terça-feira, 12 de maio de 2026

Definitivamente, não há limite para o ciber-maloquerismo

 

Marcio Fernandes – Por que o Brasil não dá certo? A pergunta que não quer se calar tem várias respostas. Desde os anos 1960, a esquerda brasileira se vale da teoria da dependência de Fernando Henrique Cardoso para explicar a situação periférica dos países do terceiro mundo em relação às nações industrializadas. É o velho entendimento de culpar o imperialismo americano pelos problemas que criamos.

 

Para os racistas e eugenistas nacionais, a causa de tudo dar errado reside na miscigenação. Há, inclusive, alguns sulistas loucos para se separarem do bananal desalmado. Não levanto obstáculo à secessão e ainda pago o caminhão da mudança desse pessoal para a Bolívia.

 

A direita tem um receituário misto ao responsabilizar Portugal pelo “roubo” do nosso ouro e os 22 anos do Partido dos Trabalhadores no poder. Por outro lado, os liberais depositam toda culpa em Brasília e seus históricos escândalos escandalosos.

 

 

Eu tenho um diagnóstico completamente diferente do pessoal mencionado. Para mim, a razão primordial do fracasso civilizatório do Brasil é a água. Aliás, a falta do produto. O país é incapaz de produzir uma água mineral minimamente decente.

 

Para piorar, organizações criminosas falsificam o produto no Rio de Janeiro e no nordeste impunemente. Observe que nunca vai dar certo um país no qual você deve filtrar a água da torneira por conter coliforme fecal ou excesso de produtos químicos.

 

Ué, eu passei três dias em Bucareste, capital da Romênia, e o que realmente pode ser considerado positivo no país do leste europeu é a qualidade da água mineral. Até então, eu considerava a Vichy Catalan, da Espanha, a melhor do mundo.

 

 

Tudo mudou depois que eu bebia a Borsec, uma água mineral natural carbogasosa. Eu moraria na Romênia só por causa desta sensacional água com 220 anos de tradição. Ela é tão boa que sobreviveu ao comunismo e à ditadura de Nicolae Ceaușescu (1974-1989), um sanguinário com orelhas de rato saruê.

 

Na Romênia, assim na Rússia, um sorriso vale uma nota de 500 euros. Por lá, bom dia, boa tarde, boa noite são coisas raras de ouvir. Nem mesmo em uma enoteca o proprietário vai demonstrar alguma emoção.

 

Antes que alguém venha com a conversa de xenofobia, eu asseguro que se trata de um traço cultural de caráter coletivo muito próprio de países eslavos e especialmente que fizeram parte do Pacto de Varsóvia. Eu estive na Ucrânia em 2002, a convite da embaixada brasileira, e a situação era rigorosamente a mesma. Simplesmente ninguém sorri e estamos conversados.

 

 

Bucareste já foi considerada uma Paris do leste europeu muito em decorrência de ostentar alguns edifícios copiados do modelo arquitetônico hausmanniamo. A cidade se orgulha também de ter sido a primeira capital europeia a utilizar derivado do petróleo na iluminação pública em substituição do óleo de baleia.

 

Outra coisa que impressiona, para mim negativamente, é o parlamento da Romênia. Situado a pouco mais de um quilômetro do centro histórico, possui uma área construída de 350 mil metros quadrados.

 

Um exagero arquitetônico erguido no estilo do realismo socialista. A obra de um monumentalismo colossal com linhas retas começou em 1984 e provocou o deslocamento de 40 mil pessoas que residiam na área. É tão grande que afunda 6 milímetros por ano em razão de erro de cálculo da estrutura.

 

 

Bucareste tem um sistema de transporte público um pouco envelhecido, mas fantástico. Há metrô e linhas de alimentação da rede feitas por ônibus convencional com ar-condicionado, além de trolleybus e bondes de três eixos desenvolvidos pela engenharia mecânica comunista nos anos 1970. Sinal de que o pessoal trabalhava bem neste setor.

 

Mesmo com tanta opção de transporte público, a cidade, de 1,9 milhão de habitantes, possui um trânsito de automóveis infernal, caótico e pleno de engarrafamentos. Parece que eles importaram o modelo brasileiro bagunçado de tráfego.

 

Os carros mandam nas ruas e o pedestre está longe se ser prioridade. Atravessar as faixas de segurança é um perigo e eles estacionam nas calçadas, andam na contramão e fazem conversões proibidas numa boa. Não vi um guarda de trânsito para pôr ordem na casa.

 

O centro histórico é bacana e tem algumas centenas de bares, restaurantes, edificações públicas e igrejas ortodoxas. Na região há vários estabelecimentos chamados “night club”. Traduzidos para o português significam casas de prostituição. Há muitos antiquários e livrarias nesta área exclusiva para pedestre. Vale a visita de um dia, além de ser o local ideal para se hospedar.

 

Fora do centro há vários bairros que lembram muito as asas do plano piloto de Brasília. São edifícios padrão em altura e desenho arquitetônico com alguma área verde a separá-los; não há esquina e tudo é muito impessoal. É a própria da arquitetura comunista de Oscar Niemeyer.

 

 

Apesar de ter sido a maior atleta da ginástica olímpica de todos os tempos, vi apenas uma clínica médica nominada em homenagem à Nádia Comaneci. No domingo, 10 de maio, ao percorrer o centro histórico me deparei com três casamentos.

 

Outra coisa interessante na cidade é o hábito de os habitantes locais de frequentarem floriculturas. Só é preciso ter cuidado com as ciganas que oferecem rosas nas ruas e insistem em ler a sua mão para não cair em golpes manjados. A Romênia tem a maior população cigana da Europa e até um rei, embora tal monarquia não seja reconhecida nem pelo governo local nem pelos outros europeus de sangue azul.

 

Resolvi estender meu principado imaginário para o leste europeu. A decisão me obrigou a criar forças armadas em contrariedade às diretrizes iniciais estabelecidas. Para chefiar exército, marinha e aeronáutica está nomeado o generalíssimo Demóstenes Torres. O cara tem plenos poderes para dissolver o parlamento, destituir o monarca e chegar o cassetete em baderneiros da cultura woke.

 

Definitivamente, o mundo está dominado pelo ciber-maloquerismo. Não é só no Brasil que o pessoal caminha, dirige automóvel e se alimenta sem tirar os olhos do WhatsApp. É muita falta de educação.

 

Eu estava em restaurante coreano e uma oriental, precisando dar uma lavada boa no cabelo, fazia um serviço de almoçar chupando a alimentação em tom alto e digitando no celular. Esse pessoal devia ligar o desconfiômetro. Dizem que o planeta logo será regido pela inteligência artificial. Acho que o império da imbecilidade é indestrutível.

 

Marcio Fernandes, jornalista, é autor do texto e das fotografias

Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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3 comentários em "Definitivamente, não há limite para o ciber-maloquerismo"

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