segunda-feira, 17 de junho de 2024

A volta de Ubaldo, O Paranoico

 

Não bastasse a quantidade de bobagens que ouvimos nos últimos 41 meses, nesta semana o presidente Jair Bolsonaro será julgado pelo Tribunal Permanente dos Povos (TPP) por crime contra a humanidade. A conduta delituosa foi especialmente dirigida a exterminar populações negras, povos indígenas e profissionais de saúde durante a pandemia. Criado na Itália em 1979, em sucessão ao Tribunal Russell, que denunciou as atrocidades da Guerra do Vietnã, o TPP é uma corte de opinião sem qualquer sedimento do direito universal. Justamente por estar ao largo da legalidade, o TPP vem ao Brasil para fazer Júri simulado com condenação estabelecida. Uma patacoada de ilimitado poder não jurisdicional com sede no Salão Nobre da Faculdade de Direito da USP.

 

Naturalmente que a finalidade da 50ª Sessão do Tribunal Permanente dos Povos é criar fato político transitório para reforçar os argumentos da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. A esquerda cometeu erro de comunicação primário ao classificar Bolsonaro de genocida. O brasileiro como, diz Tereza Emília, não sabe se isso é de comer ou passar no cabelo. Genocida é algo incompreensível para a maioria iletrada e não corresponde à percepção geral em relação à pandemia. Nas relações pessoais, não vejo ninguém culpar o presidente pela morte por Covid da mãe ou dos caros amigos.

 

O número de 665 mil mortes parece assustador, mas significa mais ou menos a quantidade de homicídios que se pratica no Brasil em uma década. Como o País é muito violento e entranhado de impunidade, a morte desmotivada não é estranha ao brasileiro. Não votei e não sou eleitor do Bolsonaro. Tampouco do Lula. Agora, para que fosse posta na conta do presidente as centenas de milhares de mortos, seria preciso que os pacientes tivessem morrido em porta ou corredor de hospital, o que definitivamente não ocorreu. Ricos e pobres, caucasianos e mulatos, todos, com raras exceções, morreram em uma UTI com o cuidado médico possível.

 

Ainda que o presidente tenha cometido todo tipo de desaforo verbal durante a administração da pandemia, isso não significa intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como diz a lei que define o crime de genocídio. Não houve também negligência em escala determinante ao número de mortes, uma vez que o Sistema Único de Saúde (SUS) funcionou com eficiência. A campanha de imunização teve cobertura excepcional, como era esperado do SUS. Às favas a opinião de Bolsonaro sobre as vacinas. Isto só trouxe prejuízo à reputação do próprio presidente.

 

O libelo acusatório deste Tribunal Permanente dos Povos é inominável empulhação ideológica. Um ato fabricado para criar uma vitimização especial que não existiu durante a fase mais grave da pandemia. Ao contrário, as populações indígenas e quilombolas foram vacinadas com prioridade, no momento em que 220 milhões de outros brasileiros estavam desesperados pela vacina. Se houve diretriz de seleção étnica ou cultural na fila da vacinação foi justamente para beneficiar indígenas e quilombolas, além dos profissionais de saúde. Quem se utilizou de poder político para quebrar a ordem de imunização estabelecida foi ridicularizado. Já quem não quis receber a vacina teve liberdade total de exercer o livre-arbítrio.

 

Outro dia assisti, por acaso, uma jornalista da CNN Brasil, especialista em diversidade, ou seja, escolada no “tudismo,” a dizer sem o menor pudor da platitude que a Covid matou deliberadamente mais negros do que brancos no Brasil. São estatísticas produzidas pela vontade própria de se criar uma inverdade engajada. Facilmente palatável para quem deve obediência ao politicamente correto. A sugestão ao Tribunal Permanente dos Povos é leitura ampla dos quadrinhos de Ubaldo, O Paranoico, personagem do Henfil que no fim da ditadura sofria mania de perseguição. É democrático, mas não tem cabimento esse pessoal vir ao Brasil para criar paranoia com os povos alheios.

 

 

Marcio Fernandes é jornalista

 

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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1 comentários em "A volta de Ubaldo, O Paranoico"

  • Avatar Noemy Faria disse:

    Seria suspeito, se não fosse verdade. Sou fã do Marcinho. Texto justo e irrepreensível. Ler o que ele escreve me faz ter mais fé na vida.
    Parabéns! Te amo❤️❤️❤️

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