segunda-feira, 17 de junho de 2024

A volta para casa e o encontro preventivo com o Sapateiro Arnaldo

 

Marcio Fernandes – Todas as minhas despedidas são bem machucadas e têm a companhia de música dolorida. Hoje, o Spotfy, já sabendo que deixarei Lisboa daqui a pouco, nas primeiras horas da manhã me fez ouvir o bolerão Historia de un Amor para ocultar o barulho das aeronaves que partem sem pena de mim.

 

É meio manjado, mas precisava de música derrete-coração em castelhano e francês para ficar feliz em voo de 9 horas no poleiro de uma aeronave destinada ao torturante aeroporto de Viracopos. Ninguém merece chegar em Campinas após quase um mês de Europa. Nem acordar às três da manhã sob intenso ataque de bed bug em hotel qualificado.

 

 

Na quinta-feira, no Parque Eduardo VII, eu e Nina dedicamos parte da manhã a colher margaridas. Como sempre, houve certo desentendimento sobre o destino das flores. Eu queria que elas enfeitassem seu cabelo de Maria Chiquinha. Ela foi só teimosia ao misturá-las com mini tulipas amarelas e cobri-las de pedras trituradas. Teve muito bom, pois consegui acomodá-las na cama de folha de plátano. Ficaram eternizadas na fotografia com cara de adeus.

 

Nina aderiu ao comprismo brasileiro. Durante toda viagem, procurou desesperadamente por Emily Sapequinha, segunda melhor amiga da Peppa Pig, personagens de desenho animado muito chato. Finalmente conseguiu, após périplo por 54 lojas de brinquedos. É muito bacana cumprir qualquer objetivo. Paguei um preço sentimental de alto custo por me recusar a ir de novo a shopping center. Ela buscou na memória minha promessa de nunca deixá-la. Voltei para o hotel carregando no bolso do casaco uma pétala de malmequer, como diz a Sofia.

 

 

Em Lisboa há muitas portas rugosas de madeira bem trabalhadas e ferrolhos artesanais do século 19. Algumas ficam ainda mais lindas por conta da severidade do tempo e da obra do abandono. Há mais de uma década só vou a Baixa Pombalina por obrigação.

 

Não tenho mais idade para abrir passagem nos blocos de gente a carregar sacolas da Zara em busca dos Pasteis de Belém, que não constam da régia doçaria lisboeta, justamente por terem residência estabelecida em Belém. Já gostei muito de me hospedar em elegante pensão do bairro Príncipe Real só para me sentir personagem de Eça de Queirós. Hoje me refugio em Avenidas Novas por ser uma área de muita personalidade residencial, como eu.

 

 

Mesmo em Portugal, onde o vinho é muito barato em relação à Itália ou França, não acredite muito no que está escrito no rótulo de garrafas que não sejam de boa procedência. Podem ser conversa para entreter tolo os enunciados vagos como Grande Escolha, Colheita Selecionada ou a recomendação de que se trata um vinho delicado, mas afirmativo. Geralmente é água de balde que dispensa a identificação de aromas ou a notoriedade dos taninos. Na verdade, tudo isso é uma inominada bobagem de mentecapto fazendo cara de sommelier.

 

Não sou de recomendar restaurante. Abro exceção para o Galeria 44, uma casa brasileira que serve generosa picanha com feijão preto carioca, arroz branco soltinho, genuíno vinagrete, batata fria bem seca e, acreditem, farofa de mandioca da melhor qualidade. Ideal para terminar a viagem com prato da boa lembrança.

 

A saudade é uma escultura de mármore partida, um cigarro apagado no cinzeiro, uma caravela que naufragou cheia de especiarias depois de dobrar o Cabo das Tormentas. O sebastianismo que se ressuscita no novo fado. A saudade é a alma das minhas tentações por sempre começar e terminar as viagens em Lisboa, não importa se estive em Kiev ou Tel Aviv.

 

 

A saudade é ausência, daqui a pouco, da Nina, que morre de saudades da Manuela. A saudade é também uma coisa boa por ser um lugar destinado a voltar. A saudade é a falta completa de arrependimento, especialmente quando ouço Maria la Portuguesa, na interpretação ferida de Las Migas.

 

No inverno em Lisboa o céu se colore de faixas horizontais em cumplicidade com nuvens de igual formato a imitar a tonalidade dos tapetes de Arraiolos, lá do distante Alentejo. Eu, que já gostei do frio, hoje me encolho. Filha, foi muito bom viajar contigo sem a menor margem para conflitos, apesar da governança das Melo funcionar como um radar do planeta. Foram muitas distâncias encurtadas em um só lugar. Melo prescinde de abraço e beijo para dizer eu te amo.

 

 

Eu estava andando a esmo por Saldanha atrás de um doce chamado Telha de Amêndoas. Antes de alcançar a deliciosa confeitaria, daquelas que você lambe a montra, vitrine em Portugal, vi placa que indicava o estabelecimento do Sapateiro Arnaldo. Fica logo ali ao lado. Guardei o endereço para quando eu voltar a Lisboa. Certamente um dia vou precisar dos cuidados deste habilidoso artesão português em processo de extinção no mundo do retardamento artificial.

 

Texto e fotografias Marcio Fernandes

 

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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4 comentários em "A volta para casa e o encontro preventivo com o Sapateiro Arnaldo"

  • Avatar Maria Amélia Alencar disse:

    Saudades de Lisboa. Faz tempo que não apareço por lá…

  • Avatar Américo Vasconcelos disse:

    Uma boa viajem de retorno à terrinha!

  • Avatar Heliane Fernandes Moreira disse:

    ” A saudade é um também uma coisa boa por ser um lugar destinado a voltar” ❤️

  • Avatar Clara Accioly disse:

    Obrigada.
    Realmente é muito bom passar por Portugal ao retornar para casa. Sou fã de Lisboa. Triste é ver que a invasão de brasileiros está afetando o cotidiano lusitano.
    Só para exemplificar: em outubro passado , ao retornar para o Brasil. Fiz uma parada curta (3dias) em Lisboa. Arrependimento por tão pouco. Na noite que chego , meu grande amigo português ,levou me ao um restaurante ao lado do hotel. Pode imaginar ??? O restaurante lotado , sinal de sucesso ? E ao entrar todos em febre , a cantar , …. Seu guarda eu não sou vagabundo…. Sinceramente , fiquei muito triste.

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