domingo, 21 de abril de 2024

Maduro não visitou um companheiro, apenas olhou-se no espelho

 

Demóstenes Torres — O motorista de aplicativo migrou há algum tempo, mas conserva o sotaque e a saudade da terra natal e do emprego como engenheiro na Petróleos de Venezuela, a PDVSA. Paga de aluguel do carro quase metade do que ganha dirigindo14 horas por dia no trânsito de Goiânia. Ainda assim, diz ser o que aparenta: feliz. Ao chegar, foi ajudado por patrícios que escaparam antes do que chama de “inferno no paraíso”. Consegue ao volante o suficiente para prover a família. O próximo passo é restar um pouco para retribuir a quem vier. Todavia, o otimismo sofreu um abalo. Motivo: o presidente Lula derrubou o preço dos combustíveis. Deveria estar alegre, pois seu gasto nos postos é maior que em supermercado. No entanto, enxerga longe. Num portunhol de camelódromo, esclarece que já viu esse filme. E o país morre no final.

 

As filas de venezuelanos para entrar em Roraima contrastam com as do início do chavismo, quando o preço da gasolina aqui era 6 vezes o do outro lado da fronteira. Tinha tudo para dar errado. E deu. Primeiro, quebrou a PDVSA; depois, a Venezuela inteira.

 

 

Comentei que o cenário internacional nos remetia a Lula 1, a 1ª gestão petista, de 2003 a 2006. Portanto, seria lícito crer em retorno do consumo, porque a pandemia vedara setores integralmente, como de turismo e eventos. As portas fechadas se reabririam. Empreendedores ficaram retidos nas residências durante 30 meses e esperavam somente os financiamentos para ideia virar startup, plano virar negócio, a vida virar a crise pelo avesso. Esclareci que não fiz o L, pois me olhava pelo retrovisor interno buscando o rosto de um esquerdista. Ato contínuo, concordou que “um país igual ao Brasil merece constar no 1º mundo”.

 

 

Essa minha viagem de Uber foi antes da presença do ditador Nicolás Maduro num encontro de países da América do Sul, dia 31 de maio, no Itamaraty. Maduro mal pisou o solo do Cerrado e uma horda de vassalos o ergueu em triunfo. Frustrou o rapaz do aplicativo. Em sua opinião, Lula cobraria do déspota respeito aos direitos humanos, punição a assassinos e torturadores, valor à democracia. Em vez disso, assistiu-se a um espetáculo de sabujice. Se fosse russo, teria havido beijo na boca.

 

Sobram ósculos, faltam óculos. Evitam enxergar a realidade.

 

Parte da equipe querendo comprar novo AeroLula enquanto o Brasil se desindustrializa. Concursos vão aprovar 25 mil servidores para atender aos recém-garantidos 37 ministérios e sequer se mencionam investimentos para inovação tecnológica. Nessa imensa casa da sogra que é a Esplanada, o sogro do ministro atende em seu gabinete e líderes partidários estão há cinco meses sem atendimento em gabinete algum. O trabalhador brasileiro produz mais que o chinês, porém a produtividade da indústria tupiniquim cai ininterruptamente, exercício após exercício. Em vez de concentrar recursos em tecnologia, como os fazendeiros agiram ao longo das décadas para quadruplicar a produtividade no campo, o governo privilegia invasores de propriedades. O motorista de aplicativo tem razão ao sentir déjà vu: temos de deter a venezuelização. Maduro não visitou um companheiro, apenas olhou-se no espelho.

 

 

Como o Brasil, a Venezuela é abençoada. Tem a maior reserva de petróleo do mundo, 303 bilhões de barris, o dobro de Irã (155 bilhões) e Iraque (145), 3 vezes mais que Kwait (101) e Emirados Árabes Unidos (97), supera a aliada Rússia em 370%, os inimigos Estados Unidos em 640% e o Brasil em 1.125% (o Boletim de Recursos e Reservas de Petróleo e Gás Natural 2022, editado em 31 de março de 2023, informa que guardamos menos de 27 bilhões entre provadas + prováveis + possíveis, o chamado 3P). Para estar na miséria em que se encontra, mesmo assentado sobre tão imenso tesouro, bastou ao nosso vizinho caribenho a sequência de dois desastres, um militar, outro de bigode.

 

 

 

Desenvolver uma nação é trabalho de sísifo; destruí-la é fácil como digitar dois algarismos na urna. Anteontem se apresentou para mediar a paz entre Ucrânia e Rússia, com Putin indicando o gestor de Kiev, no que foi ironizado por Zelenski, o humorista que perde a guerra, não a piada. Ontem retomou a política de brindar regimes falidos com o que a Receita Federal arranca de CNPJs e CPFs, prometendo à Argentina as ferrovias de que necessitamos para transportar as mercadorias brasileiras. Hoje apresenta João Pedro Stédile a Xi Jinping sem dizer ao líder chinês que ali está um algoz dos produtores que alimentam 2 bilhões de pessoas. Amanhã subsidia o carro nacional, que ninguém no exterior quer, e tira dos bancos públicos as linhas de crédito de commodities, que o mundo inteiro deseja. E depois? A única certeza é que ogro ama vitimar o agro.

 

 

 

Revela-se digna de integrar o inquérito das fake news a conclusão deque o problema da Venezuela é a narrativa. Tanque pra cima de manifestantes? Narrativa. Multidões morrendo de fome? Narrativa. Economia em pandarecos? Narrativa. Proporcionalmente, um Estado de São Paulo inteiro fugiu da ditadura bolivariana? Narrativa. Cidades belíssimas transformadas em escombros sem bombardeios? Narrativa. Entre as diversas virtudes do presidente Lula não está a do vocabulário extenso. Então, pode ser que nem saiba se narrativa é de comer ou de passar na barba. Bom, essa é uma narrativa. Que cada um crie a sua.

 

 

 

Há uma narrativa, esta meio antiga, desconfiando de que quem está no poder é um dublê de Lula. Não creio em vassoura-de-bruxa, mas elas existem e destroem lavouras, espécie de MST resistente a fungicida. Tem sentido, hein… O Lula da campanha era paz e amor, esse aí é ódio e vingança. Lula defendia a Petrobras, seu clone prefere moê-la e desenterrar a BR Distribuidora ao repelir Vibra eEletrobras estatizadas. Os próprios chefes de estado presentes ao encontro, do direitista Luis Lacalle Pou (Uruguai) ao esquerdista Gabriel Boric (Chile), repudiaram o excesso de afagos em Maduro, que levou com a proeminente barriga o bilhão de dólares que deve ao Brasil.

 

 

O motorista, demonstrando familiaridade com o estilo reclamão dos interessados em política, me perguntou se aqui é costumeiro o sujeito ser um para angariar voto e outro depois da posse. Ia responder quando a voz do aplicativo nos interrompeu ao informar que havíamos chegado a nosso destino. Desci, não sem antes lhe atribuir 5 estrelas, as mesmas que seu conterrâneo receberia oficialmente dias depois. As do condutor do automóvel foram merecidas, já as do condutor da Venezuela…

 

Ia lhe dizer que, como a maioria da população, ainda espero o candidato de 2022 e pensei num adesivo com a hashtag #QUERODEVOLTAOLULADACAMPANHA. Duvido que ele colasse no veículo.

 

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Este post foi escrito por: Demóstenes Torres

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6 comentários em "Maduro não visitou um companheiro, apenas olhou-se no espelho"

  • Avatar Rosa Donzelli disse:

    Demóstenes , parabéns pelo artigo , mais uma vez confirmo a minha fala sobre vc: UM DOS HOMENS MAIS INTELIGENTES DO BRASIL . Bjos a Flávia ! E parabéns Briztlopes! Sua revista virtual virou minha rotina de leitura . Parabéns tb para Renata B. pela última reportagem. Concordo que tal projeto deixará as pessoas mais endividadas do que já estão . Sem falar de tudo o que pode estar por trás .

  • Avatar Antonieta mendes disse:

    Parabéns pela reflexão e belíssimo texto. Nosso país está carente de mentes como a do Dr. Demóstenes Torre. “ por quem os sinos dobram”

  • Avatar Dirce Guizzo disse:

    Parabéns, Britz, pela revista, sempre uma leitura agradável e proveitosa. Parabéns, Demóstenes, pelos artigos, sempre atuais e primorosamente escritos. Boa, a ideia da hashtag, mas vou usar uma menos irônica: #não querodevoltanemoluladacampanha.

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