Novembro Azul com prevenção sem preconceito

A saúde masculina ainda carrega o peso de barreiras culturais profundas que afastam os homens dos consultórios médicos, especialmente do urologista. Enquanto mitos e tabus em torno da masculinidade perpetuam a ideia de que buscar atendimento é sinal de fragilidade, doenças silenciosas avançam sem alarde. Essa resistência, motivada pelo medo de diagnósticos e pelo preconceito com exames preventivos, cobra um preço alto da qualidade de vida e da longevidade. Esta entrevista do médico urologista Bernardo Monteiro Antunes Barreira, diretor da Sociedade Brasileira de Urologia, seccional Goiás, e coordenador da especialidade Urologia no Hospital do Coração de Goiás convida a refletir sobre as origens desse comportamento e sobre como a prevenção é, na verdade, o maior ato de responsabilidade que um homem pode ter consigo e com quem o ama.
BBnews – Por que tantos homens ainda resistem em procurar um urologista e quais são as consequências desse comportamento?
Bernardo Monteiro – Cuidar da saúde masculina ainda é um desafio. Não sou apenas eu que digo isso: em 2009, o próprio Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, reconhecendo a necessidade de ampliar o acesso dos homens aos cuidados de saúde.
E qual a razão disto? Simples – o fato de o homem adulto brasileiro ter muita dificuldade em se cuidar. Isto mesmo. Hoje conseguimos entender por meio de dados e estatísticas que o indivíduo do sexo masculino, devido a várias barreiras culturais e emocionais tem dificuldade de se cuidar. De se ver como paciente. De prevenir e tratar seus próprios problemas de saúde.
Culturalmente, os homens desde a infância são ensinados a demonstrar força e ignorar a dor. A procura por cuidados médicos ou psicoterapêuticos costuma ser associada, de forma errônea, à fragilidade, dependência ou fraqueza. Historicamente, as práticas cotidianas de saúde e autocuidado foram inseridas no imaginário de nossa sociedade como responsabilidades do universo feminino. O homem costuma se enxergar exclusivamente como provedor e, assim, negligencia o próprio corpo.
BBnews – Além do câncer de próstata, quais problemas de saúde masculina podem evoluir sem sintomas e passar despercebidos?
Bernardo Monteiro – A prevenção e a detecção precoce do câncer de próstata são motivos importantes para a procura pelo urologista. Mas essa consulta também pode ser uma oportunidade para avaliar a saúde masculina de forma mais ampla e identificar a necessidade de investigar outras condições.
Hipertensão arterial sistêmica, Diabetes, distúrbios do colesterol são exemplos de doenças de início silencioso e que podem ser descobertas em sua fase inicial com exames simples. A saúde mental também merece atenção. Sintomas de ansiedade, depressão e outros transtornos podem ser minimizados ou negligenciados, adiando a busca por ajuda. Na área urológica, o crescimento benigno da próstata, a presença de cálculos renais e a investigação de tumores renais também faz parte do rastreio rotineiro.
BBnews – O medo de descobrir uma doença faz com que alguns homens adiem a consulta mesmo quando percebem alterações no próprio corpo?
Bernardo Monteiro – Sim. O medo de receber um diagnóstico grave é uma barreira importante para a procura por atendimento médico. Para alguns homens, adiar a consulta parece mais fácil do que enfrentar a possibilidade de descobrir uma doença. No entanto, evitar o diagnóstico não evita a doença — e pode atrasar o tratamento.
Para piorar a situação, no caso da consulta com o urologista – este sim, o médico do homem – ainda enfrentamos tabus e barreiras em torno do toque retal. Exame que, associado a outros, faz parte do rastreio e diagnóstico do câncer de próstata em sua fase inicial.
BBnews – Quais cuidados e avaliações devem fazer parte do acompanhamento da saúde masculina ao longo da vida?
Bernardo Monteiro – Acompanhamento regular com seu médico de confiança é essencial. Hábitos de vida saudáveis têm um papel essencial para uma vida longeva e com autonomia. Exercício físico regular é indispensável. Dieta saudável e a prevenção da obesidade também têm um papel primordial.
Neste Novembro Azul, nossa mensagem é simples: cuidar da própria saúde não é sinal de fraqueza, mas uma atitude de responsabilidade com a própria vida e com as pessoas que amamos.