segunda-feira, 17 de junho de 2024

Eu não acredito que vou embora de Barcelona

 

Marcio Fernandes – Ontem me encontrei com o amigo José Antonio, catalão da gema, cujo avô era comunista como o meu. Concordamos em almoço de Menu do Dia que o destino do Netanyahu deve ser a porta dos fundos do poder. Na minha opinião, deveria ser preso por corrupção. Também acertamos que terno e gravata nunca mais. Como parei de falar mal dos ausentes, Demóstenes Torres, amigo em comum, recebeu elogio bilateral em restaurante super simples perto do Mercat de l’Abaceria.

 

 

Nina é imprevisível. Sem motivo, e a qualquer momento, poderá pedir para ser hospitalizada de tanta antipatia de mim. Imediatamente ela pode ficar de bem, pedir para eu colocá-la sobre meus ombros e descer as escadas do metrô imitando um camelo. Agora eu bebo no quarto vinho de Empordá encorpado. Escuto Spill the Wine na voz do Eric Burdon, britânico que tem sotaque dos caras do Bronx.

 

Ontem fui à loja de vinho e do nada o vendedor veio me falar de uma trilogia produzida por pequeno produtor da Catalunha em memória de antepassado anarquista que lutou na Guerra Civil Espanhola. A primeira diz respeito à Batalha do Ebro. A segunda, sobre as garrafas de vinho que ele furtou na fuga da fúria das tropas vencedoras de Franco. A terceira lembra os tempos dolorosos de refugiado na parte catalã na França, do outro lado dos Pireneus.

 

Há coisa de dez anos fui a Teruel para perceber como foi a atmosfera deste conflito que sangrou a Espanha em inverno rigoroso de 20 graus negativos em 1937. Hoje, observo que os espanhóis superaram o passado doído e vivem muito bem.

 

Não entendo o porquê de o Brasil não se preparar para o futuro e sempre apostar nos erros do passado. O País não consegue sequer ter problema novo. Potencial e talento sem esforço físico e intelectual é como aquele cara que declara no currículo ter ensino superior incompleto ou vendedor de carro usado que anuncia que o veículo tem tudo, menos ar condicionado.

 

 

O politicamente correto está cada dia mais sofisticado e incisivo. No bairro chique de Eixample há uma loja que anuncia cardápio gastronômico para cachorro. No centro antigo, pichação diz que a heterossexualidade faz mal. Meu Deus, eu não sou obrigado a gostar da arquitetura disfuncional do Oscar Niemeyer nem a assistir 15 minutos dos filmes do Glauber Rocha. Quando eu escuto a Anitta tenho a sensação de que a mediocridade é nossa meta de nação bem-sucedida.

 

Ainda há pouco, na Carrer de Girona, caminhão da prefeitura local passou para lavar as ruas que já são bem limpas. No Brasil, ricos e pobres jogam naturalmente lixo no chão enquanto a classe média esnobe não vê nada de mal no gesto espírito de porco.

 

Eu detesto calor, mas sou tão friorento que viro a torneira da pia na função de água quente para escaldar as mãos ressecadas. Estou precisando tomar uma escovada boa de óleo de mamona. Claro que estou com saudade de arroz com feijão, bife acebolado e salada. Certamente, quando eu voltar, a Guilhermina vai fazer também macarrão de molho simples de tomate com queijo ralado de Minas porciminha.

 

 

O que mais sinto falta do Brasil é, com certeza, da tomada elétrica de três furos criada pela ex-presidente Dilma. No começo eu critiquei a iniciativa, mas hoje percebo que isso melhorou muito a minha vida. Acho uma pena ela não ter terminado o mandato. O Brasil poderia hoje ser líder global no armazenamento de vento ou ter criado tecnologia 100% nacional de retorno da pasta dental ao tubo de dentifrício.

 

Para ver como são as coisas. No táxi, em direção do aeroporto de Barcelona, o gentil motorista ouvia baixinho solo de violino de Joe Hisaishi acompanhado da Orquestra Real de Londres. Se fosse em Goiânia, a possibilidade de rolar som alto de um desses lixos culturais do País era para mais de 97,4%.

 

 

Não tenho tesão de voltar para o Brasil, pois é muito gostoso ser desconhecido transeunte na Península Ibérica. Pelo menos ainda terei três dias em Lisboa com a Nina. O plano é descolar um arroz de pato no almoço, tomar vinho da Beira Interior e falar português sem a idiota reforma ortográfica que nos impuseram. Morro de saudade do trema ao pedir no Mercado Central de Goiânia pomada de Bálsamo de Bengué.

 

Vou embora de Barcelona me achando um kajará malungo a comer tapioca todo dia no café da manhã. Talvez ainda terei apreço por pamonha, símbolo da preguiça atávica do Brasil, que insiste em andar de lado como um caranguejo malandro de mangue sergipano.

 

Leio que líder de facção criminosa foi contemplado com direito à saidinha para celebrar em família o nascimento do Menino Jesus. Antes de atirar na cabeça de policial, o criminoso deve ter enviado um gesto de gratidão para a autoridade que o liberou. Como disse ao amigo José Antonio, não tenho nada a reclamar do Brasil, pois tudo seria bem pior se tivesse nascido na Bolívia.

 

Texto e Fotografias Marcio Fernandes

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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