terça-feira, 23 de abril de 2024

Da fraude despudorada à ausência de malícia

 

 Eduardo Luiz Correia — “Olá, o meu nome é Anna e sou assistente de RH na Mercado. Posso ter alguns minutos do vosso tempo?”. Assim mesmo, educadamente com uso de pronome possessivo e tudo mais, vem a mensagem pelo whatzapp. E na sequência, “Eu tenho um trabalho para você, se você estiver interessado em trabalhar conosco, diga-me que o guiarei em meu trabalho”. Entre desconfiança e curiosidade, segue o diálogo até chegar com o que interessa: “Seu trabalho é simples, você será solicitado a escrever avaliações e dar cinco estrelas aos nossos estabelecimentos parceiros, como hotéis, resorts e restaurantes, para ajudá-los a dar visibilidade online e você poderá ganhar mais dinheiro (até R$ 1.472,00)”.

 

 

Não sei a razão de o valor ser exatamente até esses quase R$ 1,5 mil; também não sei por que razão a “Anna” não quis dialogar por áudio. “Só fale comigo por mensagens, por favor”. Sei apenas que não achei nenhuma referência da tal “Mercado” – nome mais insosso e óbvio possível. Dito isso, desconfiado de algum golpe ou coisa do tipo, bloqueio do contato e vida que segue.

 

 

No entanto, a “oferta” de trabalho fácil suscita reflexões várias que partem desde questões éticas, passando por aspectos sobre algoritmos e que tais das plataformas digitais, chegando às fake news e a credibilidade de um sistema de avaliações de serviços sujeito a qualquer tipo de manipulação.

 

 

Pouco se tem a dizer sobre ética num “trabalho” como este. Simplesmente porque ela não existe em tal ambiente. Aprovar ou reprovar um serviço sem sequer utilizá-lo é algo comparável a comentar um livro ou filme que não lido ou assistido, com o agravante de dizer que a leitura teria sido feita ou a película devidamente apreciada.

 

 

Até aí, pouca ou nenhuma novidade no front digital do neocapitalismo pós-moderno, nada sólido e que facilmente se desmancha no ar, parafraseando um famoso livro, intitulado “Tudo o que é sólido desmancha-se no ar” do falecido sociólogo marxista estadunidense Marshall Berman, que fez bastante sucesso nos meios acadêmicos em meados dos anos 80 do século passado.

 

 

E hoje, na era em que tudo avalia-se e todos são avaliados, as notas de aceitação ou críticas têm a mesma credibilidade daquele religioso diletante que promete curar doenças graves com feijões mágicos, esbirros de águas milagrosas ou generosos depósitos na conta bancária da igreja.

 

 

Pode-se, portanto, avaliar, creditar ou desqualificar qualquer coisa sem saber se houve o não a utilização do produto, do serviço ou que quer que seja. Pode-se acreditar ou não em avaliações tendo por único parâmetro a palavra de um perfil qualquer, verdadeiro ou falso.  Nada muito distante das fake news a construir suas pós-verdades.

 

 

A avaliação de estabelecimentos parceiros para terceiros, que nada têm de efetivo com aquele produto/serviço, submete-se à lógica econômica pela qual tudo pode ser devidamente “comprado” desde que se conheçam as sendas adequadas para chegar-se ao destino desejado. Ou seja, conhecendo-se o processo de avaliação, suas fragilidades e possibilidades, nada que alguns dinheiros bem direcionados não possam “construir” no universo digital.

 

 

Desde seus primórdios, fraudes ou golpes baixos não são novidade no acirrado reino da competição capitalista. O que impressiona atualmente é a facilidade com que podem ser praticados, inclusive com requintes de sofisticação. Há, no campo virtual, até mesmo uma certa abertura à crítica – a qual, na verdade, é absolutamente hipócrita e demagógica, pois facilmente manipulável.

 

 

Chega-se a sentir saudades dos tempos em que os esforços para construir ou descontruir marcas e produtos eram mais ingênuos ou românticos. E tinham até mesmo uma certa graça. Ficou famosa a tática de uma montadora de carros no Grande ABC paulista que, para mostrar que um veículo produzido pela concorrência era “ruim”, colocava meia dúzia de carros da marca concorrente supostamente quebrados, estacionados no meio fio da via Anchieta.

 

 

Escolhia-se estrategicamente os dias dos enormes congestionamentos nas subidas da Serra do Mar no retorno de finais de semana ensolarados ou feriados prolongados nas praias da Baixada Santista. Bastava deixar o carro lá parado no acostamento, com o capô levantado e um “proprietário” do automóvel sentado no meio fio, com cara desolada.

 

 

Ou de táticas até mais singelas, como as adotadas pelos pioneiros do marketing político eleitoral “de guerrilha”, que contratavam algumas pessoas para, em tom de bate-papo, falar mal dos adversários nos ônibus, trens e outros locais públicos. Não deixavam de ser fraudes, é verdade. Mas, ao menos, tinha-se uma certa graça e davam-se ao trabalho em acontecer em locais públicos, em meio a pessoas ou situações reais.

 

 

Bem diferente dos dias de hoje, quando à distância de apenas um clique e algumas batucadas no teclado, pode-se colocar um produto ou um serviço no céu ou no inferno, conforme os propósitos de cada um. Estivéssemos nos tempos do trecento renascentista, o florentino Dante Alighieri reservaria a estes o oitavo dos nove círculos do Inferno (Malebolge), para onde iam os mais diversos tipos de fraudadores e hipócritas.

 

Texto de Eduardo Luiz Correia, jornalista e historiador

Ilustração: O Inferno de Dante

@edulcorreia

 

Avatar

Este post foi escrito por: Britz Lopes

As opiniões emitidas nos textos dos colaboradores não refletem necessariamente, a opinião da revista eletrônica.

Deixe uma resposta