O abocanhar das saúvas famintas

Província de Goyaz, primórdios de setembro de 1896.
Caríssima Editora,
Francamente!
A cada vez que me debruço para comentar sobre os pretendentes à vossa presidência, as novas saem a atropelar a República, os candidatos, os juristas, as instituições e até este meu cerrado oitocentista, que não se aquietou desde a cabeleira viva, a bomba de átomos e os mortos.
Pergunto-vos: quando, sob o cetro imperial, desatino desta ordem sucederia sobre a pátria?
Quelle pétaudière, Madame! Vosmecês chamam República ao que os franceses, mais sinceros, chamariam la cour du roi Pétaud: todos governam, ninguém obedece e o cocheiro, ocupado em negociar os arreios, já não segura as rédeas.
Tenho, acá neste calorão de meu Deus, com os poucos volumes de que disponho, medido forças com o idioma de Molière, Voltaire e Victor Hugo, ponha tento! O francês é língua em que se ri dos poderosos, derrubam-se tronos e depois se escrevem longos volumes lamentando os escombros. Como não aprendê-la?
Deparei-me, já vos disse na escassa biblioteca francesa que possuo, com uma frase que já completou cinquentenário. Sainte-Beuve escreveu em 1839:
«Quelles pétaudières sont les démocraties! On ne sait à qui s’en prendre.»*
Apropriadíssima, eu diria!
Pois busco nesses estudos, aos quais tenho me dedicado por estes dias, referência ao meu Goyaz, terra que inspira, nos estrangeiros, grande curiosidade.
Ouvistes vós falar do naturalista e botânico Auguste de Saint-Hilaire? Pois este francês acá esteve no começo deste século a fim de botar os olhos no nosso cerrado e nas nossas riquezas, sem, ainda bem, a sanha devoradora dos Bandeirantes e das demais frentes de conquista, que roubaram do nosso solo riquezas sem fim, além de maltratar à beira da extinção o Kayapó, o Xavante, o Xerente, o Karajá, o Javaé, o Avá-Canoeiro e os Goyá, a quem choramos como verdadeiros donos deste terreno.
Entrou o viajante pelo Registro dos Arrependidos, passou por Santa Luzia, Corumbá, Meia Ponte e Jaraguá, demorou-se em Vila Boa, nossa Capital, descrevendo-a como uma espécie de “oásis no meio do deserto”, visitou aldeamentos, examinou rios, serras, plantas, ouro, diamantes e homens. Deixou esta Província ao atravessar o Rio Grande, depois de quase quatro meses de jornada, levando milhares de espécies para a Europa para deleite de estudo. As saúvas, prudentemente, pois que bobo não era, deixou conosco.
E aí está o que me fez refletir sobre o Senhor Auguste e esta Republiqueta de vosmecê. Disse o europeu, como vidência: “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.
Observe senhora editora que estais a 210 anos de distância do francês e mesmo no vosso tempo, o vaticínio do homem se ajusta ao Brasil como roupa feita por encomenda, sem intenção de parecer trocadilho com alfaiate brasiliense que tem seus préstimos estendidos a lavar roupa, lavar terno, lavar toga e lavar também dinheiros.
Estais todos vós dos vossos dias, cercados pelas saúvas, formigas-cortadeiras, não as vedes, Madame? Pequenas, diligentes e subterrâneas, se algum bem prestam à terra, somente males parecem fazer à Pátria. Percebais isso?
As saúvas do vosso tempo já não carregam somente folhas. Carregam contratos, mensagens, sigilos, influências, favores e pedaços inteiros da República. Uma leva o dinheiro; outra, o recado; uma terceira apaga o carreiro. Quando alguma é descoberta, bate as antenas, aponta para a vizinha e jura que apenas cumpria seu ofício.
Sob o Império, Madame, havia rédeas, cocheiro e caminho. Na República, cada qual puxa para seu lado, enquanto as alimárias negociam os arreios e as saúvas trabalham por baixo da estrada.
Por certo o Brasil não acabou com elas, nem elas acabaram de uma vez com o Brasil. Fazem coisa mais engenhosa: levam-no aos bocadinhos.
E quando vosmecês finalmente derem pela falta da Pátria, receio que já não encontrem senão o carreiro.
Despeço-me, madame, entristecida.
Ainda choro por Pedro II.
Ainda choro pelo Império.
Sinhá
*”Que desordens são as democracias! Não se sabe a quem responsabilizar.”