sábado, 18 de maio de 2024

Ele quase morreu em busca da felicidade

 

Ele se chama Enrique Rodriguez, chileno nascido em Concepción, formado em desenho industrial e arquitetura, mas que veio para São Paulo, no ano de 1992, fazer negócios com uma marca de perfumes. Se deu bem, firmou-se financeiramente, e na sequência focou suas energias no trabalho para o qual havia se formado. E passou a criar linhas de objetos de toda sorte – de luminárias a carros. Participou de feiras internacionais, ganhou prêmios e dinheiro. Viajou o mundo inteiro. E, como toda máquina humana criativo-compulsiva, sentiu que era hora de parar e encontrar um sentido para a sua vida. O ritmo estava intenso e ele beirava o esgotamento físico e mental.

Enrique fez as malas e foi buscar o reencontro consigo mesmo no Butão, reino budista no extremo leste do Himalaia, conhecido como o país da felicidade. Era dezembro de 2014 e o experiente viajante planejou paradas estratégicas. A primeira em Londres. Entre voltas no Hyde Park, visitas a museus, bate pernas em Camden Town e contemplação em Notting Hill, sentiu fortes dores que pareciam ter como epicentro o abdome; achou que ia explodir em território real. Correu para o spa do hotel e se submeteu a uma massagem, conectando o mal estar ao estresse e alguma pressão de fundo emocional. Na verdade, era o seu primeiro infarto.

Em Londres, local do primeiro infarto

Na Andaluzia – E seguiu ele para mais uma etapa de sua aventura. Desembarcou na Espanha, no final daquele ano de 2014, para cumprir o roteiro dos pueblos blancos – de Córdoba até Sevilha – onde o carro não entrava, os percursos eram feitos a pé, com direito a sobe e desce de montanhas no frio do inverno andaluz. A pressão no peito estava lá, mas, na leitura de seu otimismo persistente, era a provação para a qual estava indo buscar o remédio espiritual no Butão.

No roteiro, uma parada em Madri, na noite do 5 de janeiro de 2015, véspera do Dia de Reis, quando há desfiles medievais por todo o país, que sai às ruas para festejar os Reis Magos. As cidades são tomadas de gente para assistir as paradas. E Enrique teve outra crise de dor. Desta vez irradiou para o braço e adormeceu a sua mandíbula. “Problema de dente”, pensou! O improvável aconteceu: ele encontrou um dentista que trocou uma de suas obturações no meio da noite.

A caminho do templo, onde não chegou

A chegada ao Butão – A dor e o incômodo continuaram a atormentar o teimoso chileno, que hora nenhuma cogitou procurar um médico. Na manhã seguinte, rumou para Londres, penúltima parada antes do endereço da felicidade. No restaurante, comeu algo que arrancou a obturação do dentista madrilenho. Repôs a tempo de pegar o vôo para a Tailândia e, de lá, para o destino final de onde Enrique, por pouco, não volta.

No Butão, a meta urgente era alcançar o templo sagrado Tiger´s Nest. Chegar lá é tarefa das mais árduas. São 4.800 metros em trilha montanha acima entre ladeiras íngremes e escadarias a perder de vista, em temporada de frio absoluto. Enrique tentou, mas teve um segundo infarto e, só então, percebeu que seu problema não era estômago, nem dente ou estresse. Voltou para o Brasil e, no dia 30 de janeiro de 2015, fez a cirurgia para a colocação de três pontes de safena. O médico atribuiu o fato de ele estar vivo à época ao seu preparo físico e hábitos saudáveis – e uma pitada de milagre butanês, convenhamos!

Enrique deixa o Butão

Vida nova – Enrique nasceu de novo e viu subir, mesmo em território brasileiro, seu Índice de Felicidade Bruta, como se mede no país budista, mas isso depois de dolorosa recuperação de corpo e mente – teve síndrome do pânico, questionou seus valores e objetivos. Agiu rápido: doou roupas de grife, desapegou do que não necessitava e criou a Universidade do Papel, que deu um novo sentido à sua vida. O projeto de arte-terapia começou na favela de Paraisópolis, São Paulo, junto a adolescentes vítimas de violência sexual e se espalhou por várias cidades brasileiras. O slogan de seus projetos sociais: “Tudo que vem do coração, transforma”. Ele é a prova viva disso.

Do Butão, não tem ressentimentos

Enrique mora hoje num galpão simples sobre o seu ateliê, onde trabalha a arquitetura do papel em tridimensionalidade, com jogo de luz e sombra; obras que ganharam as paredes principalmente de hospitais, pois são ideais para a humanização de ambientes (assunto para outra reportagem).

Quanto ao Butão, sem ressentimentos. Aliás, ele acha que sobreviveu só porque estava lá, envolvido num ambiente onde os valores são claros: ser feliz e fazer a felicidade do outro. “É meu Shangri-lá”.

 

 Enrique me contou a sua história no mesmo dia em que se completaram 7 anos de sua ressurreição

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Este post foi escrito por: Britz Lopes

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