segunda-feira, 17 de junho de 2024

Mil quilômetros na imensidão do Rio Araguaia

 

 

Marcio Fernandes – No final de agosto de 1999, eu, o publicitário Ailton Lima e o produtor Ronaldo Araújo, navegamos aproximadamente 1,2 mil quilômetros ao longo do Rio Araguaia, entre Aruanã (GO) e a Aldeia de Fontoura (TO), ida e volta, por duas semanas. Na proa, a exploração da margem ocidental da Ilha do Bananal. O foco eram as populações indígenas e os retireiros, nome dado ao ribeirinho que habitava ilegalmente a Ilha em situação bem mais miserável do que a dos Javaé, Karajá e Tapirapé. Uma gente abandonada completamente pelo Estado ao lado de indígenas sob proteção oficial.

 

 

Tínhamos os mapas hidroviários de toda extensão do Araguaia. O GPS, equipamento raro à época, era do tamanho de uma garrafa de vinho bojuda. Apanhei muito até entender a conexão com os satélites e fazer a locação no mapa. Não havia menor possibilidade de sinal de celular na imensidão daquele Araguaia selvagem. A solidão de perder de vista só aumentava na medida em que progredia a navegação rumo ao pôr do sol vermelho mais bonito da América Latina.

 

 

A estrutura embarcada na Marajó 90 era expressiva, de equipamento fotográfico a material de pesca. Lancha qualificada do Ailton, pilotada por um pirangueiro responsável. Ribeirinho magricelo e de pouca conversa, chamado Gordo. Ele tinha ciência da leitura dos canais de navegação do Araguaia, rio pleno de baixios de areia traiçoeiros. Em termos de víveres, estávamos forrados de carne seca e outros mantimentos como uma guia de whisky escocês 18 anos. Muita água e gelo. Suprimento grande de arroz. Com exceção de São Félix do Araguaia (MT), fizemos o percurso acampando nas praias, que depois da Ilha eram praticamente desabitadas.

 

 

 

O objetivo da viagem era realizar os levantamentos de campo do projeto de mapeamento audiovisual do Araguaia, da nascente, na Serra dos Caiapós, divisa de Goiás e Mato Grosso, ao encontro com o Rio Tocantins, na região do Bico do Papagaio (TO). Chamava-se Expedição Araguaia 2000. Do banco de dados a ser formado seria feito um documentário definitivo do Araguaia com roteiro meu e do Ailton e direção do Ronaldo. A produção do projeto se mostrou muito cara, exigia tremenda infraestrutura, equipamento de gravação pesado, muita mão-de-obra, não conseguimos patrocínio e a boa ideia morreu nesta viagem fascinante.

 

 

Como gostava de comentar o sertanista Leolídio Caiado, a navegação foi franca em quase todo percurso, apesar de à época o rio ter perdido bastante volume. Os lagos estavam secando, com fartura de peixe para a felicidade das colônias de tuiuiu, colhereiro, garça, biguá, martim-pescador e dos jacarés no topo da cadeia alimentar. Famílias de ariranhas e capivaras dividiam o domínio de praias brancas de impressionante equilíbrio ambiental. Certamente havia onça-pintada nas redondezas do acampamento de olho na carne urbana disponível.

 

 

Eu sofri a perseguição de cachorros nos ecossistemas mais improváveis de se encontrar um canídeo. Era pôr o pé na areia e avançar na praia em busca de lenha para que batesse em retirada veloz da perseguição de cachorros grandes. E não adiantava gritar por socorro ao pessoal. O Ronaldo tirava um sarro da cena e o Ailton só dizia que estávamos “perdidos com a valentia do Marcio.” Aliás, nas aldeias havia mais bicicleta e cachorro do que indígenas. Eu fazia o primeiro contato por ter obtido a autorização da Funai e conhecer alguns membros das comunidades. O verdadeiro embaixador da aventura acabou sendo o Ronaldo. Despachado e tremendo gozador, logo ele ficava íntimo da tribo, enquanto o Ailton Lima fotografava o ambiente e distribuía rapadura. Na função de repórter, eu trabalhava com um olho no bloco de anotação e outro na cachorrada.

 

 

 

A nossa grande experiência de viagem, além do longo percurso de barco, foi a convivência com os indígenas. Tivemos o privilégio de assistir ao ritual do Hetohokyna Aldeia Fontoura (TO). A cerimônia marca a passagem do menino Karajá de 12 anos à vida adulta. Por todas as aldeias observamos sinal de pobreza e perda de substância da cultura original, embora houvesse interessante programa de alfabetização em jê e português. Nada próximo da situação dos Yanomami.

 

 

De acordo com o planejamento da Funai nos aguardava na Aldeia de Santa Isabel do Morro (TO), quatro quilômetros a jusante de São Félix, recepção solene de Yoritaxi, chefe da nação InyKarajá. Não aconteceu exatamente assim. Já eram onze da manhã, subimos a barranca do rio e andamos uns 200 metros até a casa indicada num calor terrificante. Na porta aparece Yoritaxi, recém-acordado, com cara de ressaca, espuma no canto da boca e um sabonete à mão para tomar banho de rio.

 

 

Yoritaxi não queria saber da questão indígena, estava satisfeito com o trabalho da Funai e se declarou um hedonista praticante. Depois de proveitosa palestra chegou a hora da mordida. Yoritaxi primeiro pediu dinheiro vivo, depois gasolina. Recusou a rapadura do Ailton e mostrou preferência por outro produto derivado da cana-de-açúcar. Não satisfeito, cismou que queria meu colete da expedição. Esparramei com o cacique, que acabou ficando só com crédito contido no posto de gasolina.

 

 

 

Apesar de eu ter sido o pouca-prática do pessoal, foi o Ronaldo quem teve a proeza de incendiar o acampamento ao tentar acender lampião a gás na escuridão da praia. O Ailton ficava ligado o tempo todo na proa da lancha, orientando o Gordo nas manobras, mesmo assim quebramos uma hélice. Fizeram a reposição da peça sem problema. Nas paradas sempre os caras pescavam peixe grande. O resultado da atividade culinária foi mais positivo do que negativo. Subestimei o sol do Rio Araguaia e cheguei em casa desidratado, parecendo um bacalhau de porta de venda. Eu e Ailton já decidimos voltar à Ilha do Bananal e fazer o filme. (Marcio Fernandes é jornalista)

 

Foto 1: arquivo

Foto 2: Ailton Lima

Foto 3: Georges Fernandes

Foto 4: Ailton Lima

 

 

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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