Maldição de múmia? Bobagem. Somos useiros e vezeiros em coisas do gênero

Província de Goyaz, dias atuais.
Elucidativa Sinhá,
Não tenho criatividade fertilizada o suficiente para alcançar-lhe a cabeça onde está plantada árvore que se vê cheia de primatas barulhentos e famintos, que vez e outra mergulham num rio imaginário cujo nascedouro é em terras de suas origens, o Líbano – e o seu babaganuche, e o kibe sem ovo e catupiri e o esplendoroso falafel.
Sinhá. Que os reis desta Republiqueta de Bananas estão nus, não duvidamos mais. Portanto, dona múmia, muito cuidado! Há páreo para a senhora aqui. Não nos lance maldições, pois delas estamos até o pescoço. E sabemos muito bem mergulhar na lama mais uma e mais uma vez.
Antes de trazer para terras tupiniquins a maldição da múmia, vamos nos relembrar de certo bruxo, que supostamente cozinhava criancinhas num imenso caldeirão em alguma espécie de ritual que não sabemos ao certo sua real serventia. Esse sim, conseguimos caçá-lo. Ou pelo menos o atormentamos ao ponto de não se ter mais notícias.
Naqueles mesmos tempos havia um camburão policial. Aquele que nos levava em casa na madrugada passa por revisão e, em breve, conduzirá falsos profetas de uma nação inteira arrematada de mentiras. É o limbo senhora! Sem qualquer arremedo de esperança. O futuro, Sinhá, acredito, é o subsolo – o do fundo do poço, para ser mais exata.
Tutancâmon se revira no túmulo. Mas não há saída. Nem com ajuda de Cuca, Mula sem cabeça e Saci Pererê, personagens equivalentes da República Desalmada. Mas, viva o sincretismo! O religioso? Não! O mentiroso! Mas a platinada acredita e vai fazer chamada. Grande, meio que convincente.
Enquanto isso, no nosso Goyaz, especificamente na Praça Cívica, onde o poder pulsa, estátuas começaram a se mover lentamente à noite – PS os espectadores não usaram LSD. As fotografias das primeiras-damas antigas dão risadas – as mortas, com menos entusiasmo, as vivas foram às gargalhadas. Guardas juraram ouvir passos pesados ecoando pelos corredores do Palácio das Esmeraldas.
Estudantes de arqueologia, depois de quebrarem o Restaurante Universitário da Praça Universitária, tentavam decifrar inscrições que apareciam misteriosamente nas paredes da faculdade. As frases falavam de vingança contra aqueles que perturbassem o sono eterno. Ora, já estamos no sono eterno há muito, não é mesmo dona Sinhá?
Durante o desfile de carros antigos na Avenida Goiás, uma figura envolta em linho apareceu entre a multidão. Não era fantasia: seus olhos brilhavam como brasas. A múmia caminhava lentamente, e onde passava, o asfalto rachava e o ar ficava pesado. A cidade inteira parou. Alguns fugiram, outros filmaram. Mas os mais corajosos — professores, líderes religiosos e curiosos — se reuniram para enfrentar a entidade. Misturando rezas católicas, cânticos indígenas e rituais afro-brasileiros, criaram um círculo de proteção.
Mas, respeitosa Sinhá, não era bem a múmia, mas sim, as sombras que assombram o nosso Bananal Desalmado: um careca, um diminutivo de Pinóquio, um homem que se apresenta como uma espécie de ovo, ET encomendado. E os tais corajosos caem por terra, um a um. Narrativas desenterradas são piores do que um coração desalmado; doem mais de uma vez!
Apagões misteriosos, enchentes repentinas ou até pragas agrícolas atribuídas ao “espírito da múmia”. A narrativa poderia até virar novela ou filme nacional, misturando drama e humor. Uma tragédia sobrenatural e mais um fenômeno cultural, com o Brasil transformando a maldição em histórias, memes e até carnaval temático – pode!. E o Bananal segue desalmado para o bem geral da nação.
Como a senhora apelou para os franceses, vou chamar os italianos, aliás, o italiano que mais respeito, Leonardo, o da Vinci: “O maladetta luce, io mi credevo avere in te trovato la mia felicità; io piango indarno il mio matto desiderio, e con mio danno ho conosciuto la tua consumatrice e dannosa natura.”
Com sinceros votos, dona Madame, a editora!