segunda-feira, 17 de junho de 2024

Ela tira dor com a mão

 

De acordo com a mais recente atualização da definição de dor, realizada por especialistas da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins e Associação Internacional para o Estudo da Dor, ela não é apenas uma sensação ou sintoma. É uma condição muito mais complexa que o profissional de saúde deve reconhecer adequadamente para orientar a pesquisa científica básica, o atendimento ao paciente e as políticas públicas. Mas, bem antes dessa atualização, realizada em setembro de 2020 e publicada na revista Pain, a fisioterapeuta Juliana Blanco já defendia a inclusão do tema no protocolo da saúde pública. Ela, que tem formação em RPG – Reeducação Postural Global –; posturologia, que é a análise de todas as causas e consequências dos desvios posturais; podoposturologia, análise e tratamento dos desvios de pisada; no método self-healing, a auto-cura e várias técnicas de terapias manuais como shiatsu, liberação miofascial e de cadeias musculares, além de ter estudado bioenergética, está à frente da clínica Pé Direito, onde confecciona as palmilhas posturais sob medida para alinhar e equilibrar o corpo e desenvolve suas técnicas com as quais é capaz de “tirar a dor com a mão”, literalmente.

 

 

 

BBnewsEntrevista – Juliana, qual o pior tipo de dor?

Juliana BlancoEu acho que as piores dores que são aquelas que pinçam a enervação. O ciático, por exemplo. É uma dor constante e latejante. Mas todas as dores são ruins, na verdade. A pior dor é a que a gente sente. Uns acham que é de joelho, de dente….

 

 

BBnewsEntrevista – Quais dores você é apta para tratar?

Juliana BlancoEu trato muito das patologias do pé. São as fascites plantares, Neuroma de Morton, esporões de calcâneo, problemas no joelho e na coluna, principalmente a lombar.

 

 

BBnewsEntrevista – No geral somos hoje mais doloridos do que antigamente?

Juliana BlancoEu acho que bem mais, sem dúvidas. Considerando tudo o que eu já estudei no que diz respeito à somatização das dores no nosso corpo, posso falar que o estresse que a gente vive hoje adoece mais as pessoas. A pandemia adoeceu muita gente, pois afetou também a mente. Essa é a pior dor, pois há uma ligação da mente com a dor do corpo e da alma.

 

 

BBnewsEntrevista – Como detectar a origem da dor para tratá-la devidamente?

Juliana Blanco Eu sigo todo um protocolo dentro das cadeias musculares. Analiso as articulações para ver se elas estão alinhadas: pé, tornozelo, joelho, quadril, coluna. Eu faço muita palpação na musculatura para encontrar nódulos, tensões e rigidez e todos os gatilhos que podem provocar a dor e assim consigo chegar à origem da dor. Eu olho tudo, até a mordida do paciente.

 

 

BBnewsEntrevista – Quanto é do indivíduo a culpa por determinada dor?

Juliana Blanco – Muito. O estilo de vida, se a pessoa é sedentária. Isso conta muito. Meu papel é orientar o paciente, pois a cura depende muito dele, de uma mudança de maus hábitos que prejudicam o bem-estar. A postura também influencia muito. Aliás, essa é a minha formação. É a alteração de postura que vai desencadear as alterações no alinhamento das articulações e das cadeias musculares.

 

 

BBnewsEntrevista – Quais tipos de posturas devem ser observados?

Juliana Blanco Todos: o andar, dirigir, trabalhar… É importante ressaltar que uma boa postura exige um bom tônus muscular geral. Então, a partir do momento em que o paciente tem sobrecarga mais em um grupo muscular que o outro, isso já vai alterar a sua postura. E isso envolve as atividades diárias.

 

 

BBnewsEntrevista – Quais as técnicas que você utiliza para “tirar a dor com a mão”?

Juliana Blanco Ao longo de quase 30 anos de profissão eu fiz muitas formações e a maioria de terapias manuais. O que eu mais uso são as técnicas de liberação das fáscias musculares. Com as mãos eu percorro todos os espaços, músculos para observar os bloqueios, que vão sendo desmanchados.

 

 

BBnewsEntrevista – É através dessa palpação que você detecta onde está o problema causador da dor?

Juliana Blanco Exatamente. Eu percebo onde há menos tônus, mais rigidez. Esse é o exame que faço e já vou fazendo uma soltura, um desbloqueio. Daí eu oriento o paciente para uma atividade física adequada ao seu problema, para melhorar o tônus.

 

 

BBnewsEntrevista – As dores que você trata podem ser evitadas com postura correta e exercício físico?

Juliana Blanco A atividade física é essencial para prevenir dores. O nosso corpo tem articulações porque foi feito para se movimentar com consciência. Então, depois que eu faço as liberações – porque um músculo muito tenso e rígido ele não vai ganhar força – eu reorganizo as cadeias, as articulações e oriento para que o paciente faça um treino para tonificar os músculos e ter uma postura bem elaborada.

 

 

 

BBnewsEntrevista – Você também trata doenças de origem neurológica?

Juliana Blanco O meu marido teve síndrome de Guillain-Barré (uma doença autoimune quando o próprio sistema imunológico começa a atacar as células do sistema nervoso) e ficou tetraplégico por um tempo. Eu havia feito uma formação que está ligada ao tratamento neurológico, que é self-healing, e através desse método eu descobri que com as mãos a gente pode curar, refazendo músculos que estão sem força e os reconectando com o cérebro. A doença neurológica desconecta. Daí a gente promove novas formações neurais através de toques e massagens. E ele se recuperou em um mês e voltou a andar. Foi um trabalho criterioso de reconexão dos músculos com o cérebro.

 

 

BBnewsEntrevista – E você já tratou outros casos similares?

Juliana Blanco Sim. Dia dessas tratei de um paciente que perdeu a sensibilidade nas pernas depois de uma bariátrica porque emagreceu muito rápido e perdeu algumas substâncias.

 

 

BBnewsEntrevista – E o que é mesmo o self-healing?

Juliana BlancoÉ a auto-cura. O objetivo desse método é ensinar movimentos e auto- massagens para reabilitar os músculos e devolver força para os que estão fracos e também relaxar os que estão hipertensos. O self-healing trabalha os estímulos visuais, a quebra de padrão. Por exemplo: andar de costas, usar a outra mão. Isso otimiza o uso das cadeias musculares. Isso devolve o equilíbrio perdido.

 

 

BBnewsEntrevista – E como funcionam as palmilhas posturais que você faz sob medida para os seus pacientes?

Juliana BlancoAs palmilhas eu comecei a desenvolver quando fiz posturologia com um médico ortopedista francês e estudei quais as principais causas da má postura. Descobri que a principal é a pisada. O pé é a base e se essa base está desorganizada as outras articulações vão seguir esse desalinhamento. É como um pneu de carro desbalanceado. Daí eu comecei a ver que a maioria dos meus pacientes que tinham uma escoliose, hiperlordrose ou uma torção de quadril pisava errado. As palmilhas, que são feitas sob medida, alinham o corpo.

 

 

 

BBnewsEntrevista – As palmilhas, então, podem ser uma profilaxia também?

Juliana Blanco Elas deveriam ser um protocolo para todas as pessoas. Assim como você vai ao dentista todos os anos, faz o seu check up ginecológico, de coração. As palmilhas podem prevenir problemas diversos de joelho, tornozelo, quadril e de coluna, porque alinham o corpo. Muitos acham que a palmilha serve só para quem tem pé torto e joanete. Mas não! A palmilha é postural. Além de melhorar a pisada e as patologias do pé, ela alinha todas as articulações. Ela é feita sob medida depois de uma rigorosa análise de postura. É um trabalho de prevenção muito importante. Meus pacientes que usam a palmilha relatam melhoras nas dores. Eu uso e quando fiz o curso tinha dores no pé e na coluna, pois trabalho de pé o dia todo. Virei outra pessoa. Mas é claro que não é só a palmilha; muitas vezes são necessários tratamentos coadjuvantes. Tudo depende da avaliação. Mas, infelizmente os médicos ainda não se atentaram para esse tipo de tratamento.

 

 

BBnewsEntrevista – Qualquer pessoa pode usar as palmilhas?

Juliana Blanco – Sim. É muito indicada inclusive para os idosos, que tem dificuldades na marcha e no equilíbrio, porque perdem muito músculo nas pernas. Isso porque elas promovem o “grounding”, o aterramento. Na prática, as palmilhas tratam fascite plantar, esporão de calcâneo, Neuroma de Morton, pés planos e cavos ,assim como os pés pronados (para dentro) e supinados (para fora) até dores nos joelhos, quadril e coluna que tem causa na alteração de pisada. Por isso, é feita uma avaliação biomecânica completa e exame de baropodometria para analisar a distribuição de apoio plantar.

 

 

 

 

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Este post foi escrito por: Britz Lopes

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