segunda-feira, 17 de junho de 2024

 Eu não conheço o Pelé

Sei lá em que ano foi isso, mas deve ter sido um pouco antes de eu sair da McCann de vez. Talvez 2004. Lá estava eu tranquilo, em São Paulo, conduzindo mais um workshop estratégico criativo pra algum projeto latino-americano. Eram 8 duplas de diferentes países da região e eu no meu traje oficial, bermuda, camiseta regata e havaianas. Todos nós trancados há uma semana num hotel na Avenida Sena Madureira, bem pertinho da McCann, porque eu não aguentava mais viver em avião pra lá e pra cá.

De repente me liga o Márcio Moreira de NY, então vice-chairman de sei lá o quê, mas que, enfim, era o pica-grossa da operação da McCann Mundial. Ele me pediu pra eu ir imediatamente a uma reunião delicada, de importância transcendental: intermediar uma negociação entre a uma conta global alemã e o Pelé pra uma campanha mundial. Eu obedeci e fui. De bermuda, camiseta regata e havaianas. Era o que eu tinha para o momento de crise e emergência, não dava tempo nem de colocar uma camiseta normal e um tênis, o que seria o máximo de sofisticação indumentária pra mim.

A reunião era num suntuoso escritório do Pelé, na Juscelino Kubitschek. Tive que convencer a portaria e a segurança a me deixarem entrar e provar que eu não era um entregador de pizza. O Pelé detesta pizza. No elevador apertado, entrei com uns 5 alemães engravatados e rígidos como apfelstrudels congelados. Silêncio total e olhos críticos na minha direção. “Por que esse cara não pegou o elevador de serviço?” imaginavam eles em silêncio.

Todos descemos no mesmo andar, nos apresentamos na mesma recepção, fomos encaminhados pra uma mesma sala de reuniões, nos serviram água e café e pediram pra esperar, que o Pelé já chegaria. Tomei a iniciativa de me apresentar como Gerente Geral da McCann-Brasil e VP Internacional da McCann Mundial. Ninguém levou a sério. E o Pelé não vinha.

O apfelstrudel mais graduado resmungava: “Pelé is late, this is not acceptable, we’ve travelled just to meet and negotiate with him! Who he believes he is?!” Eu timidamente respondi: “He is Pelé, and you’re paying millions of dollars to have him in your campaign.” De repente, lá vem Pelé, adentrando a sala com desculpas, descalço e uma bata indiana azul-céu-claro, “I’m so sorry I’m late, understand?

O apfelstrudel mais graduado imediatamente se derreteu, disse que não havia problema algum, pediu pra tirar uma foto com o Pelé. E um autógrafo, claro. Aí o Pelé me viu, quietinho no fundo da sala de reunião. O Pelé gritou: “Perci!”. Correu na minha direção, me deu um puta abraço, me carregou no colo e me rodopiou pela sala.

Sentamos pra começar a reunião. O Pelé na cabeceira da mesa, o Pepito, eterno escudeiro do Pelé à esquerda, o apfelstrudel mais graduado à direita e eu logo depois, ao lado dele. Sem saber exatamente o que eu estava fazendo ali. Cochichando pra mim, o apfelstrudel mais graduado me perguntou timidamente e surpreso: “Do you know Pelé?” Eu respondi de forma bem blasé: “No, he knows me.”

Pra eles eu não expliquei, mas pra vocês eu explico. Meu pai morou a vida toda no Guarujá, era gerente do Hotel Jequiti-Mar e corretor de imóveis na Praia de Pernambuco, lá mesmo. Meu pai vendeu uma mansão pro Pelé logo depois da conquista da Copa do Mundo no Chile e, desde então, o Pelé contratava meu pai como freelancer pra cuidar da casa, dos empregados, do jardim, da piscina, da geladeira sempre abastecida. E, sempre que podia, eu ia com meu pai nos encontros com o Pelé, eu ainda moleque.

Muito tempo depois, nos anos 80 e 90, contratei o Pelé pra campanhas de Coca-Cola, GM, MasterCard pela McCann. Voltamos a nos encontrar e continuamos a manter contato. Daí a intimidade entre Pelé e eu no encontro com os alemães. A propósito, o projeto foi de uma campanha global criada pela equipe da McCann Frankfurt, mas produzida pela Planet Film e dirigida pela Flávia Moraes, com fotos do J.R. Duran para o material impresso. Foi um grande sucesso de vendas e satisfação sexual pra muita gente.

Mesmo em propaganda, realidade não é necessariamente percepção. Chega uma hora que os fatos falam mais alto do que qualquer discurso de autoelogio ou falsa aparência.

 

Foto: página oficial do Pelé no Facebook

 

Quem é Percival Caropreso

Graduado em Comunicação Social, pela Anhembi-Morumbi em 1974.
Marketing e Comunicação, Estratégia, Posicionamento, Identidade, Imagem & Reputação, Construção de Visão, Missão,Valores & Princípios, Cultura Interna.

Gerente Geral e Diretor de Criação da McCann-Erickson-Brasile América Latina, de 1991a 2005:Estratégia e Criação para clientes locais, regionais e globais (Coca-Cola, GM, MasterCard, Nestlé, Unilever, Esso).

VP Mundial do McCann-Erickson Worldwide Group, de 1994 a 2005.
Desde 1988atuando no Terceiro Setor com empresas, fundações, institutos, ONGs, causas e movimentos socioambientais.
Em 2005, fundador da Setor 2 ½, a fusão estratégica entre o Segundo e o Terceiro Setor: consultoria para dar sentido estratégico, otimizar a integração do capital econômico-financeiro, o capital humano, o capital social e o capital ambiental, todos contribuindo para o sucesso de todos – afinal um não prospera sem o outro.
Branding & Re-Branding de Negócios, Marketing e Comunicação Corporativa para  empresas a partir do pensamento da Governança Corporativa, Agenda Socioambiental e Sustentabilidade: Unilever, Itaú, Pepsico, Aracruz, Laboratórios Astrazeneca, Grupo Votorantim, Fibria, Bracelpa (Ibá), Química Amparo (Ypê), Brasil Kirin, Firmenich, Johnson & Johnson, Grendene& Gisele Bündchen, Construtora Ecoesfera, Editora Ideia Sustentável, Gestão Origami, Grupo Pátria.
Projetos para o Terceiro Setor: AACD, Organização das Nações Unidas, Instituto Ethos, WWF, Fundação Tide Setubal, ISA – Instituto Socioambiental, Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Todos pela Educação, Rede Brasil Voluntário, Fundação Abrinq, Instituto Butantan, Hewlett Foundation/IMAE, Agência Nacional pelos Direitos da Infância, Atletas pelo Brasil, NOSSA SÃO PAULO, Actionaid, CARE, Aventura de Construir, Programa Vivenda.

ATUAÇÃO INSTITUCIONAL
Conselheiro da AACD, 1992 a 1996.
Planejador e Coordenador da Campanha de Comunicação de lançamento do Programa Nacional do Voluntariado, Comunidade Solidária, 1997.
Planejador e Coordenador da Campanha de Comunicação dos Objetivos de doMilênio das Nações Unidas, 2004 – “8 Jeitos de Mudar o Mundo – Nós Podemos!”
Planejador e Coordenador da Campanha de Comunicação do relançamento do Pacto Global das Nações  Unidas, 2007, para o Brasil e América Latina.
Planejador e Coordenador da Campanha de Comunicação do Relatório de  Desenvolvimento Humano Brasil 2009/2010 do Pnud, Nações Unidas.
Conselheiro do Conar, Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, desde2003.
Conselheiro da ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing , desde 2005.
Co-fundador e Conselheiro da Atletas pelo Brasil (desde 2006).
Membro da Comissão de Responsabilidade Socioambiental da Indústria da Propaganda no IV Congresso Brasileiro de Publicidade, 2008.
Fundador e primeiro Presidente do Comitê de Melhores Práticas de Comunicação da  Sustentabilidade da ABA, Associação Brasileira de Anunciantes, de 2009 a 2011.  Coordenador da comissão multissetorial, redator do texto final do Anexo U do Código de Autorregulamentação Publicitária: “Apelos de Sustentabilidade”, 2011.
Conselheiro da OPENEEM FOR LIFE, start-up de biotecnologia sustentável, desde 2015.
Conselheiro da ONG “Aventura de Construir”: crédito, educação e treinamento de negócios, capacitação e acompanhamento de microempreendedores na periferia de São Paulo, desde 2019.

 

Percival Caropreso
Setor 2 ½

Branding & Re-Branding de Negócios, Comunicação
(55) (11) 9.9176.0527
percival.caropreso@setordoisermeio.com

 

 

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