quinta-feira, 18 de julho de 2024

De como eu fui amarra-cachorro do Padre Schimitz

 

Marcio Fernandes – Você ficar à toa, sem fazer nada, é espetáculo pra memória. Aqui no Beco do Sapo, o único serviço que eu tinha era pajear o sol que inexoravelmente se punha a Oeste. A lua sobe no céu se encaminhando para ser superlua amanhã, dia em que ocorrerá o perigeu, ponto mais próximo que sua órbita atinge em relação à terra. Aqui se chama Beco do Sapo, pois está a 200 metros do Rio das Almas, em Pirenópolis. Todo dia, na boca da noite, tem coaxar de sapos e rãs!

 

Não é que veio à memória julho de 1981? Há 42 anos eu estava em um lugar chamado Palestina, em interior famélico, rude e atrasado de Goiás. Dava uma tristeza observar a vida do caboclo naquele sertão em casas de pau a pique, cheio de solidão e lombriga solitária. Eu era ligado à obra do Darcy Ribeiro e super brizolista. Eles tinham sido anistiados, o Brasil estava se divertindo muito com a liberdade e meu cabelo era grande!

 

Foi minha primeira experiência em atividade de campo do Instituto Goiano de Pré-História e Arqueologia – IGPA da PUC. Eu tinha bolsa de trabalho do CNPq como auxiliar de pesquisa. Em outras palavras, o grau mais baixo de amarra-cachorro em uma instituição científica!

 

Hoje eu me lembro da história todo prosa por ter trabalhado com o padre Pedro Inácio Schimitz, 93 anos, de longe um dos grandes arqueólogos da antropologia universal. Na época, Padre Schimitz já tinha livre-docência e seguia procedimento de jesuíta muito rigoroso.

 

Com ele era sistema alemão de disciplina e não havia mais ou menos de brasileiro! Caraca, eu tinha 18 anos! Achava que era aplicado; gostava do que estava fazendo.  Na realidade, foram duas semanas de muito aprendizado e sofrimento na mão do padre.

 

Até chegar ao sítio arqueológico eu era amarra-cachorro direto do professor Altair Sales Barbosa. Só que o Padre Schimitz, pela Universidade Vale dos Sinos, liderava as pesquisas arqueológicas de habitantes originais do Cerrado em sítio basicamente cerâmico, provavelmente caiapó, nação extinta em Goiás. Então, o Altair era o segundo na hierarquia da expedição arqueológica.

 

A descoberta foi feita depois que um sitiante arou o terreno para plantar arroz de sequeiro. O lugar era lindo, com uns paredões de rocha bastante imponentes. Parte do sítio arqueológico estava muito revirado. Isto significava que era preciso fazer limpeza grande na região seca de Cerrado tipo saroba e este era meu serviço.

 

Nós demoramos mais de 10 horas para andar 300 quilômetros em estrada precária. Na travessia das pontes de madeira, bem temerárias, só ficavam os motoristas dos dois Toyotas Bandeirante. Logo na chegada, depois de montar acampamento, Padre Schimitz rezou um terço expressivo para todo mundo e ali eu senti que a minha vida iria piorar muito.

 

A limpeza do sítio arqueológico era um serviço que não tinha fim. Eu limpava o ambiente para a equipe de quatro arqueólogos iniciar a escavação. Limpava de novo para que fossem recolhidos os materiais cerâmico e lítico descobertos. Depois ainda tinha de peneirar o material. Tomar banho no rio de água gelada e dormir em barraca. Frio de noite! Serviço pesado!

 

 

Eu só na dedicação expressiva, sob sol muito quente, e nada do trabalho de gari de sítio arqueológico chegar próximo do mínimo exigido por Padre Schimitz. Uma hora, o jesuíta de origem alemã dizia que meu serviço estava lento. Se eu acelerasse levantava poeira demais. Tomava dura o tempo todo! Eu era protegido do Altair, tinha passado em primeiro lugar no concurso do CNPq, mas ele podia fazer nada. O manda-chuva era o Padre Schimitz.

 

Por outro lado, eu e o padre nos entendemos no critério alimentação. No acampamento, a comida era farturenta, tinha Ovomaltine no café da manhã, estrutura grande de embutido que ele trouxe do Rio Grande do Sul, muita bolacha com recheio de chocolate e chá. O padre bebia chá o tempo todo e entrei na onda mesmo, tentando agradar o religioso católico, mas nada de obter a verdadeira bênção. Foi só carraspana.

 

Não sei exatamente o que houve, o fato é que o próprio Padre Schimitz me recomendou para a arqueóloga alemã Irmhild Wüst, de quem era amigo. A Irm, como a gente a chamava, precisava de um auxiliar de pesquisa para desenhar e catalogar os materiais dos índios Bororo por ela escavados no Mato Grosso. Ela tinha alguma coisa de afetuosa, me fez voltar estudar inglês, ler muito de antropologia e ter disciplina intelectual, coisa primordial para a arqueóloga.

 

Acabou que ela gostou mesmo de mim, me apresentou ao Jesco von Putkamer e trabalhamos por um ano e meio. Quando ela terminou a tese de mestrado, não me lembro bem, precisava de alguém para fazer a revisão de português, depois que teve um desacordo com o “s” dobrado ao escrever ecossistema. Em seguida, a arqueóloga me contratou para fazer o serviço todo de revisão e isso elevou meu status na Faculdade História. A grande verdade é que minha vida melhorou grande depois que fui super amarra-cachorro do Padre Schimitz!

 

Marcio Fernandes é jornalista

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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1 comentários em "De como eu fui amarra-cachorro do Padre Schimitz"

  • Avatar Noemy Faria disse:

    Marcinho, vc deu duro mesmo, hem?
    Muito bom relembrar e para nós, gostoso de ler. Kkkkk
    Acho que vc se enganou na quilometragem ou nas horas andadas. Mas valeu igual❤️

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