sábado, 18 de maio de 2024

Independente do passaporte, a feijoada é nossa

Foto: Firmesa receitas

 

Sábado, samba e feijoada. Quer uma combinação mais perfeita? Ah! E caipirinha, é claro. Para ser melhor, se é que tem como, só quando o programa dura o dia todo, numa roda de samba, e se torna quase uma obrigação do brasileiro no sétimo dia. Aliás, sua majestade A Feijoada é o prato mais famoso do Brasil, com apreciadores dos quatro cantos do mundo que já experimentaram. É só chegar um gringo por estas bandas e terá sempre um ‘gente-boa’ para apresentá-lo a um generoso prato de feijoada com caipirinha. Feijoada só, não. Na verdade, é um combo: arroz, couve, laranja, farofa, mandioca, torresmo – a perdição! – e a feijoada, propriamente dita, que vem com todas as variáveis – costelinha, paio, rabo, pé e orelha, carne seca, linguicinha e a completa, que tem tudo isso e mais alguma coisa. Não se esqueça da pimenta. 

 

Em Goiânia existem restaurantes e hotéis que servem feijoadas maravilhosas e famosas. Tem até delivery! Há lugares tradicionais simplérrimos, que pouca gente frequenta, mas que surpreendem pela qualidade. Nestes pontos é preciso fazer reserva antecipada. Cada canto tem seu sambinha – que seja no som – e uma especialidade diferente. Já experimentei algumas: feijoada de frutos do mar, de legumes, de peixe, feijoada light (esta é quase uma piada). São saborosas? São. Mas para mim não podem ser consideradas Feijoadas – sim, com efe maiúsculo! –, no mais íntimo do significativo da especiaria. Feijoada de verdade e completa, mesmo, precisa ter ambulância de plantão, parafraseando o magnífico escritor Stanislaw Ponte Preta.

 

Mas quais são a origem e a identidade desse prato que mexe tanto com o paladar e com a alegria dos brasileiros, aguça a curiosidade dos estrangeiros e reflete, na segunda-feira, na balança da academia, mas ninguém consegue resistir? Aposto que você já ouviu – e até passou adiante – aquela informação que apresenta a feijoada como sendo um prato criado pelos escravos, na senzala, com as sobras de carnes que eram desprezadas pelos senhores da casa grande. Balela! O prato é nacional por excelência, mas a forma de fazer e os ingredientes utilizados têm berço europeu.

 

A exemplo da dobradinha – um ensopado feito de bucho bovino e feijão branco –, pratos feitos de carnes consideradas menos nobres, sempre fizeram parte da culinária portuguesa. E foi de Portugal, de acordo com historiadores, que a trouxeram para o Brasil no fim do século XIX. Em registros, o historiador Câmara Cascudo revela que o grande ensopado de feijão deriva mesmo dos cozidos europeus à base de feijão ou fava, como o puchero espanhol e o cassoulet francês.

 

Mas foi aqui, na terra das misturas, que a feijoada ganhou temperos diferentes e acompanhamentos diversos. Independente de sua origem lusitana, espanhola ou francesa, ela se tornou brasileira. E não se fala mais nisso! A feijoada é nossa. Monte o seu prato, capriche no torresmo – porque torresmo é vida! –, se esbalde na caipirinha – mas com moderação! – e, mesmo não sabendo sambar, entre para o samba. A hora de acabar é quando o corpo pedir cama.

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Este post foi escrito por: Rimene Amaral

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