segunda-feira, 17 de junho de 2024

Memórias de um tempo não muito distante

 

Elias Rassi Neto — Uma tarefa difícil. Memórias de um tempo não muito distante, mas repleto de apuros. Naqueles tempos, morava perto do Palácio das Esmeraldas e também da Catedral Metropolitana. Meio no meio do caminho entre essas representações. Alguns eventos provocados pelo golpe militar aconteceram aqui perto.

 

 

Pré-adolescente, os dias passavam entre a escola, as peladas de futebol na praça em frente de casa, na rua, e em alguns campinhos improvisados por perto. Um desses campos ficava no canteiro de obras do atual Palácio Pedro Ludovico, antigo Centro Administrativo. A vigilância, nem sempre presente, nunca apreciou essa forma de utilização. Éramos, esses pré-adolescentes, dezenas. Cada rua com o seu time. E assim circulávamos pelas redondezas do Setor Sul.

 

Muito susto com a deposição de Mauro Borges. Maior o susto com o cerco à Catedral Metropolitana. A nossa praça, cujo campo de futebol era irregular, pelas árvores que serviam de trave, situada a apenas um quarteirão desses dois prédios históricos, nos colocava como observadores privilegiados. Era só virar a esquina.

 

 

Já com 12, 13 anos, a Catedral cercada, tiros lá dentro. E de fora, formando uma revolta com os arbítrios. Cada dia nos empurrava para manifestações contra a ditadura.

 

Aprendi a jogar um pouquinho de xadrez com o primo Luís Carlos e seu pai, Farid Helou. Comunista ferrenho, no início dos anos 60 já estava presente em Cuba nas plantações de cana-de-açúcar e na histórica Crise dos Mísseis. Ficou amigo de Célia de La Serna, mãe de Che Guevara, que ficava em sua casa aqui em Goiânia. Não tinha como ser de direita. A ideia de justiça social entrava pelos poros.

 

Daí para frente, passei por representações estudantis, desde o grêmio nos colégios. Na faculdade, em 1974, logo fomos reorganizar os centros acadêmicos e o DCE.

 

Essas movimentações aproximavam dezenas de pessoas que, como eu, indignadas com as censuras, os bloqueios das ideias, as tentativas canastronas de incutirem valores ditos cívicos, que apenas escondiam a baixeza de princípios e as vontades de dominação, foram engajando nas grandes bandeiras de “Abaixo a ditadura” e “Diretas já!”.

 

Centenas de presos políticos, a repressão crescendo. Tanto aqui no Brasil como nos vizinhos. Argentina, Chile e Uruguai, que serviram como refúgio aos tantos exilados, também recrudesceram.

 

 

Todos com algum grau de discordância das sandices das ditaduras viraram comunistas, como justificativa para serem caçados.

 

Passados 60 anos de 1964, que inaugurou estes sombrios tempos, muitos subterrâneos já emergiram. Interesses pessoal ou comercial viravam caça aos comunistas. Milhares de torturas e execuções de opositores políticos abriam caminhos para uma incompleta desarticulação das estruturas político-administrativas. Os malefícios das ditaduras não se limitam a esse campo, infelizmente estendem-se pelos mais diversos setores e segmentos. Deixam rastros por onde passam.

 

Visto desses dias atuais, 21 parecem pouco, mas é estrago para mais de século. A ditadura provocou um desvio da rota dos aperfeiçoamentos democráticos. Esses processos incorporaram centenas de esbulhos autoritários nos mais diversos campos. Até hoje não concluímos essa limpeza.

 

 

Como nesse passado/presente recente, sanhas psicopatas encontraram espaço para a pequenez moral. Racismo, xenofobia, misoginia, LGBTfobia e capacitismo aproximam esses setores com o fascismo. Não é por acaso que muitos de seus símbolos são semelhantes. Representam e apresentam a mesma estética.

 

Ditadura nunca mais!

 

Post escrito por Elias Rassi Neto, médico e professor de Saúde Coletiva na UFG.

Foi vereador (1989/1996), presidente da Câmara Municipal de Goiânia (1989/90) e secretário de Saúde (1997/2000 e 2011/2012).

 

 

 

 

 

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Este post foi escrito por: Britz Lopes

As opiniões emitidas nos textos dos colaboradores não refletem necessariamente, a opinião da revista eletrônica.

3 comentários em "Memórias de um tempo não muito distante"

  • Avatar Marcio Fernandes disse:

    Muito obrigado pelo belo texto, prezado Elias!

    • Avatar Elias Rassi Neto disse:

      É uma satisfação e privilégio escrever sobre a sua editorial. Valoriza qualquer esforço.
      Muito obrigado pela oportunidade.
      Um grande e afetuoso abraço.

  • Avatar Carla de Camargo Wascheck disse:

    Emocionada!
    Linguagem incisiva e clara, como sempre, e tb recheada de ternura qd fala da pre-adolescência e da fome por justiça social.
    Rico e conciso, resgata e acrescenta conhecimento, análises, anseios. E até desperta alguma saudade! Que venham outros, Elias!

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