quinta-feira, 25 de abril de 2024

Depois de vencer as Dolomitas nada melhor do que o rock puro do Aerosmith

 

Marcio Fernandes  — Alta Via 1 – dia 7.  Eu comecei a Alta Via 1 cheio de alguns temores. Medo das passagens estreitas por montanhas escarpadas. Medo de altura, pois sequer passo pela varanda do meu apartamento. Medo da hipotermia. Medo da cachorrada. Só não tive medo de começar e terminar o que havia sido decidido. Comigo sempre foi assim.

 

Pela primeira vez, enfrentei um desafio outdoor sem qualquer planejamento. Tinha tudo pra dar certo e a coisa aconteceu, já que Deus estava lá me pajeando o tempo todo e os amigos na torcida me dando muito afeto e força. Nenhuma disposição ao contrário e tenho muito a agradecer ao Maurizio Sponga. O que acontece nas Dolomitas fica nas Dolomitas.

 

O último e sétimo dia de montanha foi bem puxado, ainda que desde o Rifugio Tissi até Agordo tenha sido exclusivamente de 1,7 mil metros de desnível negativo em 15,9 quilômetros percorridos. A conta é quase toda debitada nos joelhos e a coisa demanda muita técnica para não ter encontro com lesões e fraturas.

 

 

Com certeza, por engano, alguém ficou de posse do meu único cajado, já que o outro quebrou três dias atrás, e foi bem complicado descer sem apoio, com mochila pesando uns nove quilos e a quilometragem acumulada cobrando um preço grande.

 

Logo após uns três quilômetros de descida, ainda na quota dos 2 mil metros de altitude, me encontrei com rebanho expressivo de ovelhas e cabras montanhesas. Parei para dar passagem às meninas, uma vez que é regra do hiking de montanha dar prioridade a quem sobe. O pastor era um cara tipicamente africano, que tinha certamente algo mais a fazer do que retribuir o buon giorno. Deve ter se educado na escola germânica de boas maneiras das Dolomitas.

 

 

Me lembrei do Brasil, que entra governo sai governo, tem sempre um bode na sala. Na Itália, desde o fim da Segunda Grande Guerra, o prazo de validade do primeiro-ministro dificilmente ultrapassa 12 meses, no entanto as instituições funcionam. É uma democracia espaguete na qual nunca faltam pasta nem molho pomodoro.

 

Em seguida, no fim do paredão Norte do Monte Cevitta, a paisagem se abriu em pradaria cuja área calculei em oito hectares. O piso era de grama amaciada pelo orvalho em ambiente cuja calma só era perturbada pelo falatório dos montanhistas italianos, com aquele tom de voz de barítono desajustado.

 

 

Fiquei a imaginar que a pradaria poderia ser um sítio ideal para algum sujeito tomar providência na vida, descolar uma tirolesa de bochechas rosadas, tranças loiras, peitos generosos, boa de cria, sem preguiça para o serviço no campo e pronta para povoar as Dolomitas Orientais.

 

Na altura dos nove quilômetros percorridos, logo após deixar o Rifugio Vazzoler, estava tomando um tipo de banho de bica que descia da montanha quando, em vale profundo, fui surpreendido por um helicóptero, que a princípio imaginei estar a passeio com turistas. Na verdade se tratava de operação de resgate de um montanhista que teve ataque cardíaco.

 

Em minha corriola tem muito camarada fodaço, a exemplo do Generalíssimo, mas acho que dos caras só mesmo o Daniel Massula teria tutano para se pendurar em cabo nas alturas, com helicóptero estabilizado, fazer o resgate em solo e voltar para a aeronave com o paciente na maca. Amarelei pro trabalho profissional da galera.

 

É muito interessante a história geológica das Dolomitas. Nem sempre este ambiente foi formado de montanhas. Aqui já foi solo marinho e há evidência paleontológica da presença de dinossauros, no triássico, 250 milhões de anos atrás, quando a terra era formada por um supercontinente chamado Pangea. Alguns milhões de anos depois, a Pangea se fragmentou, deu origem à conformação da massa continental atual, e da colisão das placas tectônicas surgiram as grandes cadeias montanhosas, a exemplo dos Alpes. O Brasil, para variar, ficou de fora e por isso não tem montanhas, só serras de fraca altitude. Paciência. O Lula vai resolver o problema no Acordo de Livre Comércio com a União Europeia.

 

 

Durante a Primeira Guerra Mundial, no período de 1915 a 1918, as Dolomitas foram palco de intensas batalhas entre o Reino da Itália e Império Austro-Húngaro pela posse do Tirol Sul. Parte do cabeamento em aço utilizado na movimentação de tropas ainda hoje dá sustentação aos montanhistas que fazem os trechos da Via Ferrata. Eu mesmo acampei em local com crateras provocadas pelos bombardeios. Mesmo que a população italiana do Tirol Sul quisesse ser austríaca, no final a Itália venceu esta frente da guerra e acho que o resultado não poderia ter sido melhor.

 

Depois de chegar ao ponto de ônibus em Agordo, tratei de descolar um lugar pra ficar em Belluno. Já dentro do coletivo, como se diz em Goiânia, pela primeira vez em sete dias pude ouvir música no fone de ouvido. Bem alta. A primeira canção que rolou no Spotfy foi Pequeno Perfil de Um Cidadão Comum. Depois tomei rédea da situação. Parti para The Who, Seu Jorge, The Police e passada por Marisa Monte.

 

 

Vencer as Dolomitas só delimita o que já havia resolvido da vida de aposentado. Não tenho patrão, ninguém regula meu tempo, ninguém me dá ordem. Se alguém não me quer, tem quem quer. Não aceito reclamação e estou indisponível pra gente pitizenta. Vejo vocês daqui uns dias na África e mando pra galera Walk This Way, do Aerosmith, para matar a saudade do rock puro sangue.

 

Texto e fotografias Marcio Fernandes.

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

As opiniões emitidas nos textos dos colaboradores não refletem necessariamente, a opinião da revista eletrônica.

10 comentários em "Depois de vencer as Dolomitas nada melhor do que o rock puro do Aerosmith"

  • Avatar Americo disse:

    Sobre esse resgate, Márcio. No Colorado estava eu a descer uma maravilhosa montanha no ski, quando de repente aparece aquela combinação de imperícia com deficiência. Meu joelho torceu e fiquei estatelado no meio da pista. Fui resgatado por uma equipe. Me amarraram numa padiola-esqui e desci montanha abaixo. Confesso que esquiar deitado não é uma experiência fascinante. Mas faz parte.

    Parabéns! Obrigado pela experiência compartilhada.

  • Anna Paula Anna Paula disse:

    👏👏👏👏👏😜👌adorei sua viagem , já fiz as dolomite, e cheguei s conclusão que meu negócio é praia 😘😘

  • Avatar Maria Leda17063@gmail.com disse:

    Essa experiência mistura cm liberdade e tudo fascinante! Meus parabéns Dr Márcio Fernandes seus textos são experiência eterna 🤗🤗🤗

  • Avatar Noemy Faria disse:

    Marcinho, que bela viagem e experiência. Vc está certinho, se não gostar, tem quem gosta. 👏👏👏
    Parabéns pelos textos limpos e bem escritos. Te amo ❤️❤️❤️❤️

  • Avatar Clara Accioly disse:

    Parabéns 🍾 fantástico e impressionante Que Deus o abençoe sempre

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