sábado, 18 de maio de 2024

Jesus numa moto no Bosque dos Buritis

 

Marcio Fernandes – O Bosque dos Buritis é um verdadeiro fuá de sexo gay comercial durante a semana nos 72 mil m² de mata de cerrado no Centro e no Setor Oeste, em Goiânia. Praticamente todo dia eu treino ali. Dá para fazer treino considerado bom de 8 km em 1h20. A coisa rende, apesar da cachorrada. Ninguém te incomoda e a atmosfera de árvores altas entremeadas por lagos artificiais é bacana de andar longe dos carros. Onde está o bosque já foi uma várzea grande de 400 mil m² que integrava o Plano Original da cidade de 1933. No domingo, a conversa é outra. O bosque é mais pra família de todos os gêneros em confortável ambientação com a natureza.

 

Ali tem um pôr do sol muito interessante e no setor destinado a idosos e crianças hoje eu decidi observar os presentes desde as sessões no remador, aparelho de exercício que não sei exatamente a finalidade, mas é saudável. Há muito tempo que não via pessoas lendo livros físicos à beira do lago. Neste domingo, havia um casal que presumi de professores universitários da Federal recém-estabelecidos na cidade, provavelmente do interior de São Paulo. Havia também um camarada com cara de apaixonado solitário que lia poesia de Carlos Drummond de Andrade. Pessoal, para ler confortavelmente tem de levar repelente de inseto.

 

Neste domingo, o carrinho de pipoca voltou ao seu lugar tradicional no lago da Assembleia, mas faltou Seu Joaquim, violeiro de moda de viola, contador de casos das duplas caipiras que ele conheceu pessoalmente. Está muito doente e os netos, que estão tocando o negócio, não sabem quando ele vai voltar. Na gangorra, uma senhora dos seus 47 anos dividia o brinquedo com o filho de uns sete anos. A faixa etária da senhora foi calculada a partir do método Fernando Rassi de identificar a idade das mulheres pelas rugas no cotovelo. Ela naturalmente abriu as pernas para se sentar na gangorra com vestido de tecido macio de mulher desquitada antes da Lei do Divórcio num procedimento muito bonito.

 

 

Neste domingo, em local no qual foi colocada uma instalação horizontal que eu e Nancy Ortêncio pelejamos para entender sem chegar a um positivo, hoje família de três integrantes tirava foto profissional em traje militar. A mulher do camarada, mãe de um menino super indisciplinado, fazia umas posições de defesa e ataque, mas precisa maneirar na pizza calabresa com Coca-Cola. Tá acima do peso para atividades imaginárias de campanha.

 

A condição militar da família me lembrou o tio João Batista de Melo. O cara fez tudo para ser preso pela ditadura, mas fracassou completamente. O máximo que conseguiu foi fazer um discurso contra a igreja na missa do galo da Catedral de Goiânia. Ficou algumas horas detido no Primeiro Distrito e depois foi liberado pelo Iris Rezende, então advogado. Ele era um Melo puro, espigado, forte e bom de capoeira.

 

O Batista às vezes cismava e advertia minha avó Carlota que estava na iminência de combater nas colinas. A Carlota só acendia um cigarro Charme e mandava um “Tenha a paciência, Batista”! Eu era criança, gostava pacas de geografia e já viajada pelo Brasil com meu pai de Opala. Ficava imaginando onde o Tio Batista iria arrumar colina naquele imenso cerrado plano do interior pobre de Goiás, de vegetação fraca, sem uma tapera no horizonte para tomar uma água de moringa e fazer um embornal.

 

 

Como domingo no bosque a frequência dá uma diferenciada no sentido do casal e da família, uma galera da bicicleta deixou as duas magrelas escoradas em um buriti robusto para refrescar os pés no lago, namorar e fumar um baseado. Devia ser um baseado grande, pois eu dei três voltas de mais ou menos 500 metros e cheirão ainda estava no ar. Logo adiante, um casal de bichas descoladas fazia um piquenique cheio de abraços e vinho tinto. Um deles tem cabelo blackpower do movimento negro americano em protesto pelos Direitos Civis. A estrutura do piquenique é expressiva no setor de alimentação e o mais clarinho do casal se enfiava naquela cabeleira para dar um beijo na boca no rapaz.

 

Hoje eu andei mais pra fraco, 5,6 km. Me enrolei ao tirar fotografias, dar uma conferida no pessoal, e acabou que rendi pouco. Viajei longe em Jesus Numa Moto, bem alto no fone de ouvido, com Sá, Rodrix e Guarabyra ao vivo. Esta música pirou minha cabeça e depois eu era amigo do Luiz Carlos Bravo, ex-sogro do Zé Rodrix, que tomava todas no Glória com uma galera e contava altas histórias do Rio de Janeiro. Depois que ele morreu, naquele sábado, duas vezes o pessoal do Bravo ouviu Naquela Mesa com Sérgio Bittencourt. Eu agora tomo chá de pérolas de jasmim e continuo viajando na música. “Eu vou virar a própria mesa, quero uivar numa nova alcateia, vou meter um Marlon Brando nas ideias e sair por aí, pra ser Jesus numa moto…”

 

Texto e fotografias: Marcio Fernandes

 

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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