Nossa Senhora subiu no palanque

Província de Goyaz, aos derradeiros dias do mês de setembro de 1896.
Senhora Madame Editora,
Digo-vos sem medo de errar: o que falta ao brasileiro é conhecimento histórico. Se houvesse pena para que esta vossa colunista pudesse decretar, decretaria ensino de história ao povo dos vossos tão confusos anos, para diminuir-lhes o sofrimento.
Vede senhora, o estranhamento que me assalta quando observo que faltam poucos pares de dias para elegerem presidente desta vossa república e resolveram justamente agora meter Nossa Senhora no palanque.
Ela, que pelo que se sabe, nunca passou por escrutínio algum, parece que vai decidir o páreo.
Por isso o conhecimento da história faz falta e por isso é importante o que vou contar-vos sobre a Santa e Portugal:
Lá nos distantes 1640, D. João IV recuperou a Coroa que Portugal havia sessenta anos via nas mãos dos Filipes espanhóis e recolocou Portugal de pé, com reino, trono, fidalgos e todas essas vaidades que costumam acompanhar os homens quando lhes põem títulos de rei. Restaurou o reino e inaugurou a dinastia dos Bragança. Ouvistes falar?
Recuperada a coroa, no entanto, D. João fez coisa mui curiosa: conservou-a consigo por um tempo e depois entregou-a simbolicamente aos pés de Nossa Senhora da Conceição.
Imagine vosmecê o espanto daquela corte: do dia para a noite tornaram-se súditos de figura celestial.
Dali por diante, os reis portugueses conservaram palácios, criados e todos os demais apetrechos da majestade, mas deixaram de coroar a cabeça. Atente senhora editora, que todos os monarcas portugueses foram retratados com a coroa sobre almofadas, nas mãos, em qualquer outro lugar, mas não mais sobre as cabeleiras.
Em Portugal, a cabeça coroada era somente a da mãe santíssima.
Não acho pouca coisa.
Nem para o lado humano, nem para o sagrado.
Vede então o que aconteceu por aqui: setenta e uma voltas do calendário depois, a mesma Senhora resolveu dar sinal de si no Brasil, e escolhendo as águas do Paraíba, em aparição misteriosa e cinematográfica, veio aos pedaços: primeiro um corpinho de barro, sem cabeça.
Depois, em nova tentativa da rede, os pescadores conseguiram a cabeça que faltava.
E assim o Brasil recebeu sua Senhora: não entre trombetas, sinais no céu ou provisões régias, mas quebrada, molhada e pescada de um rio por três homens pobres.
Aquela pequena Conceição é conhecida até hoje por Aparecida.
Aparecidinha, se me permitis a intimidade.
Portugal tinha a sua Conceição coroada.
O Brasil recebeu a sua sem cabeça.
E olhai que curioso: ambas atravessaram os séculos muito melhor que os homens que lhes administravam o mundo, pois ponderai, madame: reis morreram, dinastias acabaram, impérios caíram, repúblicas nasceram, Constituições vieram e se foram.
As Marias ficaram e acá estão e para além desses muros brasileiros, estão também espalhadas pelo mundo afora.
Por estas bandas de Goyaz não há nisso novidade alguma, pois nossa Senhora entra nas casas sem pedir licença há muito tempo: nos oratórios, nos terços, nas velas acesas, nas benzedeiras que são chamadas a acudir, nas medalhinhas guardadas junto ao peito, nas promessas cheias de esperança.
Maria, por aqui, não é tese teológica, é quase pessoa da família, madame.
Talvez por isso eu tenha demorado a compreender a estranha peleja que se armou nesses vossos dias: quando imaginei que os cavalheiros estariam ocupados discutindo as coisas da Terra, eis que resolveram repartir as do Céu.
Nesta toada, achei por demais ousado quando um dos candidatos declarou que, chegando à Presidência, um de seus primeiros atos seria decretar que o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo.
Tenho muito apreço por Jesus. Não é Ele que me causa inquietação.
É o decreto.
Ignorava que Nosso Senhor estivesse aguardando presidente brasileiro para regularizar a posse, pois ponha tento: sempre imaginei que, sendo Filho do Dono, tivesse documentação bastante.
Depois surgiu a conversa de que tirariam o título de Padroeira do Brasil dela, a Aparecida Mãe do Céu.
Pois vede o prodígio mais curioso de todos: resolveram opor a Mãe ao Filho.
Foi aí que me perdi, senhora!
Temos por acá sentimentos simplórios.
Talvez demasiado provincianos.
Nestes sertões, quando alguém acende uma vela para Nossa Senhora, aquilo não diminui o patrimônio de Nosso Senhor Jesus.
Só reza.
Quando se pede à Mãe, supõe-se que o Filho esteja perfeitamente informado, carece-se somente de fé.
Esta confusão parece mais coisa do demo que do céu.
Foi então que me lembrei dos huguenotes e aí, senhora editora, vejais vós a necessidade do conhecimento histórico, porque cristãos separando-se em bandos para decidir quem compreende melhor Cristo é cousa velha.
Será isso o que o destino reservava para essa republiqueta de Caxias?
Não estou inteiramente convencida de que seja progresso.
Sei bem de guerras, mas somente dos livros, madame. Aqui em Goyaz, uma briga ainda exige certa dedicação.
É preciso encontrar o desafeto. Sair de casa. Atravessar rua. Às vezes montar cavalo.
Pelo que observo, neste 2026 pode-se iniciar uma guerra religiosa deitado numa rede depois do almoço.
Que extraordinária modernidade!
E o que mais me espanta é ver gente procurando convencer cristãos de que, para demonstrar amor a Nosso Senhor, talvez seja necessário desconfiar de Sua Mãe ou desalojá-la de suas funções.
Ora, Madame Editora.
Pelo percebido, os candidatos não sabem quem é Maria.
Ela é a mãe quando a cousa aperta e bem sabeis que isso é muito.
E há outro detalhe que talvez os cavalheiros estejam esquecendo.
As Marias votam: as que rezam o terço e as que vão ao culto, as que professam a fé em cachoeiras e as que conversam com os mortos: cada uma do seu jeito mariano de ser.
E todas entram sozinhas no lugar do voto e atrás da cortina não entra marido, padre, pastor, coronel, candidato nem colunista.
Cada Maria fica por sua própria conta.
E talvez seja esse o ponto que mais divirta Nossa Senhora.
Porque ela já assistiu a cousas maiores, não haverá de perder o sono por eleição brasileira.
Vede então como são frágeis essas majestades todas.
Se até rei some, que dirá candidato.
E isso me fez lembrar de Dom Sebastião que sumiu em uma névoa em 1578 e até hoje tem gente esperando por ele… mas isso é história e deixo para outro dia…
Saudações marianas, progressistas e democráticas,
Vossa fiel amiga,
Sinhá