terça-feira, 2 de junho de 2026

Concerto de Aranjuez para celebrar Madrid no último dia por aqui

 

Marcio Fernandes – A florista, o carteiro, o livreiro, o vigarista, a cigana e o alcoólatra começaram a terça-feira, 2 de junho, sem quebrar a rotina.

 

Eles estavam pontualmente no trabalho às 10 da manhã no delicioso bairro Lavapiés, em Madrid, horário de abertura do comércio na capital da Espanha.

 

A primeira figura preparava os buquês da banca aromática e colorida. O segundo camarada procurava um endereço qualquer.

 

O carteiro estava atrás de alguém para entregar uma carta de amor postada em 1939, quando terminou a guerra civil espanhola. Ele me disse que a correspondência foi encontrada em escavação arqueológica.

 

 

O terceiro se detinha em olhar apaixonado para a prateleira de obras raras, como faz o Marcelinho Franco. O quarto já tinha o planejamento do próximo golpe. Certamente iria encontrar um incauto na Plaza Mayor.

 

A cigana trazia ramos de alecrim para vender as trapaças da sorte aos turistas desavisados e faturar alguns trocados.

 

Por fim, o alcoólatra abriu o bar com uma caña (cerveja). Ele precisava molhar as vias respiratórias para que elas recebessem com gratidão o primeiro cigarro do dia.

 

Só quem não fazia nada eram os ganchos para pendurar os casacos no balcão da linda Taverna Tirso de Molina, com decoração da belle époque. Nesta primavera de muito calor, os ganchos estão sem função.

 

 

O garçom, ao contrário – um cara muito gente fina nascido no Equador -, não parava de ir e vir para atender a clientela na qual eu me incluía à espera do café da manhã.

 

A minha paixão por Madrid é algo que escapa do lugar comum, mesmo que os madrilenhos, de um modo geral, sejam mais grosseiros do que gentis.

 

Já vai fazer 30 anos desde que estive capital na Espanha pela primeira vez. Era um outono gelado e aquela atmosfera das pessoas empacotadas selou o amor à primeira vista.

 

Na ocasião, eu não sabia nada da capital espanhola, exceto que havia a pinacoteca do Museu del Prado e Guernica, o quadro mais famoso de Picasso.

 

Na minha opinião, não é lá essas coisas se comparado com a fase inicial do artista. Até hoje, depois de 87 anos do fim da guerra civil, ainda remanesce a versão de que Francisco Franco era o bandido e os anarquistas a irmã Paula Futebol Clube da história.

 

 

A recomendação para quem quer estudar o assunto é a obra do historiador britânico Antony Beevor. O autor relata com muita base documental as maldades dos dois lados da guerra civil.

 

Na época do conflito fraticida, nacionalistas e republicanos faziam propaganda ideológica por meio de cartazes de rua do tipo lambe-lambe. Hoje, são peças caríssimas encontradas em livrarias tradicionais e antiquários.

 

No mercado de arte de Madrid, os cartazes dos opositores a Franco valem pelo menos cinco vezes a cotação dos que foram produzidos em apoio publicitário a ele. O politicamente correto governa até o preço da arte na Era Woke.

 

Ontem à noite, no bairro Lavapiés, estava hospedado em albergue de alto nível, em um quarto só meu e com varanda para a rua. Eu observava os transeuntes quando percebi uma gritaria medonha.

 

Duas turistas desciam a Calle (rua, em espanhol) Conde de Romanones quando um mau elemento, com toda aparência de marroquino, roubou a bolsa de uma delas.

 

O que ele não percebeu foi que, logo atrás das moças, vinha um funcionário de empresa de segurança privada, provavelmente voltando do trabalho e revoltado com a esculhambação da Espanha.

 

 

O gaiato foi imobilizado, beijou o asfalto e recebeu o carinho do cassetete no lombo. Felizmente, os pertences da turista foram restituídos e a coisa morreu por ali.

 

Não só a Espanha, mas toda Europa está em fase de dominação por estrangeiros, especialmente muçulmanos. O que mais se vê é esse pessoal o dia inteiro nas ruas sem nenhum expediente definido.

 

Já as mulheres muçulmanas perambulam com o corpo coberto da cabeça aos pés. É muito interessante as feministas gritarem o “free palestine”, mas esconderem o quanto as muçulmanas são oprimidas pela religião e pelos próprios maridos.

 

O camarada pode ter uma coleção de concubinas, já a mulher tem de ostentar a castidade com todo o corpo coberto. Alguém vai dizer que se trata de uma questão cultural.

 

Claro que é! Só tem um detalhe: vá praticar os seus hábitos culturais no país de origem. No mundo ocidental deveriam prevalecer as leis locais de liberdade conquistadas na Revolução Francesa.

 

 

Pavorosamente, a Europa está caminhando com os pés trocados ao admitir o imperialismo cultural islâmico. Eles estão se impondo pelos movimentos migratórios em massa e o permanente risco do terrorismo.

 

A ideologia do multiculturalismo incutiu no europeu um sentimento de culpa injustificável das iniciativas coloniais de séculos atrás. No Brasil, o presidente Lula não perde a oportunidade de dizer que temos dívida histórica com a África devido a escravidão.

 

Definitivamente, essa conta não existe. O que deveria ser saldado é o enorme passivo social da miséria material e intelectual a que é submetido o povo brasileiro, sobretudo negros e pardos. Transferir a responsabilidade para a história é uma manobra própria do populismo paranoico.

 

 

É preciso dar um basta às verdades iludidas. Aqui mesmo, em Madrid, as imagens de Frida Khalo estão expostas em lojas e ambientes ao ar livre como se ela fosse uma artista monumental, quando se trata de um ícone da mediocridade.

 

Nos Anos 1980, o escritor, poeta e jurista brasileiro, Nelson Figueiredo, tratava das patologias intelectuais do Brasil em brilhantes artigos publicados no jornal O Estado de S. Paulo. Nada mudou.

 

Nelson foi meu professor na Faculdade de Direito da UFG e somos amigos desde 1981. Para ele vou dedicar o Ministério Poético da Resistência Amada. Ele já pode começar a trabalhar.

 

 

No último bate pernas por Madrid encontrei certo Manuel Fernandez, alfaiate dos velhos tempos. Trata-se de grande homem que corta um dobrado para fazer a elegância de trajes exclusivos. Há sempre um Fernandes em meu caminho.

 

O que marcou a despedida da cidade, que se notabiliza por oferecer a melhor trufa de chocolate do Velho Continente, foram músicos eruditos a tocar o trecho mais emocionante do Concerto de Aranjuez.

 

 

Vou embora para o Brasil com a melodia executada em violoncelo e dois violinos guardada no coração. Antes que me esqueça, fiz régio jantar em restaurante muito qualificado, finalizado com licor de canela e pêssego.

 

A florista, o carteiro, o livreiro, o vigarista, a cigana e o alcoólatra amanhã não sentirão minha falta.  Eles terão um expediente ordinário a cumprir nas ruas deliciosas de Madrid.

 

Marcio Fernandes, jornalista, é autor do texto e das fotografias

Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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