domingo, 21 de abril de 2024

Como uma segunda-sem-lei pode piorar muito

 

Britz Lopes – Toda segunda rola um estresse. Não sei bem ainda como tenho sobrevivido a elas. Nessa última, houve um pedreiro que não entregou a obra como prometeu, em rincão de poeira até os meus muitos fios de cabelos brancos – os pintados e os naturais. Antes das 8 da manhã, ele já havia deixado 10 mensagens no WhatsApp. Nem vou cobrar etiqueta de seu Nelson, que, para me matar, disse que eu me parecia com a mãe dele. Segurei a onda, fazendo a fina.

 

Fui para a academia recarregar a endorfina que me dá forças e me acalma – é remédio santo! Silenciei o telefone, fiz meu dever mais que bem feito de segunda; é expurgo. Comprei comida porque estava sozinha, mas o dito filé especificado na plaquinha do restaurante Rosas era de boi universitário. Joguei fora e fui tocar o barco. “Comer pra viver, não viver pra comer”, como diria Nazareth, a ex-funcionária de casa que conversava com o fundo rotativo e abraçava o carrinho de compras. Literalmente. Era um meme atrás do outro, sem internet.

 

Depois, segui para inspeção da tal obra do seu Nelson, em Senador Canedo. Definitivamente, não entendi que língua ele parla, na explicação do que havia sido feito. Melhor continuar as conversas pelo WhatsApp – tenho tempo para decifrar os códigos linguísticos, embora as longas pausas dos áudios me irritam profundamente. Em toda cidade que vou, seja Florença ou Guapó, procuro trazer algo diferente. Em Senador Canedo tem nada, desista! E o Waze quase não consegue te colocar lá e, muito mais difícil, te tirar de lá.

 

Já torcendo para o dia acabar, passei no Atacadão ao lado do Sam´s Club. Odiei ter de comprar a melancia inteira, porque eles não a partem. Minha geladeira é mínima, tenho problemas de armazenamento refrigerado. Mas, preço bom, trouxe! E me deliciei com a primeira fatia – está maravilhosa como a sandia de Palma de Mallorca.

 

Avançou o dia, estava na preparação para me sentar e trabalhar, lá pelas 18 horas, quando vejo uma barata na cortina do quarto. Seu Nelson não parava de chamar no WhatsApp, cobrando o serviço ainda não entregue. Imaginei: agora é infarto mesmo, já que estou sozinha com a minha maior inimiga! Entrei no Youtube, fiz as tais respirações como manda o mantra, para me acalmar, peguei dois frascos de veneno de receitas diversas e fui encarar o meu temido problema dessa segunda-sem-lei. Seu Nelson já havia depositado 18, 20 mensagens.

 

Jatos e jatos de venenos diferentes. Ela prostrou-se no chão depois de meio frasco de cada, numa combinação que, presumia-se, fatal. Deixei-a descansando para alcançar o juízo final – duas horas. Percebi que se tratava apenas de um coma induzido. As perninhas se moviam jogando meu mantra no lixo. E seu Nelson ligando…

 

No meio tempo, ainda com o coração na boca de medo do bicho, falei com Marcio, que estava em São Paulo. A história era emitir um bilhete de volta da Europa para mim que ele havia visto – não, ainda não tenho a ida, só aproveitei o preço. Depois de muitas tentativas, deu certo. Foi a parte boa do dia, se bem que voltar quero nunca. Daí, fui recolher a paciente em coma, acho que já permanente, mas tipo morta-viva, porque elas não se entregam jamais. De olho quase fechado, com a pá e a vassoura, a operação funcionou. Ufa!

 

Achando que penitência pouca é bobagem, abri um Sin Palabras Malbec – desarrollado em Mendonza, Argentina, producido Y embotellado em Chile. Era só para relaxar, mas não podia dar certo. E não deu. Seu Nelson está chamando de novo. Não atenderei. Vou dormir para virar a folhinha. Dia 17 de julho de 2023, às 23h45. Obrigada Deus, chegou a terça-feira!

 

 

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Este post foi escrito por: Britz Lopes

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