Esparramei com um malandro e dois maloqueiros, além de estar empossado o ouvidor-geral do Principado Imaginário

Marcio Fernandes – Depois de dez dias no Chipre, o balanço é super positivo, mas não há nada que vá ficar na saudade. O país do Oriente Médio, integrante da União Europeia e aderente ao euro, pode ser perfeitamente classificado como segundo mundo.
O lado que não faz a ilha, localizada no Mar Mediterrâneo, afundar no atraso continental e irremediável do Brasil, é composto pelos hábitos educados dos ciprotas e a mediana infraestrutura. As cidades são absolutamente limpas, sinal de que ninguém joga lixo nas ruas e há ótimo serviço de transporte público.
A título de comparação com os países próximos, o Chipre tem uma qualidade de vida muito superior à da Grécia, cuja capital, Atenas, é uma barafunda de imundície. Já em relação ao Líbano, se torna um sul da França sem qualquer concessão de bondade.
Sempre imaginei que o arroz à grega fosse mais uma invenção dos brasileiros. Afinal, temos a enorme criatividade de buscar no estrangeiro expressões que não têm o significado daquilo que denominamos.

É o caso de outdoor. Nos Estados Unidos, o nome do painel que exibe publicidade em ambiente aberto é billboard. Por outro, a tradução de outdoor é apenas e simplesmente “ao ar livre.”
Sobre o mencionado arroz, minhas suspeitas eram infundadas. Trata-se de um prato da cozinha grega à base, naturalmente, de arroz, ervilha, cenoura cortada em pequenos cubos, vagem e milho. Não precisava do milho, algo que não entra no meu cardápio.
A ilha, de 9.251 quilômetros quadrados, tem menos da metade do Sergipe, menor estado do Brasil, e é dividida em duas unidades políticas. O Chipre, propriamente dito, e a República Turca do Chipre do Norte.
A diferença entre os dois territórios é abissal. Em 1974, a Turquia invadiu a ilha em resposta à intenção expansionista da Grécia. Lá, instalou uma administração coerente com a religião e os costumes muçulmanos.

Estive apenas em Famagusta, no lado turco, por um dia que pode ser riscado das boas lembranças. Enquanto até a fronteira há ônibus limpo, elétrico e muito confortável no Chipre – a cada meia hora e ao custo de dois euros – na tal República Turca há dois por dia.
A distância até o centro antigo de Famagusta é de 13 quilômetros e você terá de morrer em 20 euros para andar em táxi imundo, caindo as pedaços e se sujeitar ao motorista que fuma dentro do veículo. Isso para não mencionar a possibilidade grande cair em um pequeno golpe.
Famagusta é cercada por uma muralha, que um dia deve ter sido linda, construída por franceses e venezianos a partir do século 14. Hoje se encontra em ruínas, assim como toda edificação ocidental no interior do casco histórico.
Estou longe de ser admirador de igrejas, mas dá pena observar o que sobrou da Catedral de São Pedro e São Paulo no interior da muralha. Não dá para entender a estupidez de um patrimônio gótico de extrema importância ter sido abandonado e deliberadamente destruído por uma atitude de conservação de poder político e religioso.

Enfim, acabei me hospedando em hotel cinco estrelas recém-inaugurado em Famagusta por um preço muito baixo. O perrengue na cidade me fez desistir de ir a Nicósia, capital do Chipre dividida pelos turcos, e ainda me obrigou a dar uma esparramada grande em um taxista malandro.
Definitivamente, não é uma boa ideia testar o limite da paciência de neto da Carlota de Melo, originário da família portuguesa, estabelecida há 130 anos em Goiás, estado brasileiro. O combinado era o pagamento de 12 euros.
Ao chegar à fronteira, dei ao camarada uma nota de dez e uma moeda de dois. O malandro disse que não aceitava moeda. Muito bem, mandei ele imprimir uma nota de dois e a corrida ficou nos dez euros. Vá catar coquinho na ladeira!
Na passada pelo Chipre, estive em Larnaca, Agia Napa, Limassol e Pafos. Só cidades bonitas, limpas e funcionais banhadas pelo Mar Mediterrâneo. Pafos foi conhecida em viagem de bate-volta desde Limassol, de longe o local mais sofisticado do Chipre. A cidade é muito chique e descolada.

Lá se encontra o Parque Arqueológicos de Kato Pafos, em área de 100 hectares. Consagrado patrimônio da humanidade pela Unesco, abriga vestígios materiais de monumentos erguidos desde a século 4 a.C até a idade média.
Simplesmente há uma cobertura do piso de dois mil metros quadrados de mosaico romano. Para percorrer o parque sob sol escaldante tem de ter disposição. Saí de lá com a pele machucada da exposição ao ar livre e feliz por ter fotografado o farol majestoso situado no interior do parque.
Não havia previsão, mas agora já está estabelecido por decreto que o Principado Imaginário já tem um farol duas vezes mais alto do que o de Pafos, mesmo não sendo banhado pelo mar.
A obra, edificada por empreiteira brasileira, com evidência de superfaturamento e emprego de engenharia meia-boca, foi inaugurada inacabada com a presença de vários políticos da Bahia, estado brasileiro.

Eu mesmo irei a águas distantes matar baleias para extrair o óleo-combustível do farol. Nele, já está estabelecido Marcelo Franco, ouvidor-geral do Principado. Marcelinho já baixou uma diretriz, ratificada pela União Europeia, em Bruxelas, que proíbe conversar ao celular dentro de transporte público.
Com base na resolução, dei uma esparramada grande em dois camaradas de Bangladesh no ônibus que partiu de Limassol em direção à Larnaca.
Na saída, o motorista havia advertido esse povo mais maloqueiro do planeta de que iria desligar o ar-condicionado se eles não parassem com o falatório.
Dois excomungados, no banco ao meu lado, decidiram ignorar o aviso. Ouviram muito desaforo de mim e nesta hora devem estar pensando em deixar a ilha a nado em direção ao Paquistão. Alguém tinha de pôr ordem na casa.
Marcio Fernandes, jornalista, é autor do texto e das fotografias
Visitei Chipre com vc! E qdo chegar lá, vou esquecer o lado turco!!!
Muito obrigado, querida Maria Amélia. Sem lado turco da viagem.
Excelente, Márcio. Que isso te faça ver que é preciso voltar logo pra Goyaz!
Querido Adalberto, voltarei dia 4. Não aguento mais, no entanto não dá para jogar fora a passagem.