sábado, 18 de maio de 2024

As lições de um pesadelo

 

Luiz Augusto da Paz – Sempre que sou instado a falar ou a relembrar algo ligado à ditadura militar no Brasil, durante o período de 1964 a 1985, a imagem que me vem à cabeça é a do professor Orieste Gomes, da Universidade Federal de Goiás, sendo barbaramente espancado por um grupo de militares numa área do antigo 10º BC, unidade do Exército Brasileiro, em Goiânia.

 

Chegamos ao local em grande número, conduzidos por diferentes viaturas e forte aparato policial, utilizado pouco antes para acabar com uma manifestação de professores e estudantes secundaristas do Colégio Pedro Gomes, no Bairro de Campinas, contra a repressão instalada no país. Como repórter de rádio que cobria o evento usando um gravador, já que na época as transmissões ao vivo só eram possíveis com linhas físicas fornecidas pela Embratel e solicitadas com antecedência, fui detido como dezenas de outras pessoas que assistiam à manifestação, “para prestar esclarecimentos”.

 

Estranhamente, porém, com a mesma rapidez com que fora detido, fomos, eu e vários outros, convidados a deixar a unidade militar. Mas os gemidos do professor Orieste nunca me saíram da cabeça.

 

Para alguém que acha muito pouco uma lembrança de uma pessoa sendo torturado pela polícia numa delegacia ou unidade militar qualquer, é preciso salientar a diferença do que ainda ocorre hoje nas abordagens policiais Brasil afora, com o que realmente ocorria nos chamados “anos de chumbo”.

 

Trabalhava na Rádio Difusora de Goiânia, no Departamento de Rádiojornalismo, onde, além de redator e apresentador de noticiários esporadicamente, também atuava como repórter fazendo a cobertura dos principais eventos políticos da capital.

 

Por longos anos desfilei por todos os locais onde o poder se instalava para acompanhar de perto a sequência de cicatrizes que a ditadura construiu na sociedade brasileira durante sua vigência. O golpe nos atingiu com força. Seja pela censura à imprensa e à liberdade de expressão, o fim das eleições diretas para presidente, governador e senador, o fechamento do Congresso Nacional, e as práticas de tortura de dissidentes e cassação de direitos civis. O regime repressor, que perseguia cidadãos que se posicionavam contra o governo, também foi marcado pela imposição à censura sobre a produção cultural e intelectual do país.

 

 

Desde os primeiros dias da implantação da ditadura, toda a estrutura de comunicação do país passou a ser alvo direto do Serviço Nacional de Censura e Diversões Pública do Brasil. Nos fora imposta a obrigatoriedade de usarmos um cartão de censura que mais parecia um cartão de ponto, tão exagerado em seu tamanho e do qual nenhum profissional de imprensa poderia se prescindir, sob o risco de ser preso.

 

Nas redações, a figura do censor também passou a ser comum e, embora muitos até desejassem criar alguns laços de amizade, era possível perceber que as missões de cada lado se antepunham como água e óleo. Mesmo porque, vez ou outra, o censor se investia do seu poder para questionar uma frase, um nome ou condenar uma edição inteira de um noticioso.

 

Foi por isso que, ao longo da ditadura, o jornal O Estado de São Paulo usou sonetos de Camões para substituir textos de matérias censuradas na última hora. Ao mesmo tempo, lideranças estudantis, sindicais, políticas ou de entidades civis desapareciam, após prisões não explicadas.

 

Segundo a ONU, mais de 8 mil indígenas e ao menos 434 suspeitos de serem dissidentes políticos foram mortos ou desapareceram forçadamente durante o regime, segundo dados da Comissão Nacional da Verdade. Estima-se ainda que dezenas de milhares de pessoas foram arbitrariamente detidas e torturadas. Porém, a quantidade de vítimas do regime por si só não deve se resumir somente aos números contabilizados, tendo em vista a dificuldade de validação da real quantidade de vítimas durante os 21 anos do regime, pois há até hoje uma considerável discrepância averiguada em relação a outros levantamentos realizados por comissões e instituições.

 

A ditadura teve o seu ápice com a implantação do Ato Institucional nº 5. Ele foi de longe o pior dos atos decretados pela ditadura militar, isto é, o mais rígido e autoritário deles. Outorgado em 13 de dezembro de 1968, abriu o período mais sombrio da ditadura, sendo o resultado final da estratégia militar de estender a ditadura no Brasil. O AI-5 consistia em 12 artigos e permitia aos militares intervir nos municípios e estados brasileiros e proibia-se que presos políticos tivessem direito a habeas corpus – a definição de crime político, lógico, era realizada pela própria ditadura. Além disso, ao presidente era permitido confiscar bens privados, demitir pessoas e decretar estado de sítio quando quisesse.

 

A ditadura ficou marcada como um período extremamente corrupto, uma vez que não havia liberdade para investigar os atos do governo. Durante a ditadura, o país se endividou, fazendo a dívida externa crescer mais de 30 vezes, veio a hiperinflação que chegou a 178%, logo a desigualdade social disparou e índices da economia, como a dívida externa do país, agravaram ainda mais a situação dos mais pobres do país.

 

Se relembrar o passado é sofrer duas vezes, relembrar a ditadura é, ao contrário, a receita acertada para se defender os ideais de vida e liberdade preconizados pela democracia, única forma capaz de levar um país e sua gente à construção verdadeira do bem comum, da paz e da justiça social.

 

Post escrito por Luiz Augusto da Paz, jornalista

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Este post foi escrito por: Britz Lopes

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2 comentários em "As lições de um pesadelo"

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