mim montado em uma égua chamada Epopéia, me perguntou de onde eu era e quis saber como era Goiás. No dia 12 de dezembro de 1971, era meu aniversário, eu fui até o gabinete presidencial para dar andamento no decreto de criação da Faculdade Anhanguera. Me apresentei ao presidente como oficial. Ele fumava o tempo todo. Aí o Médici assinou o decreto, pediu suco de laranja para comemorar meu aniversário e disse que éramos irmãos. Eu respondi que sim, irmãos de farda, de arma e cavalaria. Foram os contatos que eu tive com ele. Era dos homens mais educados e gentis com quem já tive oportunidade de conversar. Dizem que ele foi o Homem da Tigrada. Eu não acredito nisso. Acho que ele foi enquadrado. Eu acho que ele não deu ordem para ninguém arrancar unha dos outros e praticar tortura.

 

Marcio Fernandes – E como o senhor analisa o Governo Geisel?

 

Jonevy Cândido – Eu conheci o presidente Geisel quando eu era diretor da Celg e ele veio para a inauguração da Usina de Cachoeira Dourada. Depois, quando ele veio inaugurar o sistema de transporte urbano do Eixo Anhanguera. Era um homem muito sério, de cara fechada, inabordável, extremamente estatizante. Tudo o que se fez para desestatizar o Brasil com ele foi desmanchado. Isso marcou uma geração inteira não por conta exatamente do próprio Geisel, mas do Orlando Geisel, que era um general mais velho do que ele e tinha uma predominância muito grande sobre o presidente. Tanto que o Geisel determinou, com o Orlando já na reserva, que Palácio Barão da Laguna, no Rio de Janeiro, que era a casa do ministro da Guerra, fosse destinado à moradia do Orlando. Geisel era um germânico, de opiniões extremamente firmes. Não aceitava palpite de ninguém. Aí entra a história do meu amigo Heitor Aquino Ferreira, que é o homem mais importante deste período. Ele foi secretário do Geisel e do Figueiredo. Ele tinha pilhas e pilhas de cadernos com anotações de tudo o que acontecia no Gabinete Presidencial. O Heitor entregou todo esse material para o Elio Gaspari e deu fundamento para o jornalista escrever a coleção de cinco volumes sobre o que ele chamou de ditadura. Ali quase tudo bate com o que eu sei. Alguns números divergem e não sei quem tem razão.

 

 

Marcio Fernandes – Qual o balanço que o senhor faz dos 21 anos de regime militar, 60 anos depois do Golpe de 1964?

 

Jonevy Cândido – A história é pêndulo. Ele vai para um lado e para o outro. No Brasil não foi diferente do resto do mundo. O João Goulart estava levando o pêndulo do Brasil para a esquerda. Nós poderíamos ter usado a ação política para trazer o Brasil para o centro seja com Carlos Lacerda seja com Juscelino Kubitschek. Agora, não funcionou. O próprio cenário de Guerra Fria, por conta da influência americana em cima das forças políticas, militares e econômicas, moveu o pêndulo para outro sentido. Agora, durou muito. Não era para durar 21 anos. Na minha concepção, a Revolução de 1964 acabou no Governo Castelo. No dia em que o Castelo saiu já era outra coisa. Podia até chamar de Revolução de 1964, mas não era aquilo que nós imaginávamos para o Brasil. Desde cadete, éramos doutrinados para uma posição de predomínio do Brasil na América Latina em termos geopolíticos e de eliminação da pobreza no País, com muito foco em educação e infraestrutura.

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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4 comentários em "“A Revolução de 64 acabou no Governo Castelo Branco”"

  • Avatar Maria Leda17063@gmail.com disse:

    Parabéns maravilhos texto!!a vdd crua é verdadeira….

  • Avatar Maria Dulce Teixeira disse:

    Só uma correção: Maria de Lourdes Dornelles Estivallet Teixeira NUNCA foi esquerdista, pelo contrário, gaúcha, parente de Getúlio Vargas, sempre acompanhou e apoiou o marido Mauro Borges, tinham ideias harmoniosas, pode se dizer que ela era sim, mais política, discursava brilhantemente e tinha uma análise mais crítica dos adversários de Mauro, pois ele era muito mais um gestor/administrador por ser um militar formado na escola de Estado Maior do Exercito, um curso equivalente a um doutorado em atividades militares, sua tese foi em logística especialmente hidroviária. Sou nora de Mauro e escrevi o livro sobre a Legalidade, o apoio de Mauro à posse de João Goulart

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