segunda-feira, 17 de junho de 2024

 Arroz com catchup no deserto de sal

 

Marcio Fernandes – Salar de Uyuni, Bolívia, é um daqueles lugares que você tem de conhecer antes que o mundo acabe, mas não precisa voltar. Maior e mais alto deserto de sal do planeta, o singular bioma compreende uma área de aproximadamente 11 mil km².

 

Isto é quase o dobro do território do Distrital Federal com volume de 10 bilhões de toneladas de sal no qual se encontram 70% da reserva mundial de lítio, o minério da geração Z. É um mundo particular de sal, sol intenso e atmosfera fria desprotegido de qualquer iniciativa aparente de conservação ambiental.

 

Não há como fugir da visita com guia, a não ser que você esteja fazendo uma viagem de longa distância de moto ou carro e tenha conhecimento de operar rotas de navegação. Se peder por aqui é fácil e de trágicas consequências.

 

 

Há duas maneiras de se visitar o Salar. Fazer o bate-volta desde a tenebrosa Uyuni ou dedicar três dias para explorar o deserto de sal e as lagoas em profundidade. Não posso afirmar com ampla convicção que conhecer o bioma foi uma roubada porque o ambiente vale a viagem. Mas no passeio estão incluídas algumas furadas próprias de toda atividade de viagem que envolva guia, pacote ou excursão.

 

Uyuni, a cidade base, faz Barreirinhas, no Maranhão, parecer um vilarejo do Sul da França. A porta de entrada do Salar é um assentamento urbano pavoroso, muito bagunçado, encoberto de poeira e forrado de lixo nas ruas e nos lotes baldios.

 

 

Há lugares em que o resíduo plástico se gruda na vegetação rasteira e forma visualmente uma lavoura de lixo. O que torna mesmo Uyuni o vizinho mais próximo do inferno é o fato de que a cidade inteira é uma construção inacabada e todo mundo mora na obra.

 

Há dezenas de agências que vendem o pacote e o embrulho da viagem completos. Em 79% dos casos você vai comprar um passeio em veículo 4×4 velho e desarrumado. Como se trata de uma viagem de seis horas de duração é imperativo o almoço no Salar. Neste caso, a possibilidade de a comida ser muito ruim sobe para 91%.

 

O padrão é frango de granja sem tempero, arroz branco amanhecido e uma salada cozida. Falta sal na comida do deserto de sal. Ninguém reclama pois na Bolívia não existe este instituto social chamado reclamação.

 

 

Agora, o ambiente do Salar é de uma beleza fotográfica que nem mesmo a imagem da tua câmera é capaz de revelar plenamente. Lá moram um sol e um azul do céu que estão sempre aos teus pés.

 

A superfície absolutamente plana e branca do solo reflete a paisagem celestial ora em terreno dividido em escamas ora em lâminas d’água. Qualquer elemento que projeta sombra cria uma imagem sensacional na terra de sal do Salar.

 

 

O bioma é muito lindo e merece uma visita enquanto você estiver vivo. Só não faça como os bolivianos. Na mesa em que não havia vinagre e óleo de oliva tinha maionese e catchup em embalagem de plástico.

 

Eles cobrem o arroz com a combinação daqueles produtos gosmentos e devoram o frango pálido como se estivessem na última ceia do deserto. E depois saem felizes a ouvir no carro composições que exaltam a Bolívia marcadas pelo agudo da zampoña e a temática recorrente do amor traído nos confins andinos.

 

Marcio Fernandes é jornalista

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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