sexta-feira, 12 de abril de 2024

Napoleão, Caxias e o valor de lutar com os comandados

 

Demóstenes Torres  —  Uma diferença entre a História e o Ultimate Fighting Championship é que o UFC tem o octógono e ela tem muitos lados além. As lendas de um estão vivas, algumas ainda lutando, enquanto as da outra penam numa seca terrível. Desde a 2ª Guerra o Reino Unido não produz um Churchill nem os Estados Unidos um Roosevelt. Pior é a França, que está há 2 séculos sem alguém digno do panteão. A tecnologia avança, as lideranças globais patinam no atraso. Em plena era da inteligência artificial, convive-se com ideias anteriores às cavernas. Por isso, lugar de ver estadista é na tela ou no livro. No caso de Napoleão Bonaparte, cuja coroação como imperador francês está prestes a completar 220 anos, o ringue era do tamanho da Europa e sua figura, tão descomunal quanto.

 

 

Do “Napoleão” de 5 horas do cinema mudo, espera-se há quase um século para surgir um filme à altura das boas biografias escritas por historiadores de renome e até por Alexandre Dumas, autor de clássicos mundiais como “Os 3 Mosqueteiros” e “O Conde de Monte Cristo”.

 

 

O “Napoleão” de 2023 nada tem disso tudo. É, em uma palavra, tedioso. Vi-o em duas oportunidades, no cinema e em casa, com familiares no 1º, parte do público saiu, preferindo bater perna no shopping a cochilar de decepção; na 2ª, o êxodo se repetiu. Tiete do personagem, resisti bravamente, à custa de Coca-Cola sem açúcar. Mas não há diabético que aguente o olho doce do diretor Ridley Scott, que pisca para a esquerda e fecha as vistas à História. Nesse ritmo, é provável que faria um “Hannibal” vegano e espere vir aí o “Gladiador” avesso a luta.

 

 

Politicamente correto é o tipo de expressão que torna insignificantes as palavras que a compõem. Josefina, que Napoleão coroou rainha sua e da França, é tão empoderada que por pouco Scott não a colocou sobre um cavalo branco comandando tropas no Egito e na Rússia em substituição ao marido traído, fraco e vacilante. O diretor conseguiu sozinho o que um continente inteiro não alcançou, a morte do principal estrategista militar desde a Idade Média ocidental.

 

 

O resignado que suporta os 150 e tantos minutos de exibição se convence de uma verdade e um engodo:

  1. Scott não é mais o mesmo (a verdade),
  2. Napoleão nunca foi aquele que a gente pensava (o engodo).

 

Por essas e muitas, restou ignorado pelo Globo de Ouro e acaba de ser surrado pelo Oscar, que o resumiu a candidato a 3 prêmios plásticos, produção, figurino e efeitos visuais. Ou seja, os integrantes da Academia de Hollywood viram o mesmo filme que nós. Bem feito para um diretor que, em analogia com os blockbusters, tratou Josefina como se fosse Oppenheimer e Napoleão, uma Barbie. A ausência de láureas é menor que a não aparição, no filme, do irresistível moedor de invencíveis, do gestor, do fomentador de cultura e conhecimento, do articulador, do companheiro leal que incitava as tropas com sua presença na linha de frente.

 

 

As cartas do senhor da guerra a sua mulher criaram o rascunho nos quais o roteiro teria sido baseado. Portanto, seria honesto esperar sua versão dos fatos. Fueeeeen. Ali está o que passou pelo filtro do inglês de caricatura e sua folclórica visão dos franceses, acossado pela urgência em agradar a revolucionários de butique.

 

 

É desnecessário ser especialista para notar as falhas, como a sova à sombra das pirâmides, erroneamente tidas como alvo dos tiros de Napoleão. Todavia, o equívoco indesculpável foi se valer dos magníficos atores Joaquin Phoenix e Vanessa Kirby para vender um Napoleão calça-frouxa e uma Josefina no centro das atenções. 

 

 

Claro, é entretenimento, não aula de História. Porém, deveria ter poupado do bullying quem tanto com ele sofreu a partir da infância e saiu de semiapátrida para o domínio da Europa. Visitei os Inválidos, em Paris, onde estão seus restos mortais e de vários outros vencedores de conflitos armados, com lembranças de embates memoráveis travados pela França. O lugar é um luxo só. Os visitantes, contritos. O respeito, total. Napoleão merece. Livrou o país dos maluquetes da Revolução Francesa, da qual fez parte como comandante de artilharia, sem se comprometer com os desvarios. Admirável a devoção dos compatriotas ao mito, reverência negada aqui, guardadas as proporções, ao Duque de Caxias, que cuidou da integridade de nosso território e do bem-estar de quem nele habitava.

 

 

Napoleão foi mais que um gênio militar atemporal. “Ele veio do nada e conquistou tudo”, resume o subtítulo do filme. O próprio disse que sua glória maior não era “ter vencido 40 batalhas”: “Aquilo que nada apagará, que viverá eternamente, é o meu Código Civil”, aprovado em 1804 e rebatizado de Código Napoleônico em 1807. Fato. Napoleão reabriu as faculdades de Direito na França. Acompanhava pessoalmente as discussões dos doutrinadores. Devorava literatura, não somente a jurídica. Um dos volumes que li e distribuí quando era senador foi “Conselhos aos Governantes”, reunião de obras de pensadores como Platão, Cervantes, Erasmo e Maquiavel. E lá está “O Príncipe” comentado por Bonaparte, propagam os organizadores: “As notas que se referem a Napoleão registram os períodos em que ele era general, cônsul, primeiro-cônsul, imperador e desterrado na ilha de Elba”. Foi tudo isso, superando inclusive seus ídolos Júlio César e Alexandre da Macedônia. Nem francês era, nasceu na Córsega quando pertencia a Gênoa, que depois virou Itália.

 

 

A prevalência europeia era tamanha que pulava oceano. Influenciou a formação, por exemplo, de nações na América. Para os Estados Unidos, Napoleão vendeu as terras a Oeste do Rio Mississipi, do Golfo do México à divisa com o Canadá, 2.144.520km². Os fãs de filmes de cowboy devem o gênero ao corso, porque sem ele não teria havido western.

 

 

No Brasil, Napoleão deveria ser tratado como um pai da pátria. Transformou-se realmente em país com a chegada da Família Real, que atravessou o Atlântico no fim de 1807 fugindo do… é, dele mesmo, o apaixonado remetente de mensagens para a esposa. A atitude escapista de Dom João VI, elogiada por seu algoz, não foi novidade e teria bis logo após: quando Napoleão chegou a Moscou, em 1812, o pessoal também tinha dado no pé.

 

 

São episódios fantásticos, possíveis temas de séries maravilhosas para streaming. Claro, não sob direção do militante Ridley Scott.

 

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Este post foi escrito por: Demóstenes Torres

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