sexta-feira, 12 de abril de 2024

Entre vinhos e bombas

Aconteceu assim. Planejei minha segunda incursão por Israel em abril de 2014. Conversa daqui, bebe um vinho dali, minha amiga Cláudia de Castro decidiu ir comigo. Próximo ao dia do embarque, o Hamas lança uma bomba em direção a Tel Aviv; o exército Israelense revida e começa mais uma temporada de guerra. O voo da Air France era Brasília – Paris – Tel Aviv. Chegamos à capital francesa de manhã para embarque à noite. Era o dia da final da Copa no Brasil. Assistimos a goleada alemã e seguimos para o portão. “Voo cancelado por causa da situação política”, disse a atendente. Já havia visto esse filme antes, mais precisamente em 2009.

Arrumamos um hotel ali perto do Charles de Gaulle para tentar chegar ao destino no dia seguinte. Perdemos o primeiro voo, embarcamos no segundo. E as bombas caindo. Na imigração me perguntam o que estava fazendo eu, de novo, em temporada de guerra no país. Expliquei que planejo minhas viagens, mas palestinos e judeus não agendam os conflitos. Ok. Hospedamos num hotel ao lado da Embaixada Americana, de onde um oficial me repreendeu por estar tirando fotos pela janela do nosso quarto.

Já noite, na primeira ida ao supermercado próximo para nos abastecer de vinho, toque da sirene de alerta. E vamos nós para debaixo da escada do estabelecimento. De manhã, programamos um up grade para o Inter Continental David, à beira mar, com muito glamour. Instaladas, aguardávamos Herbert Moraes, então correspondente de guerra da Record, no bar, tomando uma cava. E a sirene soa. O David tem bunkers em todos os andares e um grandão no térreo. Fomos conduzidas para este com todos os outros hóspedes que estavam no espaço. Lá embaixo tem água e alguns suprimentos. O drinque e os pertences ficavam onde estavam até o alarme silenciar.

A diferença, desta vez, é que as bombas do Hamas alcançaram Tel Aviv, embora o sistema antimísseis tenha interceptado todas – ou quase. Mas, no frisson do Rothschild Boulevard, a vida seguia agitada. Ali perto, na praça do teatro Habima, há um bunker público imenso e devidamente equipado que se abre se algo der errado. A noite foi tranquila. No dia seguinte seguimos com o nosso jornalista-guia para o norte de Israel, onde as bombas não chegam. Mar Morto a 50 graus, Rio Jordão, Nazaré, fantástica expedição. Impressionante ver, ao longo dos caminhos israelenses, a nítida divisão dos locais onde vivem judeus e árabes – um detalhe é que as caixas d´água dos judeus são brancas e dos palestinos são pretas.

Na sequência, eu e Cláudia fomos visitar Old Jaffa – charmosa cidadezinha colada em Tel Aviv – onde está a padaria mais antiga do mundo, um porto transformado em lojas e restaurantes e becos para a gente se perder. Vai-se a pé. No meio do caminho, o alarme. Os carros param. As pessoas podem entrar em qualquer lugar em busca de abrigo: um bunker, uma escada de concreto etc. Cláudia correu para o supermercado, mas à minha frente, um operário de construção chamou a atenção. O míssil caia rápido e ele ficou ali. Tirou o capacete, o colocou no peito, e pagou para ver. Em segundos veio a interceptação, que também assisti desabrigada. Pena não ter tido nervos suficientes para registrar a corajosa atitude.

No sétimo dia fomos a Sarona, um espaço revitalizado que já foi uma vila germânica, com lojas elegantes, um mercado e restaurantes badalados. De lá, assistimos a mais uma interceptação. Naquela noite jantamos no Mesa, comida de autor. Fomos emendar mais drinques no hotel. E, de madrugada, um alerta que parecia mais desesperado do que os outros. Acordei Cláudia para que fôssemos para o bunker do andar. Atordoada, ela retirou do guarda-roupa um vestido com doze botões. Tive de empurrá-la de pijama mesmo. Passou.

No nosso último dia aconteceu o que, definitivamente, não poderia ter acontecido. Uma bomba caiu nos arredores do aeroporto Ben Gurion e todos os voos foram cancelados. Corre no escritório da companhia, fechado! No terminal, só confusão. Até dei uma entrevista para a TV Al Jazira, do Catar, sobre, àquela altura, a permanência compulsória. De volta ao hotel, com nome na lista para o primeiro voo que fosse para Paris, surpresa! Sobramos praticamente só nós duas no gigantesco cinco estrelas David Intercontinental. Foi quando o gerente deixou debaixo da porta delicioso convite para um jantar com tudo pago. Um prêmio pela nossa… insistência, digamos. O farto banquete, com foie gras e tudo mais, era só para Britz e Cláudia, aguerridas hóspedes.

Um dia depois, a El Al, companhia israelense, assumiu os voos da Air France e fomos correndo para Paris. Famílias e amigos brasileiros apagaram as velas e agradeceram aliviados. Minha última temporada em Israel foi em fevereiro deste ano. Deliciosa, mas faltou aquela adrenalina com dose extra de nitroglicerina.

 

Foto by Herbert Moraes – Cláudia e Britz em dia de trégua

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Este post foi escrito por: Britz Lopes

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